O Brasil ainda é um país essencialmente católico, não há dúvidas quanto a isso. Na verdade, nascemos católicos. Vivemos sob essa influência desde a primeira missa celebrada pelo frade Henrique Coimbra, logo na chegada dos portugueses em praias brasileiras. Durante quase três séculos, nosso sistema de ensino foi uma prerrogativa da Igreja Católica, que só a dividiu com a sociedade civil por conta da expulsão dos jesuítas perpetrada pelo Marques de Pombal.
Em função disso, nossa visão de mundo desenvolveu-se sob a influência dos preceitos religiosos católicos, o que nos fez compreender o casamento, o sexo e a própria vida sob o prisma dessa corrente filosófica e de fé. Obviamente, essa compreensão também amparou-se na ordem econômica da vida colonial, toda ela centrada na oposição racial, ética e intelectual entre senhores e escravos.
Em função disso, nos acostumamos ao casamento entre homens e mulheres de etnias e classes sociais no mínimo aproximadas. Aprendemos, também, a repelir veementemente qualquer demonstração de afetos homossexuais e acreditamos que o núcleo familiar tradicional seria o único esteio possível de nossa evolução social.
Passados cinco séculos, no entanto, parece que essas certezas começaram a perder seu espaço. Os dados do Censo 2010, publicados por este Comércio na quarta-feira, 18/10, mostram que elas estão sendo obrigadas a conviver com novas maneiras de se compreender o mundo, todas elas possibilitadas pelo intenso fluxo de informações que começou a flexibilizar as certezas e a corroer os dogmas da fé religiosa e das condições econômicas.
Segundo o Censo, cresceu o número de uniões informais, casais sem filhos e casamentos inter-raciais. Aumentou também o número de separações e divórcios e, pela primeira vez, levantaram-se informações sobre a existência de casais de mesmo sexo, de pessoas que vivem sozinhas e dos casais que vivem com enteados ou filhos.
Para alguns, esses dados talvez simbolizem o fim do mundo. Para quem ainda se pauta pelos ensinamentos religiosos ou por alguns paradigmas econômicos e sociais, tais números teriam um significado de deterioração de valores e da ética humana.
Para outros, no entanto, eles talvez signifiquem a esperança de dias melhores, dias em que as diferenças e a liberdade de escolha passarão a ser respeitadas em toda a sua integridade, sem perseguições explícitas ou disfarçadas.
De qualquer forma, independentemente do que pensam uns e outros, de suas crenças e de seus paradigmas, é importante ressaltar que esse novo retrato da família brasileira deixa claro que o espírito democrático que pautou o início de nossa república, há mais de cem anos, começa a tomar uma forma mais nítida.
Talvez ainda tenhamos um longo caminho para a plenitude da liberdade, mas não há como negar que o Brasil está ficando mais tolerante. E isso é ótimo!
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