Josivaldo Silva Vilas Boas, 46, é um daqueles migrantes que escolheram Franca para morar e ajudaram a construir a cidade. Ele saiu de Itiúba, município com cerca de 40 mil habitantes localizado no interior da Bahia, e se instalou em solo francano em março de 1990. Um mês depois, um empresário amigo lhe emprestou um terreno para a instalação de um trailer de lanche.
A inauguração foi marcada para o dia 23 de abril, um mês após a chegada da Bahia. Grávida de nove meses, a mulher foi ajudar a jogar algumas pedras de brita no local e teve a bolsa rompida. Horas depois nascia Priscila, a filha mais velha. Josivaldo morava longe da bolota e não tinha carro. Levava as bebidas e alimentos para o local em um carrinho de mão.
Os anos foram passando e os negócios prosperaram. Josivaldo se transformou em Bahia, apelido dado pelos amigos em homenagem ao Estado em que nasceu. Aos poucos, foi trazendo conterrâneos para trabalhar em Franca. Ele conta que abriu as portas da cidade para 462 pessoas de Itiúba. “Os que dão frutos maus, a gente manda embora.” Quase todos eles são parentes e a maioria trabalha no ramo de lanches.
Vinte e dois anos depois de chegar a Franca, Bahia é sócio de 11 “bolotas” (lanchonetes) que levam o seu apelido. O desempenho é para Mc Donald’s nenhum botar defeito. Segundo o comerciante, as casas vendem juntas uma média de 3,2 mil lanches por dia. Nos fins de semana, a média chega a 4,8 mil.
Bahia foi se tornando popular na mesma medida em que os lanches que faz ao lado da mulher, dos filhos e de uma legião de conterrâneos. Convencido por uma amigo, resolver se aventurar na política. Logo na primeira disputa para vereador, foi o 11º mais votado. Ainda eram 23 vagas. O partido, no entanto, não atingiu o quociente e ele ficou fora. Na segunda tentativa, ficou na suplência e assumiu uma vaga na Câmara por quatro meses.
Em 2008, recebeu 4.555 votos e se elegeu. Foi vice-presidente e teve um mandato marcado pelo trabalho social e pelas ácidas discussões com os colegas de plenário.
No último dia 7 de outubro, foi reeleito com 3.581 votos. Na madrugada seguinte, já estava queimando os braços e a barriga na chapa da bolota. Conheça a história deste baiano casado com uma prima e que traz o sangue de índio e de ciganos nas veias.
Comércio da Franca - O que o motivou a sair do interior da Bahia e vir morar em Franca?
Josivaldo Silva Vilas Boas, o Bahia - Com 16 anos, eu trabalhava em uma firma de energia em Salvador. De lá, fui transferido para o interior, onde conheci um morador de Franca, chamado Alcioli, que era eletrotécnico da firma. Ele sempre dizia que, se eu saísse da empresa, deveria vir para Franca porque aqui era bom. Eu era encarregado de 28 funcionários e acabei pedindo demissão. Antes de vir para cá, ainda trabalhei três anos e meio em São Paulo. Conheci Franca em 88. Dois anos depois, decidi vir para cá. Montei um trailer de lanche e Deus me abençoou. Hoje, estamos com 11 lanchonetes. Não são só minhas. São da minha família, mas tenho participação. Só tenho a agradecer a Deus pelo que tem feito com minha família e ao povo de Franca, que me acolheu tão bem. Minha cidade de origem é Itiúba, mas Franca é a cidade mãe. Escolhi a cidade para morar e criar minha família.
Comércio - Onde nasceu a primeira casa de lanches?
Bahia - O primeiro trailer que montei foi na rua Macapá com a avenida Brasil (Brasilândia) em 1990. A inauguração foi no dia 23 de abril, no mesmo dia em que nasceu minha filha mais velha, Priscila. Nesta parte, tenho que agradecer uma pessoa que me ajudou bastante, que me arrumou o terreno: o seu Valtenir Machado da Silva. Ele me deu quatro meses para trabalhar sem cobrar nenhum centavo de aluguel. A gente tem que viver das glórias e agradecer as pessoas que nos ajudam quando mais precisamos.
Comércio - Como foi o começo?
Bahia - Foi muito difícil. A bolota ficava no Brasilândia e eu morava no Paulistano. Eu não tinha carro e levava as caixas de bebidas e outros produtos de minha casa para lá em um carrinho de mão. Minha mulher puxava na frente. A gente trabalhava a noite inteira e durante o dia tinha que abastecer a bolota novamente. Os recursos eram poucos, mas foi gratificante.
Comércio - O tempo foi passando, os negócios prosperaram e o senhor se transformou num “importador de baianos”. Como foi isto?
Bahia - A gente tem que se preocupar também com a família, que é a base de tudo. Não adianta você estar bem e ver as pessoas próximas em dificuldades. Quando comecei a ganhar um pouquinho de dinheiro, fui trazendo um por um. Hoje, estamos aqui com quase 500 pessoas, todas filhos de Itiúba e dando frutos bons. Os que dão frutos maus a gente manda embora. Para os que quiserem vir trabalhar honestamente, as portas estão abertas.
Comércio - Todos os conterrâneos que o senhor importou são parentes?
Bahia - Acredito que 70% são da família. A maioria trabalha no ramo de lanches.
Comércio - É verdade que o senhor é bisneto de cigano e neto de índia?
Bahia - Justamente. Quando criança, eu morava em uma fazenda e os ciganos ficavam acampados na propriedade do meu avô. Meu irmão, inclusive, é afilhado de cigano. Nossa família tem esta característica sim.
Comércio - Outra característica dos “Bahias” é o fato de ser uma família fechada, que só se casa entre si...
Bahia - É verdade, meus avôs eram primos, meus pais também. Eu me casei com uma prima. Minha filha Priscila se casou com um primo de sangue. Meu sobrinho está noivo de uma sobrinha e, assim, vai. A gente costuma se casar entre família para não dar problema. Somos um povo de respeito e muito unido.Tem dias que minha esposa começa a brigar comigo e diz que vai me largar. Então, eu falo para ela: “não larga, não, porque você é minha prima”.
Comércio - O que o motivou a entrar para a política?
Bahia - O responsável foi o José Osmar [candidato a vereador nas últimas eleições], uma pessoa muito boa. Ele me convidou para participar de uma reunião política em Jeriquara. Depois, começou a me incentivar e colocar na minha cabeça que eu tinha chance de ganhar. Acabei me filiando e obtive 1,5 mil votos na primeira eleição. A Câmara tinha 23 vagas e eu fui o 11º mais votado, mas não entrei por causa do partido. Na segunda disputa, tive 2,4 mil votos, fiquei na suplência e assumi por quatro meses. Pensei em desistir, mas fui convencido a tentar novamente. Graças a Deus, o povo me deu duas vitórias em seguida. Em 2008, foram 4,5 mil votos. Agora, fui o quarto mais votado com 3,5 mil votos.
Comércio - O trabalho que você faz como vereador corresponde às boas votações que obteve?
Bahia - Sim. A gente não faz tudo o que quer, mas o que está ao meu alcance, eu faço. Acordo cedo e corro atrás. Trabalho todos os dias e estou sempre procurando ajudar as pessoas.
Comércio - Qual o seu principal trabalho como vereador?
Bahia - Minha prioridade é o auxílio às pessoas carentes, mas também destaco a construção da Casa do Idoso e do velório no Paulistano, o colégio no Paineiras, ciclovias e asfalto nas ruas da periferia. O que mais me dá prazer é quando a pessoa bate na minha porta procurando socorro e eu tenho como ajudar. É trabalho que não aparece muito, mas que é de grande importância para quem precisa.
Comércio - A sua atuação como vereador também ficou marcada por embates duros com os colegas de plenário. A postura mais agressiva tem relação com o cruzamento de cigano com índio?
Bahia - Acredito que sim. Quando eu ponho o pé na Câmara, sou uma outra pessoa. Quando saio, volto a ser o Bahia normal. Lá é um querendo passar a perna no outro, querendo ser melhor que o outro. E não pode ser assim. Quando alguém me chateia lá dentro, eu falo a verdade e digo que eles têm que me respeitar. Já fiquei bravo e vou ficar bravo se qualquer um lá quiser tirar o meu mérito. Fui eleito pelo povo e tenho que ser respeitado.
Comércio - Quem mais o chateou na Câmara?
Bahia - Vamos deixar isto quieto, porque a gente não pode falar o nome da pessoa. Não seria elegante de minha parte. Quero pedir a Deus que ilumine a vida de cada um deles.
Comércio - Em setembro, o senhor teve uma áspera discussão com o Jépy Pereira. Disse que era perseguido por ele e que não tinha medo. Agora, deverá ser o vice e votará nele para presidente da Câmara. Os problemas foram superados?
Bahia - A gente fica com a pulga atrás da orelha, não é verdade? Às vezes, eles falam as coisas sem pensar. Eu falo com propriedade. O que ele fez na ocasião não foi legal comigo. Eu fiz um requerimento ao prefeito, pedindo as contas da Feac e, antes do requerimento ser aprovado, o Jépy tomou a frente e me trouxe as contas. Aquilo me deixou chateado um bom tempo, mas não sou homem de guardar mágoa. Acabei perdoando ele. Acredito que ele vai ser o presidente, mas ainda não decidi se vou aceitar mesmo ser o vice. Estou pensando.
Comércio - Por que o senhor pensa em desistir da vice-presidência?
Bahia - Não tem um motivo. Eu tenho pretensões futuras e não quero pegar esta responsabilidade no começo do mandato.
Comércio - Quais são essas pretensões futuras?
Bahia - Sou de família política. Tenho um primo que é deputado estadual pelo sétimo mandato. Minha tia foi prefeita. Meu tio foi vice prefeito. Vamos ver o que a vida vai nos oferecer daqui para frente. Penso em disputar um cargo mais alto futuramente, mas antes é preciso trabalhar mais e mostrar o meu potencial.
Comércio - Mesmo sendo vereador e com uma situação confortável, o senhor continua fazendo lanches e passa as madrugadas trabalhando ao lado da mulher e dos filhos. Não pensa em reduzir o ritmo?
Bahia - Não mudei o meu jeito de ser. Por causa de alguns compromissos, não fico todos os dias na bolota, mas, quando tenho que me afastar, já fico preocupado. Minha vida é esta: amanhecer o dia trabalhando. Gosto de trabalhar é na chapa me queimando. Trabalhando ali você sabe que o produto está saindo com qualidade. São poucos os vereadores que trabalham à noite como eu.
Comércio - O que dá mais dinheiro: ser vereador ou vender lanche?
Bahia - Com certeza, vender lanche dá muito mais. O que eu ganho de vereador no mês, se tiver um fim de semana bom na bolota, eu praticamente dobro.
Comércio - Valeu a pena ter investido em Franca?
Bahia - Demais da conta. A mudança para melhor foi grande. Só tenho de agradecer a minha cidade adotiva e desejar tudo de bom para Franca. Peço a Deus que conserve bem todas as pessoas que ajudam a construir a cidade.
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