O Brasil não nasceu como nação, mas sim como uma empreitada comercial. Todos que aqui vieram tinham apenas a intenção de enriquecer e voltar. Em função disso, corrupção, mandonismo, apadrinhamento e prevaricação, entre vários outros abusos cometidos foram sempre características intrínsecas de nossa formação social. Homens públicos, poderosos e até gente comum participaram durante séculos dessa pilhagem institucionalizada pelos portugueses.
Obviamente, com o passar do tempo esse atentado contra as coisas públicas tomaram ares de normalidade. Passamos a achar natural que o amigo de fulano fosse escolhido para um cargo público em detrimento de outros mais competentes. Da mesma forma, achamos normal que um senador receba 14´ e 15´ salários, sem nem mesmo procurar saber o que foi que eles produziram para receber tamanha retribuição.
Mas se no passado éramos um país de extremos, divididos em senhores que mandavam e escravos que obedeciam, a partir do século XX começamos um lento processo que buscava transformar essa empresa desfigurada em uma verdadeira nação.
E o tempo foi passando, sempre inventivo e contínuo, trazendo algumas vitórias e alguns retrocessos, como é comum acontecer em todas as transformações sociais. Nesse caminho, depusemos um presidente, desbaratamos verdadeiras quadrilhas que assaltavam o erário público e processamos vários políticos e juízes, figuras antes inabaláveis naquele Brasil empresarial e coronelístico.
Mas nada se compara ao que está acontecendo agora com o mensalão. Literalmente, o brasileiro preocupado com seu país está lavando a alma. O julgamento, na verdade, nem precisaria acontecer. É pura formalidade, já que todos sabem como funcionam as coisas na política brasileira.
A questão, porém, é que a formalidade tem uma incrível força simbólica. Ao serem condenados por crime que todos já conhecem de longa data, tanto os réus do mensalão, todos influentes e poderosos, como os juízes do Supremo estão simbolicamente sinalizando a todo o país que as coisas estão mudando e que a partir de agora é melhor tomar mais cuidado antes de se aventurar em maracutaias que até então eram praticadas livre e abertamente.
Com certeza, o mensalão não irá acabar com todos os problemas que quatro séculos de corrupção e desmando nos impuseram. Mas, para além das transformações políticas e legais que com certeza virão, o mensalão está levantando a autoestima de um povo. O brasileiro está mais confiante e alegre, vendo a impunidade começando a pagar seu preço.
E o grande herói do momento é o ministro Joaquim Barbosa. Aclamado por onde passa, ele está sendo considerado o grande responsável por essa autoestima. Ironicamente, ele carrega o mesmo nome de outro brasileiro que há exatos 62 foi considerado o responsável por acabar com a autoestima do povo brasileiro na grande final da copa do mundo de 1950, o goleiro Barbosa.
Mas isso é apenas uma ironia da história.
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