Um rapaz baleado na perna na segunda-feira, dia 22 de outubro, no Centro de Jeriquara, acendeu uma luz amarela contra uma comunidade de ciganos, com cerca de 200 integrantes, que se instalou na pequena Jeriquara, de 3.160 habitantes, segundo o Censo 2010. O acusado pelo tiro é um cigano jovem. Segundo os reclamantes, o ato não foi isolado. Os nômades, que há cerca de dois anos ocupam um quarteirão inteiro na periferia da cidade, de acordo com depoimentos, andam armados, ficam com som ligado em altura máxima em frente a bares e reagem com violência ao serem questionados.
O estopim contra os ciganos se acendeu no domingo, dia 21 do mês passado. O motorista CCAV, 28, chegava com a família em casa por volta das 18 horas, vindo do funeral de um parente. Em frente a sua casa funciona um bar. Lá estava um rapaz cigano com o som da camionete ligado. O motorista, triste com a perda do parente, pediu para que a música fosse abaixada. Foi o início da discussão. “Ele disse que eu estava falando demais e que ia me furar de bala”, disse CCAV.
Na manhã seguinte, por volta das 8 horas, quando o motorista retornava do trabalho, o cigano estacionou o veículo em frente à casa e ligou o som novamente. O rapaz saiu de sua casa para reclamar e teve início outra discussão. Foi quando o autor sacou um revólver calibre 380 e deu três tiros, segundo a polícia, para o chão. Uma das balas ricocheteou e se alojou no fêmur da perna esquerda do motorista.
“Nenhum policial veio falar comigo e me disseram que registraram o BO como lesão corporal”, reclamou a vítima, que está tomando antiinflamatórios e remédios para dor e ainda está com o projétil alojado na perna.
Ainda segundo a vítima, o cigano autor do tiro, que não teve o nome revelado, continua andando normalmente pela cidade.
Alegando medo, vizinhos da vítima preferem não reclamar dos ciganos. Um homem que aceitou falar sem ser identificado disse que eles andam apenas em camionetes de luxo, com cordões de ouro no pescoço e passam grande parte do tempo em bares.
A reportagem tentou ouvir os ciganos na tarde de quarta-feira, mas um clima de tensão, desconfiança e ameaças dominou os pouco mais de dez minutos de conversa com dois ciganos, um aparentando ter 30 anos e o outro 40, em um bar próximo ao quarteirão onde moram. Eles bebiam cerveja e degustavam queijo. Sequer deixaram o repórter perguntar sobre os tiros.
Os ciganos se mostraram incomodados com a presença do Comércio, não responderam a perguntas sobre como vivem, nem deram seus nomes. O mais velho, com a voz alterada, perguntou em tom nada amistoso. “Por que você quer saber da nossa vida? Se eu fosse um bandido, traficante, você poderia saber tudo da nossa vida. Mas só porque eu sou cigano? Nós compramos e vendemos veículos, é assim que ganhamos dinheiro”, completou.
POLÍCIA
O delegado Dalmo Polo, titular do 4º Distrito Policial de Franca, respondeu interinamente pela delegacia de Jeriquara por um mês. Foi ele o responsável por interpretar o ataque do cigano ao motorista como lesão corporal. “Ouvimos várias testemunhas. Todas confirmam que ele atirou três vezes para o chão, não tinha intenção de acertar o rapaz. Se ele quisesse matar, tinha atirado no peito”, explicou o delegado.
No mês em que respondeu pela delegacia, Polo disse não ter percebido fatos graves com envolvimento dos ciganos. As reclamações podem ser fundamentadas por preconceito. “Quando as pessoas são nômades, vivem de um lugar para o outro, vendendo material, quando chegam na cidade a população não aceita o indivíduo. Os ciganos têm esse sombreamento em torno deles, de que eles são hostis, violentos, mas do tempo que fiquei lá não tenho nenhum tipo de registro contra eles.”
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