Em meio ao avanço do cultivo da cana-de-açúcar e à intensificação do uso de agrotóxicos, a produção de mel de abelha em Franca tem perdido espaço. De acordo com dados do IBGE, em 2004 eram produzidos 47.925 kg de mel na cidade. Um ano depois, este número já havia despencado para 30.120 kg. Já o dado mais recente, de 2010, aponta que a produção caiu para apenas 15.840 kg, metade dos índices registrados em 2005. De 2004 a 2010, a queda foi de 67%.
Shigueru Kondo, assistente de planejamento do Cati (Coordenadoria de Assistência Técnica Integral) Regional Agrícola de Franca, disse que a produção caiu porque não há mais abelhas na região. “O uso indiscriminado de agrotóxicos tem causado a morte das abelhas. Na natureza, elas não existem mais.”
O apicultor e comerciante de mel Fernando Pereira Silva concorda com Kondo. “Os agricultores falam que o agrotóxico é ecológico. Ecológico uma ova! Mata todas as abelhas”, afirmou, acrescentando que já perdeu um apiário inteiro por conta dos venenos aplicados por agricultores.
O problema já foi reconhecido pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), que publicou um comunicado em julho deste ano proibindo a pulverização aérea de agrotóxicos que contenham as substâncias Imidacloprido, Tiametoxam, Clotianidina ou Fipronil. A decisão foi motivada pelos “efeitos adversos a abelhas quando associados a agrotóxicos, observados em estudos científicos e em diversas partes do mundo”, diz o comunicado.
Kondo disse que também era criador de abelhas, mas abandonou a prática há aproximadamente dez anos devido ao avanço de outras culturas.
A expansão da cana-de-açúcar na região é o motivo principal do retrocesso na produção de mel, na opinião de Abdalla Abrão Dagher Neto, proprietário da empresa de produtos naturais Fauna e Flora. “Há aproximadamente 15 anos, áreas silvestres e de pastagem em que o néctar [que é transformado em mel pelas abelhas] era produzido passaram a ser arrendadas para a produção de cana. Os poucos eucaliptos que existiam na região também foram cortados por usinas”, explicou.
Ele também aponta como culpados pela queda na produção de mel as mudanças climáticas recentes, a falta de mão de obra especializada na apicultura, o uso de agrotóxicos e até mesmo furtos do produto. Assim como Kondo, Abdalla era apicultor, mas desistiu da produção em 2003 e passou a se concentrar apenas na comercialização do mel (leia mais ao lado).
O assistente do Cati afirmou ainda que a produção francana gira apenas em torno do mel. Ou seja, deixa de lado outros produtos também “fabricados” pelas abelhas, como a geleia real e o própolis. “São atividades mais elaboradas e profissionais. Os produtores de mel não têm um volume de abelhas nem local ideal para ter sistemas que desenvolvam geleia real, própolis ou pólen. O mel é o produto mais barato da abelha”, diz. Segundo ele, fica muito caro produzir geléia real ou própolis e os produtores francanos só conseguiriam isso com ajuda do governo.
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