Sidnei Franco da Rocha escreveu o seu nome na história de Franca. Ele foi o político que governou a cidade por mais tempo. Foi o único a conseguir fazer o sucessor. De longe, foi também o mais polêmico. A história de Sidnei desafiaria muitos roteiristas. Faz lembrar o desenrolar de um filme, de uma novela em que o final feliz se dá depois de altos, baixos e reviravoltas. No caso de Sidnei, depois de vitória, renúncia, morte política, ostracismo, volta por cima, aprovação recorde e reconhecimento público. Este personagem singular da história de Franca vai se retirar de cena daqui a poucos dias.
Sidnei Rocha disputou a sua primeira eleição em 1976. Foi o vereador mais votado de Franca. Ficou na Câmara por seis anos. Resolveu candidatar-se a prefeito em 1982. Ganhou, mas não cumpriu o mandato até o final. Em abril de 1987, renunciou ao cargo para assumir a presidência da Vasp. Muitos acreditavam que estava assinando o atestado de óbito político. Pouco mais de um ano depois, já havia deixado o comando da companhia aérea e mergulhou num ostracismo público.
Por duas vezes, tentou voltar à Prefeitura. Se frustrou. Em 2004, deu a volta por cima. “O defuntão político ressuscitou”. A frase que usou para definir a vitória ficou famosa. E mais verdadeira do que nunca. Sidnei conseguiu a reeleição sem dificuldades.
O prefeito cumpre o segundo mandato e não poderia se candidatar nas eleições de outubro passado. Sem um bom nome no partido e rompido com antigos aliados, poucos acreditavam que conseguiria manter a Prefeitura sob o comando do PSDB. “Vamos ganhar as eleições. Disto, eu não tenho a menor dúvida”, contrariava as expectativas. Dito e feito. Apadrinhou Alexandre Ferreira e fez do ex-secretário de Saúde o próximo prefeito de Franca. Mesmo sem ter disputado, Sidnei Rocha foi o grande vitorioso.
No dia 31 de dezembro, Sidnei pisará na Prefeitura pela última vez na condição de administrador da cidade. Ele não quer mais ser prefeito. Dificilmente, disputará uma eleição para deputado. Mas, engana-se quem pensa que ele vai ser calar.
O polêmico político recebeu o repórter Edson Arantes em seu gabinete no começo de novembro. Foi a última entrevista especial que concedeu como prefeito para o aniversário de Franca. Fez um balanço de seu governo, falou das adversidades, comentou sua personalidade forte, da alegria de fazer o sucessor e de seus planos para o futuro. Foi autêntico como sempre, respondeu de pronto e não escolheu as palavras. Colocou a boca no trombone.
Revista Franca 188 - No dia 31 de dezembro, o senhor deixará de ser prefeito depois de oito anos. Já está dando saudades?
Sidnei Rocha - Não, não está dando saudades porque nós continuamos trabalhando normalmente. Nós vamos levar nosso trabalho com seriedade até o último dia. Estamos tocando mais de 20 obras no momento. De forma que, não estou com saudade ainda não. Acho que cumpri minha missão. Isto que é o importante.
RF - O senhor disputou cinco eleições para prefeito. Perdeu duas, ganhou três e acaba de fazer o sucessor. Vai dependurar o paletó e encerrar a carreira no fim do ano?
Sidnei - Vou. De fato, não pretendo mais voltar a ser prefeito. Acho que três administrações com bastante sucesso, muito bem avaliadas, é o suficiente. É a minha contribuição que vou deixar historicamente para a cidade de Franca. Esta última, agora, teve um acréscimo importante que foi a mudança de mentalidade. É uma cidade, hoje, que acredita em si, é uma cidade que perdeu aquele ar provinciano de vamos perder, vamos ser derrotados. Acho que este é um legado importante que deixo. Repetindo: não pretendo mais voltar a ser prefeito, não.
RF - Uma eleição para deputado o senhor toparia?
Sidnei - Também é algo que questiono muito. Acho muito difícil de querer ser deputado. Já disse várias vezes. Ainda não há uma decisão definitiva em relação a esta possibilidade, mas a tendência é não também.
RF - O que o senhor vai fazer a partir de 1º de janeiro de 2013, quando deixar a Prefeitura?
Sidnei - Esta é uma boa pergunta que me faço e ainda não tenho a resposta. Vou terminar o mandato, descansar uns dias e, depois, ver o que vou fazer. Pessoas como eu podem fazer várias coisas. Sou versátil, mas não tenho um plano definido e nem quero definir agora, senão eu posso perder o foco e não vou deixar estes últimos dias de administração, de forma nenhuma, em segundo plano.
RF - Durante os últimos oito anos, o senhor acordou por volta das 6 horas, tomou café e seguiu para a Prefeitura. Sempre teve uma atividade para fazer logo cedo. O senhor já parou para pensar quando levantar-se no dia 1º e não ter mais a Prefeitura como destino?
Sidnei - Não, não parei para pensar. Se necessário, falarei com o meu médico para ele receitar um Lexotan para eu dormir até mais tarde.
RF - Como o senhor gostaria de ser lembrado pela população de Franca depois de três mandatos governando a cidade?
Sidnei - Gostaria de ser lembrado como uma pessoa que lutou muito por Franca. Uma pessoa que escolheu Franca para ser a sua cidade e que lutou sempre por ela, sofreu muito, foi injustiçado, caiu levantou, foi o “defuntão” que ressuscitou politicamente. Gostaria de ser lembrado como uma pessoa idealista, acredito que dá para transformar as coisas, melhorar o mundo, melhorar a cidade para todo mundo. Gostaria de ser lembrado, assim, como uma pessoa que foi corajosa, que lutou muito e que conseguiu melhorar a sua cidade, a condição de vida de seu povo.
RF - Se fosse permitido disputar o terceiro mandato consecutivo, o senhor teria disputado?
Sidnei - É possível que sim, é possível. Você acaba se entusiasmando, você acaba fazendo novos planos e projetos e a coisa não para. Eu acho, até, que se tivesse um terceiro mandato, eu topava sim.
RF - O que consertaria, o que faria que ainda não foi feito?
Sidnei - Se fosse prefeito mais quatro anos, revisaria algumas coisas, procuraria dinamizar um pouco mais. Com dívidas pagas, com uma melhor estrutura da Prefeitura, você tem que ir se reciclando. Uma administração tem que se reciclar sempre. Não pode ser aquela repetição. Quando fui reeleito, disse a vocês: “Os primeiros quatro anos foram para treino, o jogo começa agora”. Se tivesse um outro mandato, eu ia dizer: “Nós fizemos o primeiro tempo do jogo, agora nós vamos para o segundo tempo”.
RF - O senhor concluirá o segundo mandato consecutivo com cerca de 90% de aprovação e ainda conseguiu fazer o sucessor. Qual é o sentimento?
Sidnei - Estou muito feliz. Nem sempre quando trabalha, você vai na direção certa e tem o reconhecimento da população. Pelo visto, trabalhei na direção certa, tenho o reconhecimento da população e, isto, é o grande pagamento, porque o salário de prefeito é muito baixo. Não vim aqui por causa de salário. O grande pagamento que recebo da população é esta aceitação. Isso me deixa muito feliz, porque vim para consertar e parece que consegui.
RF - Qual foi o momento mais difícil de sua administração?
Sidnei - O começo. Foi muito difícil, a Prefeitura estava muito desorganizada. Não era só problema de dívida, mas a cidade estava totalmente abandonada, esburacada. Os primeiros dois anos foram terríveis. Felizmente, tive um vigor, cabeça e equilíbrio de enfrentar todos aqueles problemas e começar a mostrar ao povo que dava para fazer diferente, que dava para fazer melhor. Mostramos.
RF - Diante de tantas dificuldades, em algum momento o senhor pensou em desistir?
Sidnei - Não, em nenhum momento eu pensei nesta possibilidade. Meu pensamento sempre foi positivo: “Vai dar, vou conseguir, vamos melhorar”. É o meu estilo, né? Sou uma pessoa muito positiva, mesmo me sentindo cansado e meio doente, não arrefeci.
RF - O senhor adora falar, não recusa pedidos de entrevistas e está sempre discursando. Chegou a falar alguma coisa que tenha se arrependido depois?
Sidnei - Não, porque as coisas que a gente fala tem uma força no momento. Claro que, se você for pegar, agora, todas as entrevistas que dei, pode ser que eu diga: “Isto aqui eu não deveria ter falado”. Mas, no momento, era importante falar. Como a minha proposta era - e sempre foi - levar a cidade à frente, fazer com que as pessoas se desacomodem, que sempre foi o meu estilo, aquilo que falei foi importante no momento. Agora não dá para fazer análise de coisa do passado. Se falei, era porque precisava falar.
RF - Tem alguma coisa que não falou e que se arrepende de ainda não ter falado? Aproveite, o mandato está acabando...
Sidnei - Acho que falei praticamente tudo o que precisava ser falado. Talvez, deva repetir algumas coisas para frente, aí, para desacomodar algumas pessoas, principalmente, os nossos deputados. Eles estão muito acomodados e podem ajudar muito, muito mais desde que se organizem e parem com frescura de ir contra o outro. Os deputados têm que se juntar e trabalhar ao lado do novo prefeito e defender os interesses da cidade. Em muitos momentos eles foram omissos. Não pode. Eles foram eleitos pela população para trabalhar para a nossa cidade e, é por isto, que cobrei em recente entrevista e que deverei cobrar outras vezes.
RF - Como o senhor lida com a fama de autoritário e centralizador que tem?
Sidnei - Como você disse, é só fama. Eu não sou autoritário, sou firme em minhas decisões. Autoritário é outra coisa. Muita gente fala: “É porque é autoritário, não gosto do estilo dele”. Meu estilo é de resultados. Não adianta nada ficar aquele político vaselina, bonzinho, todo fresquinho e não apresentar resultados.
RF - Estes ‘fresquinhos’ dizem que o senhor é autoritário, centralizador, ditador, mandão, algumas vezes mal educado. Na verdade, como o senhor se define?
Sidnei - Uma pessoa sincera, totalmente sincera, que não sabe mentir, que não sabe procurar subterfúgios, mas que busca resultados. Simples assim.
RF - Como foi para o senhor contrariar algumas opiniões dentro do PSDB e fazer o sucessor como havia prometido um ano antes?
Sidnei - Normal. Nós trabalhamos muito para isto. Vejo sempre vitória ou derrota como uma coisa normal. Se você é derrotado, você precisa rever alguns valores e ver os motivos. Se venceu, ótimo, não fez mais nada do que a obrigação. Não queria ganhar? Trabalhou, ganhou, ótimo.
RF - O que o Alexandre Ferreira poderá fazer que vai deixar o senhor orgulhoso?
Sidnei - Fazer uma boa administração, continuar este trabalho que é a grande proposta. Espero, realmente, que ele faça isto.
RF - Qual o maio ensinamento que o senhor deixa para o Alexandre?
Sidnei - O Alexandre é um grande trabalhador. O que sempre falo para ele é o seguinte: “Agora, precisa ter o jogo de cintura político”. É um aprendizado necessário. Nos primeiros meses, ele deve levar algumas trombadas e dar algumas cacetadas e, assim, vai aprendendo. Se não aprender, lá na frente se ferra. Tem que aprender agora no começo.
RF - Como o senhor espera ajudar as novas lideranças políticas como tem prometido?
Sidnei - Depende delas. É preciso ver a coerência de cada um, a postura, a conduta, enfim, a proposta. Não basta somente querer ser. Precisar criar condições de ser. Espero que trabalhem com muita seriedade. A política desvirtua um pouco e as pessoas começam a abandonar uma linha de seriedade, honestidade, de busca de resultados.
RF - Durante sua administração, o senhor criticou a falta de resultados dos esportes profissionais, principalmente, o time de basquete. Chegou até mesmo a dizer que reduziria a verba repassada ao Franca Basquete caso o clube não vencesse. Qual balanço faz dos resultados da equipe nos últimos anos? Patrociná-lo valeu a pena? Haverá renovação do contrato? Aumento, manutenção ou redução de verbas?
Sidnei - Valeu a pena, sim. O nosso basquete é um dos grandes divulgadores da cidade. Precisava ter uma renovação. Começou a envelhecer demais e ser muito repetitivo. Esta renovação está em andamento. Sou favorável que a Prefeitura continue ajudando. O basquete é uma marca internacional de Franca, como é o sapato, e não podemos perder isto. Vou pedir ao novo prefeito que melhore a verba para o ano que vem.
RF - Por que razão a área de cultura foi tão relegada a terceiro plano na sua administração? Por que não existiu uma agenda cultural expressiva que contemplasse os artistas da cidade?
Sidnei - Existiu, sim. Inclusive, o próprio Teatro de Bolso que fizemos para os amadores, reforma do Teatro Municipal, agora a reforma da casa do artista, Virada Cultural... Demos apoio, sim. O problema é o seguinte: têm muitos artistas que querer viver daquilo e querem o dinheiro da Prefeitura, como tem muita gente no País que vive pendurada na Secretaria de Cultura, no Ministério da Cultura. Aquilo que deu fazer sem muitos gastos, nós fizemos, demos muito apoio. O problema é que tem muita gente que se diz artista, mas que na verdade quer vender produto. O poder público não pode ficar pondo dinheiro para que as pessoas faturem.
RF - O senhor gosta de ler?
Sidnei - Muito, principalmente, as grandes biografias: Churchill, Hitler, Cícero.
RF - Qual o maior erro que o senhor cometeu em seu governo?
Sidnei - Maior erro? Não sei. A gente, quando erra, procura consertar e esquecer. Então, os erros que tive eu já esqueci.
RF - O que o senhor faria diferente?
Sidnei - Nada. Acho que, pela própria aceitação que temos, não deveria ter feito nada diferente porque é muito difícil mesmo chegar a este patamar.
RF - Qual foi o pior secretário de seu governo?
Sidnei - Todos foram bons. Como já disse, eles me deram trabalho, se bicavam muito, mas foram ótimos. Em um administração que você pretende que tenha êxito, todos dão um pouco de trabalho, como acrescentam muito também.
RF - Então, qual foi aquele que mais deu trabalho, o mais chato, que o senhor teve que ‘pisar em ovos’ com ele no trato do dia-a-dia?
Sidnei - Não sou de pisar em ovos. Sempre fui muito sincero com todos.
RF - Como será a sua participação no próximo governo? Estará mais perto ou ficará a distância?
Sidnei - Não quero ter participação nenhuma. Estarei acompanhando como acompanho a vida da cidade sem grandes preocupações. A preocupação, agora, tem que ser dele. Já perdi os meus cabelos todos nestes oito anos. Quem vai perder o restinho, agora, é o Alexandre.
RF - Qual foi a obra realizada que o senhor mais sente orgulha?
Sidnei - Não tem, não. Tudo, foi importante, como a canalização de córregos, creches e escolas. Não elejo uma obra. Sou um político diferente. Muitos escolhem uma coisa para marcar a administração. Eu prefiro ficar marcado por uma aceitação enorme da população em todas as áreas. Já tenho o meu troféu: o meu troféu são estes 90% de aprovação.
RF - Alguma ‘injustiça’ tirou o seu humor?
Sidnei - Tirar o meu humor é facinho, rápido. Mas logo eu retomo ele. Não, não teve nada. Quem vem aqui ser prefeito sabe que há as pessoas que querem destruir, prejudicar você, e tem aquelas que querem ajudar. É preciso tocar em frente.
RF - Quando retornou à Prefeitura em 2004, o senhor disse que o ‘defuntão havia ressuscitado’. O defuntão conseguiu a reeleição, fez o sucessor e atingiu elevada aprovação. O que o senhor diz, agora, faltando poucos dias para deixar a Prefeitura?
Sidnei - Não tenho muito o que dizer. Só tenho a dizer que estou feliz. Missão cumprida.
RF - Valeu a pena prefeito?
Sidnei - Muito, muito.
RF - Passou o treino, o jogo começou e chega ao seu final. O senhor saiu vencedor?
Sidnei - Acho que sim. Acho que deu para a gente ganhar o jogo. Vamos deixar um legado muito importante em administração pública, em resultados. Acho que podemos dizer, sim, que cumprimos objetivamente aquilo que tínhamos proposto.
RF - O que gostaria de dizer para encerrar esta entrevista?
Sidnei - Quero agradecer muito todos os que acreditaram em mim, todos os que trabalharam comigo, todos os servidores, todos os companheiros, todos aqueles que divulgaram a nossa administração, a imprensa. Até as críticas, algumas sem fundamento dos meninos novos, eu compreendi tudo isto. Saio daqui sem mágoas, de coração aberto, feliz. Esta é a grande mensagem que deixo: uma mensagem de felicidade, que temos uma nova cidade e que ela tem que caminhar para frente. Enquanto eu puder, estarei ajudando.
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