O marisco


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Nos últimos 12 anos, os assassinatos no Estado de São Paulo recuaram 72%! De 35,27 a cada 100 mil habitantes em 1999, para 9,9 a cada 100 mil, em 2011. A cidade de São Paulo terminará 2012 com pouco mais de 10 mortos a cada 100 mil habitantes. Enquanto isso o Rio de Janeiro tem 24,3 mortos por 100 mil, mas ninguém fala em caos na segurança pública. Salvador tem mais de 55 mortos por 100 mil, mas não aparece nas primeiras páginas de jornais. João Pessoa tem 80 mortos por 100 mil, mas o Ministro da Justiça não vai lá insinuar que o governo do estado é incompetente.

Em 2010, no auditório de um dos CEUS na cidade de São Paulo, diante de cerca de 300 policiais militares, preparei-me para fazer minha palestra ‘Gente Nutritiva’ em evento de um dos comandos regionais da PM. Vários policiais foram condecorados por atos de bravura, e cada um deles tinha na plateia sua família. Era evidente o orgulho com que recebiam condecorações. O comandante, emocionado, fez homenagem póstuma a uma policial que, aos 30 anos de idade, perdeu a vida num enfrentamento com bandidos. Senti um misto de angústia e perplexidade ao imaginar como será estar ao lado da esposa e filhos, ouvindo a história de um colega que morreu numa situação como aquelas que você vivencia diariamente.

Comecei minha apresentação comentando o nome da palestra. O que é que “Gente Nutritiva” tinha a ver com 350 policiais fardados e armados? Bem, sem fardas e armas, aquelas pessoas eram gente igual à gente, que sente frio e fome, calor e medo, amor e ódio. Gente normal que, por sua função, recebe da sociedade a autoridade sobre pessoas normais. Gente que pode ser, sim, nutritiva mesmo de arma na mão. Conversei com eles e seus familiares e saí de lá feliz por ter conhecido um lado da polícia que eu desconhecia: o lado dos seres humanos, que a gente não vê na imprensa, onde a polícia aparece quase que exclusivamente como a corporação que congrega gente perigosa que abusa da autoridade e mata.

É inevitável lembrar a experiência nestes dias violentos em que bandidos decretaram caça a policiais. Morreram quantos já? 90? 100? E onde esses mortos foram chorados? Não vi choro na imprensa e nem político fazendo discurso para famílias. Não vi videoclipes na televisão com o pianinho ao fundo enquanto aparecem lágrimas das viúvas. Não vi os ‘direitos humanos’ preocupados com os filhos dos que foram mortos pela bandidagem. Por que para esses corajosos policiais mortos não merecem lágrimas? Porque são eles os criminosos?

Dentro de uma corporação com mais de 90 mil homens e mulheres é normal que existam desonestos, aproveitadores e até bandidos. Mas imaginar que esses são a maioria é abusar da estupidez. Aquelas pessoas comuns debaixo das fardas, assim como você, estão sendo usadas mais uma vez como peças de jogo político que tem, por objetivo único, a conquista do governo do Estado de São Paulo. Não importa se morrem, não importa se São Paulo tem a política de segurança pública mais bem sucedida do País. Não importa o que acontece de fato. Só importa a versão do fato. Na briga do rochedo com o mar, quem se ferra é o marisco? E o marisco é você.

Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista

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