Boato


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O Dicionário Aurélio Buarque de Holanda Ferreira define para o substantivo masculino boato: ‘notícia anônima que corre publicamente sem confirmação; ruído, rumor, zunzum, zunzunzum’.

O meu falecido avô materno, Dr. Setímio Salerno, cirurgião dentista de profissão, mas sabido político mineiro ligado ao antigo PSD, costumava dizer com muita propriedade que ‘em tempo de eleição, boato em profusão’.

Não é fato desconhecido de ninguém, mesmo aos não afeitos à política, que em época de eleição a boataria corre solta, geralmente notícias inverídicas acerca da conduta pessoal e profissional de um candidato, com o único propósito de denegrir sua imagem.

Esses boatos quase sempre partem de simpatizantes das candidaturas de adversários políticos e, hoje, têm seus efeitos potencializados pelo uso da Internet. É evidente que em grandes cidades do porte de Franca para mais, o potencial lesivo do boato é bem menor, pois não alcança a maioria dos eleitores. Nas cidades de grande contingente eleitoral, portanto, o efeito destrutivo do boato é, sem dúvida, bem menos intenso.

Em pequenas cidades, onde geralmente todos se conhecem e há maior proximidade do eleitor com os candidatos, o efeito de uma mentira passada por boca a boca, pode levar uma candidatura ao insucesso.

Nestas circunstâncias, o boato acaba alcançando todo o extrato social, virando eleitores e definindo o voto dos indecisos.

Pelo que me foi contado, fato do tipo teria ocorrido na última eleição municipal de pequena cidade do interior de Minas Gerais, cujo nome deve-se preservar por razões óbvias.

Segundo consta, até cinco dias antes da eleição um dos candidatos a prefeito detinha larga vantagem em relação ao segundo colocado.

Tinha a eleição como ganha, tamanha era a sua dianteira. No decorrer da última semana do pleito, espalhou-se pela cidade como um rastilho de pólvora, que o candidato líder nas pesquisas teria afirmado em um evento público que ‘não precisava do voto dos pobres’.

Evidente que não se imagina que um candidato cometa um erro eleitoral de tamanha grandeza, razão pela qual, o bom senso recomenda que interpretemos o episódio como sendo um boato plantado que se espalhou rapidamente pela cidade, alcançando a camada social menos favorecida do município que, obviamente, se sentiu desprestigiada.

O resultado da eleição foi a inversão das posições. O até então segundo colocado se elegeu com larga vantagem de votos.

O interessante é que a Justiça Eleitoral nada pode fazer, pois nunca se consegue saber, com exatidão, de onde partiu o boato. Fica evidente que não é nada difícil saber quem se aproveita da notícia mentirosa.

Assim, o boato acaba permitindo que o resultado favorável da eleição venha a ser obtido artificialmente, fazendo com que o eleito acabe se beneficiando da torpeza.

Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca

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