Cérebro maior: cozinhar nos tornou homens


| Tempo de leitura: 4 min
Com domínio do fogo, o homem pode comer mais e melhor com menor esforço
Com domínio do fogo, o homem pode comer mais e melhor com menor esforço

Talvez a alegria de nos sentarmos à mesa e comungar comida e o papo furado ou sério, dependendo da ocasião, tenha explicação na nossa ancestralidade. Talvez sejamos eternamente gratos à comida de uma forma que jamais poderíamos supor. Algumas coisas simplesmente não se explicam, sentem-se. É como chegar perto do mar, dá uma alegria boba e genuína, uma vontade de ter um abraço do tamanho daquele azul incalculável. Dizem que se explica porque se trata de nosso útero primevo, seria então o mais tardio retorno ao lar.

A comida é algo mais recente e, segundo um embasado estudo científico, cozinhar os alimentos permitiu que o cérebro do homem se desenvolvesse: a diferença entre sermos um simples primata trepado em árvores ou sermos nós mesmos. Na verdade, o evento comida cozida está mais uma vez atrelado àquela que foi a mais fantástica descoberta daquele homem: o fogo.

O fogo permitiu a transformação dos alimentos e consequentemente possibilitou que o homem pudesse acumular calorias extras. Isso porque grãos, raízes, sementes não eram capazes de nutrir suficientemente corpo e mente, preferiu-se manter de pé aquele corpanzil de aspecto grosseiro, deixando para depois o luxo que é pensar. Com o domínio do fogo, o homem de cerca de 1 milhão de anos atrás pode cozinhar seus alimentos e comer mais e melhor com menor esforço.

A partir daí, começavam a surgir os primeiros efeitos físicos da nova dieta, nossos ancestrais hominídeos começaram a trocar sua aparência rústica por uma testa proeminente -o que desencadeou o desenvolvimento de um cérebro grande e ávido por calorias. Outra mudança, provavelmente relacionada, se deu na dentição. O Homo erectus é a espécie que apresenta a maior redução no tamanho dos dentes na evolução humana, em relação à espécie anterior, que, nesse caso, era o Homo habilis. Não houve uma redução dessa proporção no tamanho dos dentes em nenhum momento posterior da evolução humana. A largura das costelas parece ser outra mudança. Antes nossas costelas eram mais arqueadas porque provavelmente acomodavam barrigas mais avantajadas, como a dos chimpanzés. Quando o homem passou a andar ereto, suas costelas passaram a ser planas, o que significa que a barriga passou a ser mais lisa.

Richard Wrangham parece ser o pai dessa teoria inspirada. Na década de 70, ele trabalhou no continente africano, juntamente com a lendária Jane Goodall, estudando o comportamento dos chimpanzés. Decidiu conhecer a fundo os bichos e praticou a dieta desses primatas: ele provou a maioria dos seus alimentos. Tal qual sua professora e pesquisadora, ficavam o dia todo na companhia dos bichos, comendo o que eles comiam. O cardápio contava principalmente de frutas silvestres, excessivamente amargas, duras e fibrosas. Não importa o quanto ele comesse: não havia nada no mato que pudesse encher o estômago do pesquisador, que estava sempre faminto.

E foi essa experiência, de algumas décadas atrás, que lhe sugeriu que os homens não poderiam sobreviver com uma dieta crua e dura, não com nossa demanda atual de calorias.

Recentemente, as suas pesquisas o levaram a constatar que o homem deseja o cozido, sobretudo à noite. A ideia de uma dieta crua não se confirmou. Os esquimós, os aborígenes esperam receber de suas mulheres uma refeição quente ao final do dia.

Daí fico imaginando porque é que não ouvimos mais nossa natureza?! A história da sopinha quente à noite guarda sabe-se lá quanta história, tem-se aí sabe-se lá quanta sabedoria. Porque instintivamente a passamos de pais para filhos desde o surgimento de nossa humanidade.


Dica da semana

Penso que somos todos apaixonados por sorvetes e seus derivados. Que o digam os italianos com seus semifreddos. De sabor mais requintado, eles elevam a alma. E dá para fazer em casa, embora haja a necessidade de atenção quanto às medidas e tempo. O semifreddo é daquelas sobremesas que fazem qualquer um parecer um bom profissional da área.

Quando um licor, que retarda o processo de congelamento, é acrescentado ao purê de frutas, ao merengue esmagado e ao creme, os italianos estão fazendo um semifreddo, que nada mais é que um sorvete semicongelado com textura semicremosa.

Uma receita deliciosa é o semifreddo de framboesa. Vi delas pelos varejões da cidade nos últimos dias -estão bonitas e apetitosas. Bata 225 gr de framboesas no liquidificador. Se quiser pode coar para retirar as sementes, se não se importar com elas, deixe-as. Daí misture 3 colheres de sopa de um bom licor. Em seguida bata 300 ml de creme de leite fresco em ponto de chantilly mole com 50 gr de açúcar e misture ao purê de frutas. Esmigalhe 115 gr de suspiros e adicione à mistura.

Coloque a mistura numa forma desmontável, forrada com papel manteiga e deixe gelar por 6 h. Para enfeitar use algumas framboesas inteiras, faça picos de chantilly e deposite as framboesas por cima. Fica sensacional!

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários