Cordel é um exercício poético. Ou, trocando em miúdos, um jeito de brincar com as palavras para dizer alguma coisa fora da ordem prática da vida. Nossa fala diária focada na realidade tem caráter fático. Explicando: falamos as coisas para nos comunicar com o outro e fazer funcionar o nosso cotidiano. Exemplo de frases fáticas: Vou à aula. Meu pai trabalha numa cidade vizinha. Hoje vamos receber visitas em casa. O meu time ganhou uma partida decisiva.
Mas a linguagem pode servir também para traduzir estados de espírito, emoções, surpresas diante de algo que vemos e nos comove: um pássaro com seus filhotes, uma flor entreaberta, o cão que corre para receber seu dono com afagos, uma chuva fininha que vai molhando o solo seco, uma cachoeira exuberante, o amor que sentimos por alguém, uma história curiosa, bela ou mesmo assustadora com pessoas, animais e até seres fantásticos. São instantes poéticos. Podemos fixá-los em palavras, usando muitas fôrmas ou formas. Uma delas é o cordel.
O cordel nasceu na Índia. Naquele país, desde os mais remotos tempos, o povo contava suas histórias de jeito rimado, nas ruas, com acompa-nhamento de instrumentos musicais. Essa maneira de se manifestar chegou a Portugal, levada pelos navegadores que tinham estado por ali. E veio para o Brasil com os portugueses aqui aportados em 1808. Em nosso país, os que mais e melhor se apropriaram do cordel foram os nordestinos.
O cordel conta/canta em versos uma história completa, com começo, meio e fim. Os versos podem formar estrofes de seis, oito ou dez versos . As rimas são importantes, conferem musicalidade. Veja um exemplo de estrofes no cordel Poetas louvando o rei do baião, homenagem que cordelistas fizeram para lembrar o centenário de nascimento do sanfoneiro, cantor e compositor Luiz Gonzaga (1912-1989)
2012 é o ano
do centenário do rei
minha homenagem farei
ao grande pernambucano
exemplo de ser humano,
de cantor e cidadão
que registrou na canção
sua vida e trajetória
são 100 anos de história
do nosso rei do baião”
( Bastinha Job, da Academia dos Cordelistas do Crato)
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Luiz, eu sinto saudade
Das suas belas canções
Que retratavam a verdade
Dos cafundós dos sertões
Do mandacaru a flor,
Do sertanejo a dor,
Asa branca foi um hino
Quem irá cantar agora
Por este Brasil a fora;
A sina do nordestino?”
(Cleusa Santo)
Aos poucos o ouvinte que escuta a música cantada, ou o leitor que lê o relato no papel, vai sendo informado sobre os fatos. No caso de Luiz Gonzaga, vamos conhecendo sua vida no sertão nordestino, até transformar-se num artista de sucesso. No cordel, o texto é ilustrado com xilogravura. Mas o que é xilogravura? É uma técnica que consiste em fazer um desenho em baixo relevo numa placa de madeira, usando canivete ou faquinha. Assim é possível passar tinta e copiar a imagem no papel, como se fosse um carimbo.
O cordel não é livro nem revista. É uma publicação artesanal com características próprias. Feito em papel simples, de baixa qualidade, custa barati-nho. Em geral os autores dos poemas são os mesmos artistas da ilustração. Os cordéis tem este nome porque os cordelistas os penduram numa corda, para que as pessoas possam vê-los e comprá-los.
Todos nós podemos criar nosso cordel. Uma experiência deste tipo foi feita pela professora Fátima Gomes, da EMEB Frei Lauro de Carvalho Borges. Ela trabalhou um tema ambiental com estudantes do quinto ano C. “ Os alunos estudaram este gênero de texto e, bastante entusiasmados e criativos, tomaram gosto por este tipo de literatura e produziram seus próprios textos.” Um deles é Consciência e Ação, assinado por Jéssica, Maria Eduarda, Victória e Letícia Sousa. Ele está publicado na página 3 deste Clubinho.
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