Um telefonema no meio da tarde do último dia 24 mudou os planos do maestro Nazir Bittar. Envolvido com os trabalhos da Orquestra Sinfônica de Franca, foi pego de surpresa ao ouvir do outro lado da linha a voz de Colomo do Couto, presidente nacional da Sociedade Brasileira de Arte Cultura e Ensino (SBACE).
“A pessoa pediu para falar com o maestro Nazir Bittar. Me identifiquei e ela também. Era o Colomo do Couto e me disse que eu tinha um compromisso no dia 18 de novembro em São Paulo. Na hora não entendi nada”, revelou o maestro. A conversa continuou e Nazir enfim soube que seu nome fora um dos 15 indicados para receber a Ordem do Mérito Cultural Maestro Carlos Gomes. A láurea é dedicada anualmente aos destaques da área e só é oferecida por processo de indicação. “A indicação do Nazir foi feita por uma comissão de chanceleres da Casa. O critério para essa indicação é a competência. Se acessarem nosso site poderão ver os mais ilustres musicólogos do Brasil”, afirmou, por telefone, Colomo do Couto. A comenda será entregue amanhã, às 20 horas no Los Molinos, restaurante tradicional do bairro do Ipiranga em São Paulo.
Comércio - Qual foi sua reação ao saber que receberia a láurea Mérito Cultural Maestro Carlos Martins?
Nazir Bittar - Eu não conhecia o prêmio. Quando eu entrei no site e comecei a fuçar, vi as fotos das homenagens dos outros anos: Ailton Escobar, Diogo Pacheco, Benito Juarez, João Carlos Martins... Grandes nomes. Tive uma crise de choro. Eu estou muito longe de São Paulo e jamais imaginei que alguém estivesse me vendo de lá. Por mais que haja uma globalização, por mais que haja internet, facebook e tudo mais, eu estou fisicamente longe de São Paulo. Mas, enfim, estou muito contente.
Comércio - A que você atribui essa visibilidade?
Nazir - Tive a sorte de fazer um trabalho certo. Dos concertos que fiz até hoje, nenhum foi fracassado. Todos com casa lotada. As pessoas que vêm de fora ficam admiradas, porque isso não é típico: uma orquestra sinfônica fazer o furor que a orquestra de Franca faz. Fila na porta, gente brigando para entrar. Quem é que briga para entrar em orquestra sinfônica? Os músicos convidados, que vêm de fora, vêem a casa lotada, fila na porta e se perguntam: ‘que história é essa?’ Eu acho que esse foi um dos fatores que me deram essa visibilidade.
Comércio - O que você espera da cerimônia?
Nazir - Sei que vou receber uma comenda. Uma medalha que virá em uma caixa de veludo e me acompanhará alguém que tenha sido importante na minha carreira. A princípio eu pensei: ‘vai ser a minha mãe’. Mas conversando com ela, decidimos que quem irá será minha tia Glícia, que me recebeu na Alemanha quando estudei lá. Ela abriu portas e portas da vida dela, da família dela para mim de uma forma muito sadia e bonita. Depois nos será oferecido um jantar e uma apresentação artística. Até aí é o que sei.
Comércio - Como surgiu seu contato com a música erudita?
Nazir - Minha relação com a música começou em casa porque meu pai era um cara que gostava muito de ópera, música erudita. Junto com aqueles disquinhos infantis que minha irmã e eu ouvíamos ainda no Rio de Janeiro, tinha Tchaikovsky, Verdi... Nossas brincadeiras eram embebidas de criatividade.
Viemos para Franca em 1975. Um ano depois minha irmã mais velha começou a fazer aula de piano com a dona Marlene Minervino - eu tinha 6 anos nessa época -, e meu pai comprou um piano que temos até hoje. Enquanto ela estudava eu ficava na escada, simulando tocar nos degraus até que um dia minha mãe me viu e me colocou na aula de piano. Na época isso não era comum. Eu era o único menino por aqui que tomava aulas de piano. Foi um grande tabu porque meninas faziam piano e meninos faziam violão.
Anos depois concluí a Escola Técnico Musical Pestalozzi e me interessei por regência ao ouvir o concerto Brandeburguês, de Bach. O número 3. Aquilo foi um marco na minha vida porque eu vi que o piano era pouco para mim.
Essa é uma coisa que nunca contei a ninguém, que engraçado... Mas eu cheguei a abrir mão de uma bolsa na Alemanha para mestre de afinação e construção de piano para estudar regência na Unicamp onde me graduei e, posteriormente, concluí um doutorado. Vivi e estudei muito tempo também na Europa.
Comércio - E como foram esses dias?
Nazir - Eu acho que eu vivi numa bolha. Europa, para mim, era uma bolha. Eu achava que o mundo era cor de rosa, cheio de flores e borboletas, e não é! Não era normal um homem de 34 anos achar que o mundo é cor de rosa. Mas muita coisa dessa bolha ainda não saiu de mim.
Comércio - Como foi que essa ‘bolha’ estourou?
Nazir - Foi em 2004. Com a morte do meu pai.
Comércio - E seu contato com a Orquestra Sinfônica de Franca, como foi?
Nazir - Em 2007 fui pra Campinas fazer o doutorado. Lá fiz direções de duas peças musicais de teatro e comecei a me movimentar de novo, rever as pessoas, me fazer conhecido. Mas Campinas não tinha espaço para mim. Fiquei um tempo no Rio de Janeiro, mas houve uma epidemia de dengue e minha mãe pediu para que eu me afastasse de lá. Foi aí que ela recebeu um telefonema de um músico avisando que a OSF estava há quase três meses sem maestro e perguntou se eu não me interessava. Vim para Franca e fui assisti-los no Champagnat. No fundo eu fiquei muito sem vontade de assumir. A orquestra não tinha uma sala de ensaio e misturava crianças e adultos... Mas eu aceitei. Peguei minhas coisas e vim para Franca. Comecei a estruturar alguma coisa e fui aos poucos tomando algum rumo. Em 2010 criei a Orquestra Jovem de Franca, da qual eu me orgulho. Peguei as crianças que queriam se envolver com a música e criei um espaço para elas.
Eu falo que Franca foi uma escola. Hoje conto com a ajuda da nova diretoria da Ascram e as coisas melhoraram muito. O Vicente Costa é um grande presidente e eu não estou mais sozinho.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.