A última terça-feira amanheceu nublada na cidade e no coração da cabeleireira Rosa Aparecida Prata, 43. Vestida com uma camiseta polo vermelha e o par de chinelos do filho, repetia: “Era a camiseta que ele mais gostava. Colocando essa roupa, me sinto um pouco mais perto dele”. Rosa é mãe do estudante Luis Roberto Quintiliano, 17, morto no último domingo durante a operação de bloqueio da Polícia Militar na avenida Dr. Abrahão Brickmann, no Leporace.
Segundo as polícias Civil e Militar, a PM havia determinado que o condutor da moto em que Luis Roberto era garupa parasse, mas o piloto não obedeceu e acelerou. O policial envolvido na ocorrência foi atingido pela moto na perna. Luis Roberto teria agarrado a pistola do policial, que disparou acidentalmente e o atingiu no tórax.
Para a família, a realidade é outra. “Não tem o que falar. Só sei que mataram meu filho. Não sei quem é o policial, não sei por que ele matou meu filho. Só sei que ligaram aqui, que era para a gente ir para a Santa Casa que o Luis Roberto estava lá”, desabafou Rosa.
A cabeleireira disse que, na tarde de domingo, o filho estava andando de bicicleta na rua, quando chegou e a avisou que iria até a casa de um amigo. “Eu estava em casa, deitada. Ele entrou, largou a bicicleta, saiu não sei com quem de moto. Eu não vi. Os amigos dele que a gente conhece são de confiança, por isso, eu nem me preocupei. Só que ele saiu e voltou dentro de um caixão.”
Estudante da 2ª série do ensino médio, Luis Roberto também trabalhava em uma fábrica de calçados. A mãe não se conforma com os boatos de que o filho poderia estar envolvido em algum crime. “Meu filho não era bandido. Pra começar, ele nem precisava disso. Vieram falar que ele estava envolvido em assalto à mão armada. Não sei nem o que falaram, mas é impossível, isso não existe. Meu filho era trabalhador. Se ele fosse bandido, ele não ia trabalhar”, afirmou. Segundo Rosa, o estudante trabalhava desde os 14 anos de idade. “Nós tínhamos condição de criá-lo. Ele trabalhava porque tinha que aprender as coisas, porque um dia ele ia ter uma família. Ele gostava de coisa chique, de prata, de roupa de marca, mas ele comprava com o dinheirinho dele.”
Os vizinhos também se indignaram. “Não podemos deixar esse menino sair como bandido. Ele era um amor de pessoa. No domingo, o que tinha de gente que queria vê-lo aqui na rua não dava pra contar. Se ele fosse bandido, não ia ter tanta gente querendo dar adeus pra ele”, disse a aposentada Ercilia Rodrigues Afonso, 70.
Para Rosa, fica a dor da perda. “O sonho dele era comprar uma moto. Ele ia fazer 18 anos no dia 22 de fevereiro. Tiraram a vida da minha criança e ele não realizou o sonho dele. Acabaram com a minha vida. Levaram meu filho embora. Dizem que essa dor com o tempo passa, mas eu acho que isso não vai melhorar nunca.”
Abalado, o pai de Luis Roberto, o aposentado Luis Roberto Prata Quintiliano, 54, não quis se pronunciar.
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