Diz a Bíblia que depois de trabalhar durante seis dias e seis noites na criação do mundo, no sétimo o Senhor Deus teria parado para descansar um pouquinho, o que seria uma espécie de gênese do descanso semanal aos domingos. Nada mais justo. A despeito de uma posição criacionista ou evolucionista, a simbologia é clara. Há que se ter um tempo de descanso para recarregar as energias. Se com Deus, que é Deus, foi assim, imagine com os pobres mortais?
Dentro desse contexto, a proposta da Asfre (Associação de Supermercados de Franca e Região) de fechar aos domingos é até bastante razoável, tanto para os funcionários como para os próprios empresários, pois lhes permitiria um descanso que nesse setor já não existe faz um bom tempo, para além daquele desejado e diferenciado espaço de convivência familiar que só é possível nos domingos e feriados.
O problema, no entanto, é que no mundo atual as coisas mudaram bastante. A dinâmica é completamente diferente daquela experimentada em tempos passados, quando a vida seguia mais devagar, as pessoas se preparavam para o final de semana e tudo fechava no domingo. Hoje, o que domina é a conveniência, um dos principais atributos do marketing moderno, uma característica que já assumiu ares comportamentais em nossa sociedade, até mesmo nas pequenas cidades do interior. Mais atarefadas e quase sem tempo para nada durante a semana, além de dedicarem-se ao trabalho e aos filhos, muitas pessoas utilizam o domingo para fazer suas compras e colocar as coisas em dia.
Em função disso, a proposta pareceu um pouco sem sentido, em todos os seus aspectos. Por um lado, esse fechamento iria contra o comportamento da sociedade moderna. Tentar modificá-lo em um curto espaço de tempo seria em vão, até porque outros empreendedores iriam ocupar esse espaço antes que a mudança se concretizasse. Por outro, essa dinâmica é importante para gerar mais empregos e manter a economia aquecida, pois incentiva, impulsiona e abre mais possibilidades para as pessoas consumirem, o que é fundamental para os próprios supermercados.
Mas se o problema for mesmo encontrar pessoas que estejam dispostas a trabalhar aos domingos, como foi explicitado pela Asfre, melhor do que fechar o supermercado é melhorar as condições de remuneração e atratividade desses cargos. Como tudo na vida, as relações de trabalho também se baseiam na troca. De forma geral, os funcionários vendem sua força de trabalho em troca de uma remuneração que lhes permita viver o máximo possível de forma digna e confortável.
Porém, como toda a troca, ela só acontece se as duas partes sentirem satisfação no acordo proposto. Nesse sentido, mesmo que consideremos a importância e a simbologia do domingo enquanto dia de descanso, divertimento e reflexão, nos dias de hoje ainda é fácil encontrar muitas pessoas que estariam dispostas a trocá-lo por uma remuneração mais atrativa do que a normal.
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