Modismo, simplicidade - uma divagação


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A minha bela e competente professora de francês, Lígia Leal, vez ou outra me pergunta: “Adrianà, quelle chose tu rends nerveuse?” Respondo sempre que uma coisa que me deixa nervosa é barulho. Respondo isso porque em parte é verdade, em parte porque “le bruit” é uma pequena e simples palavra que, por ora, combina bem com meu inoperante francês.

Mas, todas as vezes, tenho vontade de tomar a palavra e todo o tempo da aula para falar sobre algo que ultimamente tem me tirado do sério - quem convive comigo já se cansou dessa ladainha. Simplesmente não suporto como a publicidade está se imiscuindo no âmago de nossas vidas e de como compramos a ideia de forma pacífica, não percebemos a cutucada - a ferrugem não tem pressa na corrosão, o que ela tem é paciência e tenacidade. Admiro o trabalho dos profissionais da área, adoro propagandas bem feitas e inteligentes, mas minha alma não está à venda. Sei do que gosto e do que preciso.

É repugnante ver os prazeres intrínsecos à condição humana serem vilipendiados e associados a produtos. Vocês perceberam que não há mais publicidade de produtos? Há publicidade da vida da gente, de estilos de vida que sonhamos ter: e encaixam aí os produtos. Assim, os produtos que usamos nos definirão. Basta correr os olhos pelos slogans para sabermos que querem nos incutir a ideia de que uma simples compra de supermercado pode nos fazer feliz:

“Lugar de gente feliz”;

“Vem ser feliz”;

“Você, feliz por inteiro”;

“Aprecie o seu momento”;

“A vida é bonita, mas pode ser linda”.

São apenas alguns exemplos. Eles são milhares e no saco de palavras não pode faltar a tal da felicidade, da alegria e da família. Será que precisamos disso pra saber quem somos? Aos poucos vão tomando de assalto prazeres grandes e pequenos como se tudo, absolutamente tudo, estivesse ligado a algum produto ou situação mensurável economicamente. Estão convencendo a gente a “comprar” o simples, o natural.

A coisa funciona com um roteiro mais ou menos assim:

“Você, mulher que trabalha, guerreira, linda deve ter o seu momento, seu banho de prazer (ué, não somos conscientes ecologicamente e na propaganda anterior não me mandaram economizar água?!); olha, amor, para seu prazer ser completo leve esse pequeno detalhe, a nossa espuma de banho, hi hi.” E a gente fica com cara de besta...

Tomar um banho é delicioso, é coisa simples que qualquer um de nós sabe. É renovar-se após um dia de trabalho, pouco importa a qualidade dos detalhes. Qual é o principal, qual é o acessório? A espuma de banho chiquérrima segue o banho ou o banho segue a espuma? A gente vai se confundindo, a gente vai se perdendo.

Quando o assunto é gastronomia, o consumo está ainda mais insuflado, porque é daquelas coisas que dão certa respeitabilidade. Nunca se falou tanto de boca cheia, nunca se fotografou tanto: a comida se transformou em übermodels, a postagem de fotos de pratos é campeã no Instagram (um aplicativo para compartilhamento de fotografias), o assunto desperta paixões. Ainda que seja um hobby, ele é levado a sério. É verdade que a ida a um restaurante querido significa mais que simplesmente comer, mas a essência continua sendo a comida boa, sobretudo a nossa preferida. Deixar que a propaganda acerca de experiências, conceitos, status, suplante a verdade é deixar o sentimento se evaporar. E não é uma simples cafeteira e/ou um “lounge” de espera que muda a essência de um restaurante.

Alguns poucos homens mudam conceitos, fazem história. O último a fazer isso no ramo dos restaurantes é ainda Auguste Escoffier. O que se faz dentro das cozinhas de qualquer restaurante está sob a batuta do que ele escreveu há mais de 100 anos. Lembrá-lo, lê-lo, nos põe a salvo de muito modismo bobo.

Dica da semana
Um belo bolo de carne é um prato simples, mas pode se tornar especial, dependendo da montagem. Além disso, é muito prático porque pode ser servido quente ou frio. Pode ser a “mistura” do almoço ou simplesmente o lanche da tarde. Parece-me que os bolos de carnes não são tão apreciados aqui, como o são na Europa de modo geral. Na Alemanha, Bélgica, Itália eles são muito comuns e por lá há registro de sua existência desde muito antes de Jesus Cristo.

Na minha lembrança os bolos de carne que comi estavam bem ruins, meio descuidados, daí que encontrei uma bela receita que testamos e aprovamos.

Parece-me que os segredinhos são três: primeiramente fazer todas as coisas separadas, só juntá-las ao final. Assim pimentões e cebolas devem ser assados com azeite para liberarem água e concentrar o sabor.

A melhor forma é aquela de bolo inglês com capacidade para 1 quilo e deve ser forrada com tiras de bacon ligeiramente sobrepostas deixando sobras de pontas dos dois lados, para serem viradas por cima do bolo. O bacon empresta sabor e umidade ao bolo.

A forma deve ir ao forno, embrulhada em papel alumínio e sobre outra forma com 2 cm de água fervente - banho maria. Tudo para que preserar ao máximo a umidade do prato. A receita é livre, mas indica-se misturar sempre carne de boi com carne de porco.
 

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