E a seca continua


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O problema da falta de água no conhecido polígono da seca, abrangendo o norte de Minas e quase a totalidade dos estados nordestinos, não é nada novo. O primeiro relato foi feito por volta de 1585, pelo padre Fernão Cardin, que advertia sobre grandes perdas de cana e aipim e a existência de 5 mil índios obrigados a fugir do sertão pela fome e a socorrer-se com os brancos.

Daí para frente as secas não mais deixaram de se acumular em nossa história, assim como os relatos que as registraram. Impiedosamente, castigaram milhões de brasileiros que ou migraram dessas regiões em direção ao ‘sul maravilha’ ou nelas ficaram sofrendo as agruras de uma vida ou de uma morte para lá de ‘severina’.

Porém, o mais interessante de tudo isso é que passados quase cinco séculos os problemas parecem inalterados. A seca continua castigando inapelavelmente, conforme notícia publicada por este Comércio no domingo, 11/11, em seu caderno Brasil. Uma seca que a despeito dos vários órgãos criados desde o começo do século passado, como DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), ou Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), quase sempre permeados pelos mais variados casos de desmandos e corrupção, é uma das piores dos últimos 50 anos e tem levado muito flagelo aos já combalidos habitantes dessas regiões.

A questão, porém, não se esgota nos fatores climáticos ou em causas naturais, todas elas passíveis de serem enfrentadas pela tecnologia hoje disponível. Se pensarmos que em poucos anos Israel transformou boa parte de uma região praticamente desértica em uma área exportadora de alimentos, vamos perceber que o problema é bem mais político do que climático ou ligado ao ecossistema. Nos dias de hoje, esse pequeno país do Oriente Médio consegue irrigar mais de 200 mil hectares de terras bastante áridas e transformá-las em um cenário de exuberante coloração verde, desafiando nosso secular desprezo para com o Nordeste brasileiro e seus cidadãos.

Entre a polêmica transposição do ‘velho Chico’, o rio da integração nacional, ainda pensada durante o reinado de D. Pedro II, e os vários outros projetos elaborados para acabar com esse problema ancestral de nosso país, é possível perceber que muito pouca coisa deu certo durante todo esse tempo, excetuando-se a viticultura (cultura da uva) que se instalou em um pedaço do sertão entre Pernambuco e Bahia e atualmente é responsável pela produção de um dos melhores vinhos do país.

No fundo o que falta é vontade política para se enfrentar os modernos coronéis que ainda resistem com os antigos métodos de seus avós, concentrando as riquezas, o poder e toda a água existente. Porque o ‘milagre’ da irrigação já é algo que está ao alcance dos pobres mortais.

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