O livro mais antigo do mundo


| Tempo de leitura: 5 min

Foi uma surpresa para mim ver em Dublin o Livro de Kells na biblioteca do Trinity College, uma das mais antigas instituições de ensino da Irlanda e das mais bem conceituadas no mundo. Nunca ouvira falar dele, mas logo à entrada do edifício onde se encontra aberto à visitação, percebi que se tratava de objeto valioso, quer pela maneira como está anunciado, quer pelo grande número de visitantes de muitos idiomas que aguardavam para vê-lo de perto, dentro da enorme caixa de vidro que o protege. O nome da exposição já me ganhou de imediato: “Trocando o obscuro pelo iluminado”, jogo perfeito de palavras para ressaltar o caráter das iluminuras que caracterizam o livro.

O nome Kells deriva da aldeia onde se erguia o monastério homônimo, no condado de Meath. Ali viviam monges que dedicaram suas vidas a copiar os evangelhos, construindo obra de arte valiosa, que antes de chegar ao abrigo representado pelo Trinity correu o risco do desaparecimento. Foi roubado em 1007 e escondido durante décadas sob a terra, até que o reencontraram, já sem a capa e algumas páginas, roubadas pelos vikings que invadiram a Irlanda no fim do século VIII. Durante as guerras civis da Inglaterra, entre 1642 e 1650, foi recambiado a Dublin.

Não é fácil falar do Livro de Kells sem recorrer à hipérbole, me avisam os editores Thames e Hudson, responsáveis pelo opúsculo que me serve de guia. O Livro teve no ano passado uma edição fac simile preparada por prestigiosa editora suíça, e limitada a 1480 exemplares. O preço de cada exemplar? 18 mil dólares. Só para ricos colecionadores, é evidente. Fico então com meu livrinho guia que me custou 10 euros e me traz informações importantes, criteriosas e documentais. Elas lançam luz ao objeto que vi, e ao qual um historiador do século XIII, Gerald de Barry, chamou “obra de anjos” e o escritor Umberto Eco, de nossos dias, definiu como “produto de uma alucinação disciplinada”.

Arriscando-me a ser muito reducionista, diria que é um manuscrito de 330 x 225 mm; com base na Vulgata ( a versão latina da Bíblia terminada por São Jerônimo em 384); composto por 320 folios entremeados de importantes trechos de versões latinas anteriores chamadas Vetus Itala; ornados profusamente com ilustrações de grande riqueza iconográfica; com capitulares pela primeira vez na história trabalhadas à moda de gigantescas iluminuras; e frases enfeitadas com letras e desenhos de uma criatividade continuamente renovada. Páginas com retratos e símbolos dos quatro evangelistas, representações de Jesus, da Virgem e do Menino, assim como a Tentação de Cristo e o Beijo de Judas, antecedem textos como se os explicassem previamente. Fica claro que não era um livro para leitores e sim uma obra de arte para ficar no altar. Em dias especiais por ele passavam os fiéis, que olhavam o texto mas só viam ilustrações, posto que bem poucos eram alfabetizados. A consciência disso havia levado um papa, Gregório I, a enfatizar a
necessidade de criar imagens evangelizadoras que ilustrassem cenas da vida de Jesus e pudessem oferecer aos que não sabiam ler “a história viva de Nosso Senhor”.

O objeto livro já era então entendido como veículo da mensagem fundamental do cristianismo. As primeiras palavras do Evangelho segundo João sublinhavam este fato por seu enunciado: “ No início era o Verbo.” O livro é então um dos temas do Livro de Kells: refulge mais de trezentas vezes nas mãos de Cristo, dos evangelistas e de outros personagens. Quase tantas outras aparece a cruz, em estilos incontáveis. Em seguida vêm os anjos. E os símbolos dos evangelistas, seres alados com aparência de homem, touro, leão, águia, figuras que também reproduzem as quatro etapas da vida de Cristo: homem no nascimento, touro na morte, leão na ressurreição, águia na ascensão. Mas outros animais metafóricos também estão presentes nos textos, como peixes, pavões, ratos, serpentes, pássaros que irrompem entre flores e palavras desenhadas com tintas coloridas, obtidas a partir de minerais como o lápis lázuli, ou da mistura de pó de ouro, num capricho e técnicas admiráveis.

Elaboradas para o olhar dos primeiros pagãos celtas que se queriam evangelizar, essas formas belas e misteriosas continuam hipnotizando o homem pós-moderno e causando admiração. Afinal, foram produzidas por mãos devotadas a uma causa que recolhia na fé e na transcendência energia para preencher com estilo e estética as páginas do que passou a ser conhecido como Livro de Kells. Por muito tempo ele foi “o objeto mais precioso do Ocidente” e até hoje a maior obra-prima da iluminura medieval.


HISTÓRIA MILENAR

Obra de copistas

Quando o Livro de Kells foi escrito há mais de mil anos, a Irlanda tinha uma população de menos de 500 mil habitantes. Os irlandeses viviam em povoados formados no frio litoral ou às margens de rios no interior.

A igreja irlandesa estava organizada monasticamente. Os monges viviam em comunidades destinadas ao estudo da palavra de Deus e ao trabalho manual. A história da vida de Cristo era divulgada pelos evangelhos. Os copistas e artistas que produziam os livros com a mensagem cristã desfrutavam de grande prestígio na sociedade irlandesa.

O Livro de Kells nasce neste contexto. Hoje já se sabe que não se pode falar dele sem lembrar Colomba, um padre de Iova, pequenina ilha de 5,5 km de comprimento por 2,5 de largura onde se erguia um monastério. Tal situação geográfica o expunha a constantes perigos. Foi por ali que os vikings começaram a invadir a Irlanda. O monastério foi pilhado em 795, 802 e 806, ano em que 68 monges foram mortos. No ano seguinte os sobreviventes foram para o continente e começaram a edificar o monastério de Kells, construção que de início foi de madeira mas depois foi substituída por outra de pedras. Documentos comprovam que foi concluída depois de 814, reunindo-se ali os religiosos locais e os de Iova. Nesta altura Colomba, tornado santo um século depois, já tinha bem adiantado o Livro, a ponto de o guardar num esconderijo. Para defender este tesouro dos invasores vikings, monges morreram em 825.

Especialistas garantem que a comunidade no seio da qual ele floresceu, deve ter sido sob muitos aspectos rica, pois beneficiou grande número de copistas e artistas que necessitaram de uma biblioteca muito bem constituída para dar conta do projeto iniciado por Colomba.

Serviço
Título: Le livre de Kells
Editora: Lucerna
Preço: U$ 18mil

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários