Refleti muito sobre a entrevista do prefeito ao Comércio, publicada domingo. Não o conheço pessoalmente e não gosto do jeito que ele trata as pessoas, mas, como analista do discurso tenho que reconhecer: discursivamente, ele sabe o que faz. Conseguiu fazer seu sucessor sem a ajuda de qualquer político.
Não sei se essa estratégia, do ponto de vista discursivo, continuará surtindo efeito. O tempo dirá.
Todo bom administrador tem bons funcionários que estão em patamares inferiores na hierarquia da empresa, e lhe devem submissão. Não existe bom administrador sem uma talentosa equipe. Quando se tem equipe competente, ao invés de falar que não é fácil ‘administrar as vaidades’, deve-se reconhecer o trabalho desenvolvido por cada um dos membros do time.
Todo bom funcionário tem vaidade, tal como tem o bom administrador. Cabe ao líder administrar choques entre eles.
Só não têm vaidade elevada os mediados. As pessoas que integravam a equipe do prefeito são, certamente, bem acima da média. Posso afirmar que alguns dos grandes feitos do prefeito foram ideias dos seus subalternos.
Nesse ponto o prefeito, a meu ver, deu péssimo exemplo para os empresários de Franca e região. Os funcionários são o principal capital das empresas e precisam ser reconhecidos. No discurso de Sidnei, neste ponto, há uma contradição : num primeiro momento diz que não foi fácil administrar vaidades dos secretários. Em outro, afirma que é difícil encontrar gestores competentes com salários baixos. Foi dito então que os secretários foram excelentes!
Não deu bom exemplo também ao criticar o apoio recebido de Ubiali. Não se critica quem está de seu lado. Se não queria, não devia aceitar e pronto. Falar isso depois da vitória dá a impressão que apenas se utilizou do outro como algo descartável. Não se menospreza quem você tem a seu lado. Pode ser visto como traição? Sabemos o destino de traidores! Basta ver a história.
Por outro lado, mostrou, de novo, seu lado estrategista! Ao criticar todos os deputados, estimula-os a demonstrar que ele se equivocou.
Ao fazerem isso, a cidade ganhará e o prefeito, também. Afinal, tudo o que fizerem de bom, daqui para a frente, poderá ser imputado a efeito da entrevista. Por que não fizeram antes? Além disso, pairando no ar a possibilidade sinalizada por Sidnei em sair candidato a deputado, todos terão que mostrar bom desempenho.
Foi, também, estratégica, sua ‘reclusão’ de três dias após a vitória de seu candidato a prefeito. O momento de celebrar a vitória era só do eleito. Alexandre trabalhou com ardor e afinco. Embora tivesse o apoio de Sidnei, não se pode esquecer que tem méritos pessoais.
E mais uma estratégia: Sidnei disse que só ajudará na próxima administração se for requisitado. No futuro, se essa administração não for aceita pela população, não sofrerá o mesmo desgaste que Maluf sofreu com Pitas.
Se a administração for boa, ‘é o seu sucessor’. Se não for, foi porque não pediram a sua ajuda.
Seu perfil estrategista novamente veio à tona quando pediu pediu desculpas às pessoas que citou fortemente, não porque estivesse errado, mas por ter ‘falado a verdade’.
A metralhadora é ágil e certeira, mas causa também grande estrago. Do ponto de vista humano, é sofrível. Discursivamente, ouvimos um mestre.
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário
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