ai mãe bendita
deixei cair
a marmita
alguém pode
até mesmo rir
mas é assim
que alguém se fode
quando a loucura eclode
e o desespero não tem mais fim
não é a porra do sentido da vida
nem a errática condição
da maldita raça humana
nem a vista da natureza consumida
não é a falta de amor e comunhão
nem o país que o engana
(ai de mim copacabana!)
muito embora (convenhámos)
tudo isso dê uma forcinha
mas vejo agora
que são todas as pequenas
tragédias da vida mesquinha
e cotidiana que nos custam tantas penas
que levam alguém
à prisão
ou ao sanatório
não é a dúvida de um além
não é a malquista ilusão
é o nefasto repertório
das infames e desimportantes
desventuras
de um só dia inglório
quando ao final dos expedientes
das quase que indeléveis torturas
quando alguém rasga sua última veste
ao deixar cair o prato que fizeste
que este alguém fica com vontade
de morder as próprias mãos
e talvez por falta de capacidade
sai pra rua a ladrar para os tais sãos
faz escândalo por todo prédio
então vem a carrocinha e o homem de branco
com seu menu de remédio
são as pequenas e doloridas topadas
que vão aos poucos formando um cancro
as finíssimas agulhadas.
depois de tudo se maravilha
com os chatos passeando pela virilha
e os estúpidos insetos alados
que com os interruptores desligados
sem mais luz
que conduz
caem como se a escuridão pesasse.
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