O almoxarife Tales Felipe da Silva, 19, procurou a polícia depois de ser ofendido com xingamentos racistas por um cortador de uma fábrica de sapatos na Vila Hípica. Os insultos aconteceram depois que dois funcionários negros se feriram em uma máquina de rachar palmilhas, no fim do mês de outubro. O funcionário, acusado das ofensas, teria apelidado o aparelho de “arapuca de pegar macacos” e colocado uma banana em cima do equipamento. De acordo com o Sindicato dos Sapateiros de Franca, esse tipo de queixa está se tornando comum na cidade.
Silva era acusado pelo cortador de não trabalhar com tanto afinco depois que voltou da licença saúde. Em uma discussão, chegou a ouvir que, se não fosse para trabalhar direito, era melhor se machucar de novo e ficar afastado. “Eu machuquei os dedos na máquina logo depois que outro funcionário (também negro) se machucou. Quando eu voltei (da licença saúde), encontrei uma banana em cima da máquina e um bilhete dizendo que era uma armadilha.”
A vítima comentou que era colega do acusado antes das ofensas começarem e que procurou o dono da empresa para relatar o caso. “Nós trabalhávamos um de frente para o outro. Depois do que aconteceu, não tinha mais clima para encará-lo.”
O cortador teria dito ainda que “esses pretos estão querendo dominar a fábrica”, motivo que fez o rapaz procurar a polícia e pedir demissão. Segundo o jovem, a fábrica possui pelo menos mais quatro funcionários negros e que se sentiu humilhado depois do ocorrido. “Eles (empregadores) poderiam ter demitido o outro (funcionário) também, mas preferiram acoitá-lo.”
O dono da empresa, que preferiu não se identificar, disse que só não demitiu o cortador, porque a fábrica vive um período muito intenso de trabalho. “Não concordo com a ofensa, sou totalmente contra qualquer ato de racismo. Só não mandamos ele embora, porque é muito difícil encontrar funcionário nesta época do ano.” O proprietário disse ainda que proíbe apelidos de qualquer espécie entre os funcionários, mas confessou que é difícil controlar as brincadeiras nos corredores da empresa. “Como eles trabalhavam juntos, um pedindo material e o outro trazendo, é até normal que houvesse brincadeiras. Quando ouvi essas conversas, disse que não admitia esse comportamento, mas infelizmente aconteceu.”
A reportagem tentou entrar em contato com o cortador para que comentasse o caso, mas foi informada que ele não poderia receber a equipe, porque estava desempenhando suas funções na fábrica.
A queixa do sapateiro está sendo investigada pela Polícia Civil, que deve ouvir o cortador em até 30 dias e concluir o inquérito.
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