Toda escolha implica em alguma renúncia. Nem sempre conseguimos obter ou realizar, ao mesmo tempo, coisas que parecem ser importantes.
Se nos dedicamos ao estudo/trabalho somos obrigados a abdicar da convivência com amigos, familiares, lazer. O contrário é igual. Decidir nem sempre é fácil, pois queremos sempre acertar. De vez em quando, erramos. Diante de escolha inadequada, o que fazemos? Quase sempre lamentamos e colocamos a culpa em alguém.
Se mudarmos essa visão, poderemos colher resultados diferentes. Temos dificuldades de aprender com nossos erros, conhecê-los como fontes inesgotáveis de aprendizagem. Se erramos, temos que verificar onde erramos. Pela aceitação do erro, nos fortalecer para acertos próximos.
Erros, então, são prelúdios do sucesso. Somos o que fazemos repetidamente. Excelência está pautada em bons hábitos. Temos dificuldades para fazer escolhas por causa dos nossos medos. Preferimos agir do mesmo modo, mesmo sabendo que não estamos agindo corretamente, apenas por causa do medo. É preciso romper com o medo e imaginações que decorrem de escolhas e de incertezas.
Após sair de um momento de oração, deparei-me com mendigo que pedia alimentos. Muitos, com medo, passaram e o ‘ignoraram’. Eu observei aquela pessoa mal vestida, cheirando mal e pedindo apenas comida. Resolvi parar para conversar e dizer que lhe daria comida. Caminhei com ele até minha casa e pedi para que me esperasse. Entrei, preparei comida e lhe dei. Enquanto isso conversamos sobre a vida. O mendigo me disse que tinha família, que a perdeu em razão da bebida e das drogas, que adora viver na rua e que nela encontra de tudo. Indaguei por que não ia para o Abrigo Provisório, não procurava ajuda. A resposta dele foi provocativa: ‘Por quê? Porque na rua eu sou livre.’ Continuou: ‘as pessoas são falsas. Veja quantas estavam orando e ninguém, a não ser o senhor, parou para me ouvir e me dar comida. Sou mendigo mais tenho amor no coração.”
Realmente as aparências enganam e, de fato, com o aumento da criminalidade não podemos dar trégua a desconhecidos. Temos que nos policiar, entretanto, para que isso não tire de nós, seres humanos, o bem maior que temos, que é a capacidade de amar, de olhar para o outro, de permitir que o outro faça as suas escolhas. Se formos capazes de amar podemos não aceitar as escolhas, mas aceitaremos a liberdade de escolha. A vida é linda demais e podemos escolher entre ser puto/puta ou santo/santa desde que arquemos com as consequências das escolhas. Uma poesia de Rogéria Souza, amiga de pós-graduação em psicanálise, diz tudo. ‘Puta ou Santa? Santa, não mais... posso ser! Desde que permiti escorregar entre seu desejo insano de ter-me inaugurado em suas perversidades mergulhado em minhas entranhas. Estranhamente o reconheço. Sugou-me o néctar da minha meninice, minha sutileza, minha delicadeza. Hoje, estou assim, simplesmente, desnuda para o mundo’.
Devemos fazer escolhas certas, mas, se a escolha mostrar-se equivocada, que do equivoco nasça a possibilidade de um novo recomeço!
Estar desnudo para o mundo é estar aberto para a liberdade, inclusive de fazer escolhas certas ou inadequadas.
Não é justo mendigarmos por amor do próximo, porém, devemos refletir sobre as nossas escolhas de mendigos que fazemos costumeiramente.
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.