Noite. Talvez a única de sua vida em que o retireiro não pregou os olhos um minuto sequer. Imaginou, planejou, renegou, desconjurou, suspirou, mirou o céu estrelado, olhou com raiva o oratório com a lamparina acesa... Das Dores dormia satisfeita!
Amanhece.
Gaudêncio nem café tomou.
Voltou-se rápido para debaixo da paineira, majestosa em sua copada de algodão, dispensou o negrinho charreteiro e esperou, afiando a foice com pedacinho de esmeril.
Nesse momento, Álvaro se despedia, na varanda, de Doca e sua mulher. Estava vestido como veio. E se movimentava ligeiro, ouvindo as recomendações do capataz:
- A jardineira logo logo brota na porteira da ponte. Vai ligeiro!
O moço bonito veio se aproximando.
Cumprimentou jovialmente Gaudêncio. Doca não viu o negrinho. Pensou nas últimas esquisitices do retireiro e deixou as coisas como estavam.
A charrete se movimenta e ambos ganham a estradazinha de terra, com grama esmeralda ao meio.
Álvaro apreciava a natureza no frescor da manhã campestre.
Gaudêncio tinha olhos postos à frente e a memória o relembrava da cena passada.
Mais adiante estrada clara, seca, sol, pastagem limpa.
Álvaro tagarelava, falava pelos cotovelos, enquanto Gaudêncio apenas limpava a garganta.
Descida, bambuzal alto, cruzando por sobre a cabeça da gente, teto verde, fio de córrego, umidade, sombra.
Silêncio.
Foi quando Gaudêncio falou, com dentes cerrados, sem tirar um talo fininho de grama na boca:
- O senhor me desculpe, seu moço, mas a viagem acaba aqui.
- Como assim seu Gaudêncio?
- Quieto, moço. Se sabe alguma reza, é hora dela.
Álvaro estremeceu mas ainda não relacionava bem os acontecimentos. Estava confuso.
- Desce aqui mesmo moço. Mas antes o senhor há de saber duas coisas: primeiro, o futuro é perigoso pra quem não cuida dele; segundo, mulher casada tem gosto de sangue.
Álvaro desceu rápido da boleia. Principiava a entender o que se passava e a intenção do marido traído.
- Isso mesmo, moço, agora fique parado aí!
O vendedor nem teve tempo de esboçar defesa com as mãos: a foice descreveu um semicírculo no ar e talhou o pescoço do amante.
Gaudêncio embrulhou o corpo do desafeto na capa grossa de cavaleiro e o escondeu no bambuzal. Deu tempo imaginando ir e vir da porteira do Sapucaí.
Chegou a casa. Tomou um pouco de café. Desconversou dois dedinhos de prosa com das Dores e rumou para a roça.
Passou o dia.
Tarde da noite, Gaudêncio diz ter ouvido barulho de animal no quadrante dos cavalos reunidos. Disse que poderia ser cobra. Vestiu-se. Saiu. Todos dormiam. Pegou a charrete, atrelou-lhe silenciosamente o animal. Dirigiu-se ao local em que dera cabo do moço bonito.
Destrinchou algumas partes carnudas do cadáver. O restou, enterrou bem escondido no meio dos bambus.
Voltou.
Desatrelou o animal.
Ajeitou as peças de carne junto com as outras do leitão.
Na manhã seguinte, aferventou a gordura do porco, encheu duas latas de vinte litros de gordura, jogou ali todas as partes de carne fresca. A conserva natural se daria por dias. Das Dores e dona Lurdes apenas pegavam um pedaço qualquer, fritava e servia com arroz quirera e feijão, cozidos no fogão de lenha.
Os dias seguiram lentos, sem novidades. Aliás, a novidade era falta de notícia do jovem vendedor, que havia prometido retornar mais cedo que de costume, para impaciência escondida da ansiosa das Dores, que se punha suspirosa à janela, olhar perdido para além da porteira.
Dia desses, Doca visitou Gaudêncio e a esposinha. Resolveu almoçar ali mesmo. Das Dores não mudou rotina: foi à lata de banha, pegou um naco de carne conservada, embora levemente escurecida. Comentou com Doca que Gaudêncio não estava comendo carne nos últimos dias. Estranho! Fritou a carne no panelão e serviu com tutu, couve e arroz quebradinho, gostoso de dar água na boca. Doca abocanhou um pedaço de carne. Mastigou, mastigou, engoliu, estranhou e disse:
- Muié, ocê num errô nu sar? A carne tá meio adocicada!
Das Dores desentendeu.
Gaudêncio cuspiu no chão de fora e fez as contas: fazia mais de duas semanas que o moço bonito não dava as caras nem notícias por aquelas bandas.
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