A Palavra Sagrada, hoje, no introduz no mistério do amor de Deus que se solidariza com quem sofre e oferece libertação de todos os males
É o Deus sempre fiel à Aliança que estabeleceu com o seu povo. Em qualquer situação histórica ele se encontra muito próximo, ouve as súplicas, acolhe as dores e indica-lhes os caminhos de vida e de liberdade. Os leituras bíblicas de hoje são Jeremias 1, Hebreus 5, Marcos 10.
PRIMEIRA LEITURA — JEREMIAS 1
Jeremias foi um profeta ativamente engajado na política de seu tempo. Devido à sua ação profética, foi perseguido, preso e teve de fugir para o Egito, onde morreu.
O texto faz parte do chamado “livro da consolação”, onde, por ordem de Deus, Jeremias anuncia aos exilados um futuro de paz, de liberdade e de alegria na terra de Israel. Todos os exilados serão reunidos dos confins da terra e voltarão à sua pátria. Isso acontecerá por obra gratuita de Deus. É boa notícia que culminará com a celebração de uma nova Aliança. “Então serei seu Deus e eles serão o meu povo... Todos me conhecerão, dos menores aos maiores, porque perdoarei sua culpa e não me lembrarei mais do seu pecado oráculo do Senhor”.
Deus apresenta-se como “pai para Israel”, que reúne os filhos dispersos e reconstitui sua família. Ninguém deverá ficar de fora. Os cegos, os aleijados e as mulheres grávidas são especialmente lembrados. Todas as pessoas fracas e indefesas recebem cuidado prioritário. A profecia cumpre a missão de animar a esperança militante no meio das pessoas vítimas da opressão e da violência dos grandes. Deus toma posição e salva seus filhos e filhas cuja vida está ameaçada. Uma terra de liberdade e vida para todos é vontade de Deus e tarefa nossa.
SEGUNDA LEITURA — HEBREUS 5
A Carta aos Hebreus foi escrita para os cristãos de origem judaica, que, sem dúvida, aderiram à fé em Cristo, mas que, ao mesmo tempo, sentem saudade profunda do templo de Jerusalém e das cerimônias solenes que ali se realizavam. A tentação de voltar às práticas da religião antiga é muito forte nessas pessoas. O autor da carta (um cristão muito instruído nas Escrituras e nas tradições do povo de Israel) responde a esses problemas, explicando aos seus irmãos de fé que Cristo é um sacerdote infinitamente superior aos da Antiga Aliança.
Ele lembra, antes de tudo, das características dos sacerdotes que ofereciam sacrifícios no templo: deviam ser escolhidos por Deus; não podiam atribuir-se essa honra sem terem sido chamados pelo Senhor, como Aarão. Eram, além disso, homens e não anjos, pois, só quem experimenta em sua própria carne a fraqueza humana está em condições de entender a fragilidade e os pecados dos irmãos e ser solidário com eles.
Jesus, possui essas duas características. Não atribuiu a si mesmo a glória de ser Sumo Sacerdote, mas esta lhe foi conferida pelo Pai. Além disso ele é realmente um homem. Passou pela experiência da dor e da tentação, e por esta razão pode compadecer-se dos nossos erros. A leitura, contém uma mensagem também para os cristãos do mundo ocidental que sentem ainda uma dificuldade muito grande para despojar-se de uma mentalidade pré-conciliar, permeados ainda de sentimentos nostálgicos pelas celebrações litúrgicas em latim, pelas práticas de devoção, pelos catecismos do começo do século. Convida-os a se abrirem corajosamente às novidades impulsionadas pelo Espírito.
EVANGELHO — MARCOS 10
A cura do cego Bartimeu se dá na última parada de Jesus com seus discípulos antes da chegada em Jerusalém. Como já constatamos nos domingos anteriores, essa viagem, desde a Galileia, constitui-se em caminho pedagógico no qual Jesus se ocupa, de maneira especial, com a formação dos seus discípulos. Nos discípulos permanece a concepção de um messianismo de poder e glória. Seguir a Jesus, para eles, é a oportunidade para realizar suas ambições de fama e de domínio, o que provoca discussões internas a respeito de quem seria o maior. Eles estão em situação de cegueira. Compreenderão, pouco a pouco, quem é realmente Jesus e qual sua missão no mundo.
O cego Bartimeu representa o estágio conclusivo do processo de abertura dos olhos pelo qual os discípulos estão passando. Jesus vence Satanás,que cega as pessoas. É necessária, porém, a disposição de deixar-se curar e mudar de mentalidade. É o que fez Bartimeu. Para isso teve de vencer os impedimentos daqueles que mandavam calar-se. Jesus ouviu o seu grito, parou e mandou chamá-lo. Deus ouve o clamor dos oprimidos! Perguntou Jesus: “Que queres que eu te faça?” O cego já havia se desvencilhado de seu manto, que simboliza suas seguranças pessoais, sua dependência da mendicância, seu passado de atrelamento e de submissão a um sistema excludente. Está pronto para acolher a verdade que liberta, que é Jesus e sua proposta.
Agora não se dirige mais a Jesus com o apelativo de “Filho de Davi” e sim com a expressão reverente: “Rabbuni”, que significa “meu mestre”. E manifesta seu profundo desejo, fruto de uma longa busca: “Que eu possa ver novamente”. É sinal que ele um dia enxergava. O veneno de “Satanás”, ou seja, os ideais que não são de Deus, o cegaram. Bartimeu são os discípulos que abrem os olhos com a graça de Jesus e o seguem no caminho da cruz. Bartimeu é cada um de nós: Jesus nos ajuda a abandonar o “manto” do egoísmo e da submissão às ideologias dominantes e tornar-nos conscientes da missão que temos de construir um mundo como casa de vida digna sem exclusão.
José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br
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