Todos os dias, quando chega em sua sala na Escola Estadual “José dos Reis Miranda Filho”, Rosiléia da Costa Borges, 37, a professora Léia, olha para o crucifixo na parede e agradece. Primeiro, por estar viva. Depois, por poder retornar para mais um dia de trabalho cinco anos após sofrer um gravíssimo acidente automobilístico na rodovia. Agradece também pelos movimentos dos seus braços terem sido preservados, mesmo com a lesão sofrida na coluna, e assim poder abraçar seu filho Lucas, hoje com 9 anos.
Após capotar o carro na estrada, Léia ficou paraplégica. Ela não sente e nem movimenta o corpo, da altura dos ombros para baixo. Mas os braços e a cabeça não foram afetados. Léia e dois irmãos voltavam de uma fazenda para a casa dos pais em Sacramento (MG) quando se acidentaram. Ela, com 32 anos na época, dirigia o carro - um Fox - quando se abaixou para trocar um CD e acabou perdendo o controle da direção. O veículo capotou e, sem cinto de segurança, ela foi arremessada para fora do veículo. Era a madrugada do dia 16 de setembro de 2007.
Os irmãos, que nada sofreram, saíram à procura dela no meio do mato e a encontraram desacordada e sem batimentos cardíacos. “Meus irmãos já estavam chorando, gritando com Deus por eu ter ido embora. Eles me balançaram e eu voltei a respirar. Fiquei alguns momentos sem oxigenação no cérebro, mas não tive lesões.”
RECOMEÇO
Começava, naquela data, uma grande batalha na vida de Léia. “O doutor Sinésio (neurologista) disse para eu esquecer a Léia de antes do acidente porque ela tinha morrido.” A sentença que ouviu do especialista não a desanimou. “É muito difícil viver com as lembranças da Léia de antes porque eu sempre fui uma pessoa muito ativa e de repente me vi deitada em uma cama, mas a vida continuou e eu decidi agarrar com unhas e dentes todo o tratamento. Nunca me entreguei e vou lutar sempre. E essa força é que me moveu até aqui”, disse.
A lesão é irreversível. Ela usa uma cadeira de rodas especial que lhe permite ficar em pé (leia mais nesta página).
Léia passou por cirurgias para colocação de placas e parafusos na coluna, faz fisioterapia, se tratou em um centro especializado em Brasília, enfim reaprendeu a viver. Hoje, depende de uma cadeira de rodas, mas dirige carro adaptado - inclusive já viajou dirigindo para São Paulo, acompanhada somente pelo filho -, passeia no shopping, faz compras no supermercado; aprendeu a nadar usando apenas os braços, integrou um time de basquete de cadeirantes na cidade e agora está de volta ao trabalho.
Léia começou a lecionar aos 19 anos e é professora efetiva da rede estadual de São Paulo. No último dia 5 de setembro, ela começou a escrever um novo capítulo de sua vida profissional. Professora readaptada, passou a integrar a equipe de funcionários da Escola Estadual “José dos Reis Miranda Filho”. Na unidade, auxilia as professoras, digita projetos escolares, orienta alunos no reforço escolar e aconselha as crianças. Mesmo com as limitações, quis voltar a trabalhar. Disse que é por amor à profissão e por acreditar na educação. “Não é porque meu corpo paralisou que vou parar. Estar com as crianças e contribuir com a educação é algo que me faz sentir viva.” Léia ainda é presidente da creche municipal do Jardim Palestina.
Ela trabalha meio período durante a semana na escola estadual. Sempre reserva um tempo para estar com o filho. “Ele é a razão da minha vida. Minha luta é dar o amparo para meu filho. Mamãe não mexe, mamãe anda na cadeira de rodas, mas o amor da mamãe é o mesmo”, disse, chorando.
Lucas estaria com a mãe no dia do acidente, mas preferiu ficar com os avós. “Na noite do acidente, ele acordou de madrugada gritando ‘socorro, ajuda, ajuda’ e foi na hora em que tudo aconteceu. Passou um tempo, o telefone da minha mãe tocou para avisarem do capotamento. Acho que ele sentiu o que estava acontecendo.”
Leía disse que trava uma batalha para acabar com o pesar sentido pelas pessoas. “Eu vivi muito a vaidade, a beleza e hoje ouço muitas pessoas me olharem e falarem ‘que pena, ela tem um rosto tão bonito’. Mas vivo a cada dia para que elas não tenham dó de mim e sim respeito”, disse Léia, loira de olhos verdes.
Na mesma parede em que fica o crucifixo na sala de Léia, há três borboletas verdes decorativas. Em uma de suas cadeiras de rodas, a professora também “transporta” imagens desses insetos. “Como as borboletas, sinto que saio do casulo para voar, ter esse vôo de transformação, de metamorfose. E sempre uso mais de uma borboleta para decorar porque não faço nada sozinha e, se hoje estou aqui é porque tenho meu filho, minha ajudante lá em casa, meu namorado, meus amigos. Agradeço a todos”, disse a alegre, sorridente e emotiva professora Léia.
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