Ele parte do Jardim Aeroporto 2 para conquistar a Itália


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Luis Aparecido dos Santos, que já encarou o desemprego, disse que a professora quase o obrigou a mandar seu trabalho para concorrer no Top Estilismo
Luis Aparecido dos Santos, que já encarou o desemprego, disse que a professora quase o obrigou a mandar seu trabalho para concorrer no Top Estilismo

É no final de uma rua do Jardim Aeroporto 2 que moram o auxiliar de pedreiro Luis Aparecido dos Santos, 46, a mulher Rita Elisete da Silva Santos, 43, e os quase cinco filhos do casal. Quase cinco porque Rita deve dar à luz à caçula na segunda quinzena deste mês. Maria Vitória. Nome escolhido há meses pelo pai, que mal sabia que sua trajetória em 2012 seria justamente de vitórias. Ele, Luis Aparecido, que nunca andou de avião na vida, prepara as malas para voar para a Itália em setembro de 2013. O motivo? Ganhou uma bolsa de estudos em Milão, na Moda Pelle Academy, umas das mais conceituadas escolas de moda do mundo.

Estudante de moda do Senai Franca há dois meses, Luis Aparecido foi contemplado em sorteio realizado durante a cerimônia do 18º Prêmio Francal Top de Estilismo, no último dia 25 de outubro. Promovido pela Francal Feiras, o concurso revela novos talentos do design para o mercado de calçados e acessórios de moda. Luis Aparecido era finalista de uma das categorias do concurso, a de calçado ou bolsa com material reciclado. Obteve o 3º lugar na premiação. Concorrendo com os outros 11 finalistas, foi o sortudo que ganhou a bolsa de estudos Criado com mais 9 irmãos, Luis Aparecido começou a trabalhar aos 9 anos de idade em uma banca de pesponto para ajudar na renda da família. Por conta do trabalho, teve a oportunidade de estudar somente até a 7ª série (atual 6º ano do ensino fundamental). “Trabalhei até os 11 anos na banca e depois fui para a fábrica de calçados”, lembra. Conheceu Rita aos 18 anos, em um baile. Depois de cinco anos de namoro, os dois resolveram se casar. Durante dois anos, moraram em uma casa nos fundos casa da mãe de Luis, e começaram a construir a casa em que atualmente vivem.

Luis Aparecido e Rita sempre tiveram que batalhar muito para o sustento da família. A mulher, que antes também trabalhava no setor calçadista, passou a ser empregada doméstica a partir do nascimento do primeiro filho, que veio dois anos após o casamento. “A gente é pobre, sempre passou dificuldade. Nossas famílias também não tinham condição para ajudar, então nós dois sempre tivemos que nos virar sozinhos”, diz Luis.

PEDREIRO
O momento mais difícil para a família foi quando a segunda filha (hoje com 17 anos) nasceu. “Eu perdi o emprego na fábrica e não sabia onde correr. Foi aí que comecei com o trabalho de auxiliar de pedreiro. Trabalhei um ano com isso e depois voltei para a fábrica de calçado”, lembra. Na época, Rita, com os dois filhos pequenos, não tinha condições de trabalhar. “Foi difícil, mas nós levamos.”

No ano passado, Luis Aparecido teve de encarar novamente o desemprego. Demitido da fábrica, a saída foi voltar a trabalhar na construção civil. A renda, no entanto, não era suficiente para sustentar a mulher e os quatro filhos. Com o objetivo de mudar de vida, o casal teve uma ideia simples e eficaz. “Quando proibiram as sacolinhas plásticas nos mercados (janeiro de 2012), a Rita deu a ideia de fazermos sacolinhas ecológicas para vender. Como a gente tinha uma noção de costura por já ter trabalhado com calçado, foi isso que fizemos. Produzíamos cerca de 20 bolsas por dia”, diz.

No entanto, com a volta das sacolas plásticas aos supermercados as vendas das ecológicas caíram. “A sacolinha acabou e a gente teve que mudar o foco outra vez. Foi aí que começamos a confeccionar bolsas do mesmo material, mas com estilo moda praia”.

O CURSO
Sentindo que o negócio poderia dar certo, Luis Aparecido viu a necessidade de se especializar na confecção das bolsas para poder criar novos modelos. Decidiu então se matricular no curso de moda e estilismo do Senai. “O curso tem duração de quatro meses. Eu entrei e já me encontrei no curso”, diz. Em uma das disciplinas, cada aluno da turma tinha que desenvolver uma bolsa com material reciclável. “Na hora que a professora falou, já veio o desenho da bolsa na minha cabeça, com tampas e canudinhos de plástico. Quando a professora viu, ela mandou eu me inscrever no concurso do Top Estilismo. Eu nem sabia que esse prêmio existia. Ela praticamente me obrigou a mandar meu trabalho”, disse.

Sem ter ao menos qualquer expectativa de ver sua criação selecionada, Luis Aparecido não acreditou quando foi avisado que era finalista no concurso. “Eu nunca ganhei nada na minha vida. Foi a primeira vez, eu achava que seria impossível. Até chorei quando me avisaram”, lembra.

Se a alegria em ser finalista do prêmio já era grande, ver o nome no sorteio da bolsa de estudos foi ainda mais emocionante. “Quando sorteou meu nome, eu pulei, gritei e agradeci a Deus. Foi Deus que fez isso para mudar a minha vida.”

Antes de viajar, Luis Aparecido tem pelo menos dois desafios: fazer um curso de italiano e perder o medo de viajar de avião. “Eu nunca andei de avião, mas morro de medo”, diverte-se. Além de todas as despesas de viagem e estadia na Itália, a Francal Feiras bancará o curso de línguas para ele.

O principal objetivo de Luis Aparecido é voltar para o Brasil e abrir uma fábrica própria de bolsas. “O que eu puder aprender, eu vou trazer para o Brasil. Essa escola abre as portas para qualquer pessoa que passe por lá.” Quando perguntado se aceitar voltar a trabalhar em alguma outra fábrica de Franca, o pedreiro designer foi direto. “Posso até trabalhar, mas quero criar meu negócio. Essa é a oportunidade que estou tendo para mudar a minha vida. E é isso que vou fazer.”

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