Negócios: floriculturas esperam vender até 40% no Dia de Finados


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Depois de perambularem meia vida por sítios de Minas e Goiás, arrastando sua ninhada e seus trastes, o pai e a mãe estavam imbuídos de coragem ou de desespero bastante para querer mudar a sina dos filhos. Assim, fizeram promessas à Santa das Causas Impossíveis - Santa Rita de Cássia, embarcaram na jardineira do êxodo e rumaram em busca de eldorado.

O passo dado era largo, e a coragem estava trêmula. Por isso, a hesitação venceu, e eles desembarcaram nas proximidades da cidade grande, e fixaram morada na pedreira do Horácio Rosa, donde avistavam a igreja e algumas casas lá no alto da colina. Às vezes, quando o vento soprava a favor, crianças e adultos escutavam os dobres do sino convidando para a missa, ou anunciando a Ave Maria, ou chorando dolente a partida de algum morador.

Diuturnas visitas à cidade, para entrega de leite - uma das múltiplas obrigações do pai - minoraram o medo do desconhecido. Então, concluiu-se a travessia definitiva: a família veio morar na cidade de Franca.

Era o ano de 1951, e mais de vinte mil moradores enchiam as ruas e os olhos dos recém-chegados que pisavam uma estrada desconhecida, de onde a cantiga do carro de boi era apagada, abafada pelo ronco de caminhões Chevrolet.

- Se mal lhe pergunte, o senhor mora aonde?

- Eu moro na Cidade, e o senhor?

- Eu moro na Estação.

Naquele tempo, só havia duas bandas. À esquerda do Córrego dos Bagres, ficava a Cidade, com a Igreja Matriz, a Capelinha, a Praça Nossa Senhora da Conceição, a Praça Barão, a Praça Nove de Julho, a Rua do Comércio, a Santa Casa de Misericórdia, as lojas importantes.

Da outra banda do córrego, ficava a Estação, com a estrada de ferro, a Mogiana, o Grupo Escolar Barão da Franca, a capelinha de São Benedito.

No lado da Cidade, estavam as fábricas de sapato, o Curtume Progresso, e o cemitério. Lá na ‘terra dos índios‘, ficavam a fábrica de tecidos, a Cotai, o curtume do Pulicano e o matadouro. E foi lá perto dele que a família se ajeitou em casinha de paredes próximas e quintal grande.

As muitas habilidades acumuladas pelo pai ao longo de quarenta anos, em três estados da federação, resultaram moeda desvalorizada no moderno sítio. Por isso, ele derramou suor durante muitas noites, atirando troncos de eucaliptos na bocarra da fornalha da fábrica de tecidos, a fim de levar para a ninhada o pão sem manteiga de todos os dias. A mãe se adaptou mais depressa ao novo meio. Em pouco tempo já comprava arroz e toicinho com os minguados cruzeiros recebidos em troca de lavar e passar roupa para senhoras lá da Cidade. A mulher ainda arranjava tempo para plantar alface e tomate nos fundos da casa; e, na frente, cultivava canteiros de margaridas que, no Dia de Finados, vendia às braçadas.

Aos domingos, depois da missa, o pai e a mãe, rodeados dos filhos, plantavam sonhos.

- Esses meninos tudo vai virar gente... vai virar doutor...Todo mundo vai ter roupa bonita, sapato...

O tempo cochilava naquele tempo, e as jardineiras e os caminhões continuavam a despejar outros meninos e outros pais na Estação Rodoviária ou em casebres levantados lá nas divisas da periferia com as fazendas de café e de gado.

- Tá chegando gente demais... não vai caber tudo aqui não...

O pai externava preocupação, mas não deixava de adubar verde no coração da prole. A garantia vinha junto com empurrão:

- Arranjei essa caixa de engraxate . Vai lá no Oripe Barbeiro, pede pra ficar engraxando lá.

- A Dona Xuxinha mandou você ir lá. Se ela gostar, arruma serviço pra você.

Assim, quando chegaram aos dez anos de idade, todos os filhos já trabalhavam.

- Acorda, menino.

- Acorda, menino.

A voz da mãe e a voz do pai me cutucam. Acordam-me para a constatação que também dormita preguiçosa.

- Acorda, menino.

A voz da mãe e a voz do pai me chegam nas asas dos acordes da serenata que se insinua nas casas, nas ruas, nos bairros.

-Acorda, menino.

A voz da mãe e a voz do pai me chegam do céu colorido de fogos de artifício. Chegam no trom dos foguetes que espocam em todos os quadrantes.

- Acorda, menino.

Esfrego os olhos, perco-me em tentativas. Não mais preciso a cidade vista lá da pedreira do Horácio Rosa. Não mais preciso a banda da Estação, nem a banda da Cidade, tudo se confunde no aglomerado que subiu todas as colinas, invadiu vales, inundou as planícies.

- Acorda, menino.

Ouço a voz do pai e a voz da mãe, fecho os olhos e embarco em jardineira amarela.

Atravesso muitas vezes, para lá e para cá, o Córrego dos Bagres e outros riachos. Viajo muitos quilômetros em direção aos pontos cardeais. Passo diante de mais de mil e quinhentas empresas calçadistas que gritam, sem parar, em todos os continentes, o nome de Franca.

O motor potente da jardineira velha me leva a visitar os trezentos bairros que, ao longo dos últimos sessenta anos, engoliram as primitivas bandas, cobriram pastagens, desalojaram lavouras.

Os meus olhos arregalados ficam um tempão debruçados na janelinha sem vidro, e eles se distraem contando os estabelecimentos comerciais que pululam por todos os lados e por todos os cantos. Os olhos perdem a conta. A culpa é da distração que, por instantes, persegue um ipê florido que passa correndo a dez quilômetros por hora e se esconde depois da esquina, em meio a outros ipês e a muitas sibipirunas, todos parentes das mangueiras, das laranjeiras, das jabuticabeiras que abandonaram os quintais, em companhia de chiqueiros e currais.

Nas calçadas, nas praças, nos parques, os olhos acenam para crianças que saboreiam o feriado. Elas estão calçadas, bem vestidas. Quase todas portam brinquedos, bexigas coloridas, chupam sorvete de muitos sabores.

A voz do pai e a voz da mãe se calam depois de calarem profundamente.

Ouço restos de música e restos de foguetes. Levanto-me, abro a janela e vejo um pedacinho da cidade que aniversaria.

Acordo.

A cidade que aniversaria não é o lugar encantado que o pai, a mãe e suas crias avistavam lá de longe, lá da pedreira do Horácio Rosa.

Acordo.

Naquele tempo, o que havia, ligando as duas bandas do córrego, era um arraial grandão, cujo encanto estava, em verdade, na réstia de esperança de futuro menos rude para a prole. O que havia era a brasa que aquece o coração de pais e de mães.

E foi esse mesmo lume que fez tantas criaturas, de tantos rincões, de tantos garimpos e de tantas Minas, embarcarem no carro-de-boi, na carroça, no caminhão e na jardineira do êxodo.

E foi esse mesmo lume que abriu caminhos e transportou o material e levantou as paredes do castelo esplendoroso, hoje plantado bem no topo do planalto paulista.

E foi esse mesmo lume que uniu a intrepidez e a ousadia bandeirantes com a persistência e a ternura mineira que povoam o castelo.

É esse mesmo lume que ilumina o castelo sem muralhas onde hoje vivem e festejam o filho do pai e da mãe e o filho do meu filho.

Acordo.

Acordo menino, nos 188 anos de minha cidade.

Luiz Cruz de Oliveira
 

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