Ser sincero às vezes não é muito apropriado, mesmo que possa ser considerado ético e correto. Isso não quer dizer, obviamente, que a mentira ou a falsidade sejam recomendáveis. A questão é que muita sinceridade assusta, sobretudo quando advém de uma figura pública que, sem nenhuma cerimônia, afirma uma verdade já bastante conhecida por todos, mas que ao mesmo tempo também é estranhamente negada, sublimada ou esquecida por essas mesmas pessoas.
Foi o que aconteceu com a frase proferida pelo ministro José Eduardo Cardozo. Ao dizer que preferia morrer a ter que viver alguns anos em prisões brasileiras, ele conseguiu nos fazer parar para refletir sobre o absurdo de nosso sistema prisional. Ao mesmo tempo, porém, também nos fez pensar na ineficácia e na ineficiência de nosso poder público, que ao invés de resolver um problema que está dentro de sua alçada, prefere engrossar o senso comum e partir para obviedades que não precisariam de modo algum vir a público.
Se o próprio ministro faz uma afirmação tão enfática quanto essa, logo ele que deveria ser o responsável por zelar e aprimorar o nosso sistema carcerário, ou pelo menos ser o principal gestor das mudanças necessárias para torná-lo mais humano e eficiente em sua proposta de recuperação de pessoas para o convívio social, o que esperar do futuro de nossas prisões? Que esperança poderia ter uma mãe de presidiário ao ouvir do ministro responsável pela Justiça que os presídios brasileiros são antros de tortura e maus tratos e que ele teria medo de viver nesse local que teórica e indiretamente deveria ser administrado por ele? Que sentimento estranho não sente um cidadão cumpridor dos seus deveres ao cair na real e certificar-se, pela boca de uma autoridade, daquilo tudo que já sabia, ou seja, de que os presídios brasileiros nada mais são do que excelentes escolas de bandidagem, pagas com o dinheiro público e talvez até mais caras que as escolas onde atualmente se ‘depositam’ nossas crianças?
São questões que realmente marcam na alma, pois nos colocam diante de um futuro sombrio ou no mínimo desafiador. As prisões estão cada vez mais lotadas e não conseguem recuperar ninguém, muito pelo contrário. Atualmente, elas servem como uma espécie de pós-graduação na área da bandidagem, especializando no mundo do crime muitos dos que ali entram e rapidamente retornam para o ‘convívio social’.
Dentro desse contexto, talvez tenhamos que concordar com o ministro. Mas se enquanto ele consegue apenas chamar a atenção para o tema, então nos resta torcer para que em uma próxima declaração ele venha a afirmar que também prefere a morte a ter que colocar seus filhos na escola pública ou tratar-se pelo SUS. Assim, quem sabe o Brasil não começa a pensar mais seriamente nessas questões.
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