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O pedido do ex-ministro José Dirceu é no mínimo inusitado. Condenado por comandar o esquema do mensalão, um verdadeiro atentado contra a democracia, ele agora quer uma atenuação da pena em função dos ‘relevantes’ serviços que acredita ter prestado ao país nas últimas décadas.

No memorial de seis páginas que sua defesa entregou ao Supremo Tribunal Federal, os advogados de Dirceu lembram seu passado de líder estudantil, a prisão e o exílio durante a ditadura militar, sua participação na fundação do PT e sua atuação como parlamentar, além de declarações de Lula e outros petistas ilustres.

Mesmo considerando o direito do ex-ministro em fazer tal pedido, fica difícil engolir sua lógica, bem como sua pertinência. O fato de ter feito todas essas coisas no passado, de ter participado da vida pública brasileira, seja por idealismo ou por oportunismo, não o exime de pagar pelo que fez de errado nos dias de hoje, como não deverá influir nas consequências do que fizer no futuro. Se é assim que funciona para qualquer cidadão brasileiro, não deveria ser diferente para o ex-ministro. Ao contrário, por ser um homem público, deveria, inclusive, servir como exemplo.

É um completo absurdo querer livrar-se dos erros cometidos no presente alegando ter sido ‘bonzinho’ no passado. Se a moda pega, teremos criminosos de todos os tipos alegando que já participaram da vida pública brasileira e que já fizeram trabalho social voluntário para ajudar aos mais necessitados. Se vacilarmos, haverá até mesmo aqueles que alegarão terem sido escoteiros ou coroinhas na igreja.

O que vale, tanto para a Justiça, quanto para o país, é o presente, o aqui e o agora. O que passou está enterrado na história, servindo apenas como exemplo para que não cometamos os mesmos erros do passado.

Nesse sentido, talvez seja melhor que o ex-ministro José Dirceu utilize seus argumentos de outra forma. Como terá tempo na prisão, poderá utilizá-los para reconstruir toda a sua história e tentar perceber onde foi que ele e boa parte de seus companheiros de luta, talvez jovens cheios de sonhos e bem intencionados naquela época, conseguiram se perder e jogar por terra todas as ilusões que nutriam em relação ao desenvolvimento e ao progresso desse país.

Talvez no silêncio e na solidão de uma cela ele consiga perceber o quanto se perdeu na perturbadora ilusão do poder. Talvez consiga, também, fazer uma análise mais aprofundada sobre tudo o que aconteceu nesses últimos anos e tentar reconhecer os motivos que levaram o PT de tantas promessas e esperanças a se transformar em um partido comum, com graves problemas de corrupção, sem um posicionamento ideológico definido e com claras intenções de perpetuar-se no poder a qualquer preço.

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