Slow food: engajamento do consumidor


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Turim recebeu evento de gastronomia que tira consumidor da zona de conforto
Turim recebeu evento de gastronomia que tira consumidor da zona de conforto

Embora tenha acontecido na semana passada o que talvez seja o principal evento gastronômico do Brasil, patrocinado por uma mídia relacionada ao tema, o Mesa Paladar, não falarei dele agora. Preferi me entregar primeiro e preguiçosamente ao Slow Food, movimento que já comentei por aqui com vocês e que também tem um evento organizado para a sua máxima exposição na mídia: o Salone Del Gusto e o Terra Madre.

O evento é bienal e a cidade escolhida para receber representantes de mais de 100 países foi Turim, na Itália. O presidente e idealizador desse movimento é o italiano Carlos Petrini, que vem da pequena cidade italiana chamada Bra, no Piemonte.

Preciso de um parênteses: não havia ouvido falar dessa cidade, confesso, busquei-a na internet e descobri que ficou conhecida como a primeira cidade lenta do turismo! O relógio símbolo da cidade está atrasado em 30 minutos e o comércio todo fecha às quintas e aos domingos. Fotos de caramujos estão espalhadas pela cidade, apenas para lembrar a todos uma coisa: lentidão.

Mas, falando assim, devagarzinho, parece que estamos tratando de pessoas “boazinhas”. Não sejamos amadores, nem degustadores despretensiosos, porque esse movimento não tem nada de inocente, ele tem sim um forte viés político e uma persuasão pouco comum, o movimento é jovem e já arrebanhou seguidores por todo o mundo, inclusive no Brasil. Para eles, a comida gostosa é aquela precedida pela igualdade e a justiça. Como? Preço justo do alimento, pagamento justo aos produtores, defesa ao pequeno produtor e, principalmente, comprometimento do consumidor.

O movimento prega que o consumidor deve sair da sua zona de conforto, abrir corações e mentes e saber a vida pregressa do alimento que chega até a sua mesa. Convoca nossa presença em feirinhas e pequenos mercados, consciência da sazonalidade dos alimentos e a preservação das espécies. São coisas muito boas de se fazer, mas difíceis na prática de quem tem um dia a dia já tão ocupado.

Pois bem, voltando para Turim, o Brasil foi fortemente representado, tanto nas palestras como na exposição e venda de produtos brasileiros. Mara Salles (chef do Tordesilhas), Ana Soares (chef) e Neide Rigo (chef e escritora) apresentaram à plateia o limão-cravo, o umbu, o jatobá e o pequi. Antes mesmo que a aula começasse, elas serviram caipirinha e propuseram um brinde. Depois serviram uma galinhada e todos puderam levar merengue de jatobá na própria casca da fruta.

Roberta Sudbrack, uma das estrelas do evento, falou sobre sua filosofia de trabalho (“uma cozinha de produto e reflexão”) e enalteceu a importância do bom ingrediente e a singularidade do trabalho feito a mão. Serviu para a plateia o sya ostra vegetal. Pela descrição, se trata do miolo do tomate, que ela retira inteiro e tempera com salsinha frita e óleo. É para se comer de uma bocada só. Não comi, mas imagino que a sensação escorregadia possa lembrar sim uma ostra.

Enquanto o Salone recebe os chefs palestrantes, o Terra Madre tem os expositores e produtos. O Brasil levou uma enorme comitiva, mostramos a farinha de copioba da Bahia e a polvilhada de Santa Catarina, nosso mel de abelhas nativas, o licuri, a araruta, o pequi, a farinha de jatobá, o baru, o berbigão e nossos queijos de leite cru.

A voz mais persuasiva do evento é feminina: a vice presidente do movimento, Alice Waters. Ela convocou crianças e jovens a cultivarem hortas caseiras, convocou a todos a comerem sem culpa o alimento que é bom, porque prazer e justiça devem estar de mãos dadas.


DICA DA SEMANA

Um creme básico utilizado em tantas sobremesas clássicas francesas pode ser considerado um jovem ainda, pois jamais perdeu seu frescor. O creme de baunilha cozido já encantou reinados inteiros e sua origem é controversa.

Uma receita excelente é: 1 xícara de leite, 1 xícara de creme de leite, 1/2 xícara de açúcar, 4 gemas batidas 1 pitada de sal, 1/2 colher chá de baunilha. Aqueça o creme de leite e o leite até o ponto de fervura. Bata gemas e açúcar até o ponto de fita. Daí junte as gemas ao leite e creme de leite batendo vigorosamente com um fuet.

Volte para o fogo e cozinhe até que o creme grude nas costas da colher. Deixe amornar e coloque o restante dos ingredientes.

Mas, olha só. Esse creme serve como recheio de bolos e tortas. Mas pode virar um creme caramel se você assá-lo numa forma com calda de caramelo embaixo. Pode-se também fazer um delicioso arroz doce cremoso se misturá-lo ainda morno ao arroz bem cozido e molhado. E pode ainda virar um Bavaroise se acrescentar 2 colheres de chá de gelatina em pó sem sabor dissolvida em 1/2 xícara de leite no momento da mistura do leite com o creme de leite. Nesse caso não haverá cozimento! Apenas geladeira por algumas horas.

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