A Síria atualmente é manchete em quase todos os jornais do planeta. Situado no conflituoso Oriente Médio, o país enfrenta uma violenta guerra civil, exportando imagens de sofrimento e destruição para todos os continentes. Mas se nós brasileiros apenas lamentamos a violência pela distância mais tranquila da televisão, há entre nós pessoas que sofrem intensamente a cada bomba detonada nas cidades, ruas e avenidas do país, que até pouco tempo era um dos mais tranquilos da instável região do Oriente Médio.
Said Chahoud, brasileiro de coração e escolha, mas sírio de nascimento, é com certeza um deles. No Brasil desde os 16 anos de idade, ele lastima o que está acontecendo com as paisagens urbanas que experimentou quando jovem. Além disso, teme também pela vida da irmã, Salam Chahoud, que ainda continua em Damasco, a capital síria, hoje uma cidade bastante perigosa, já quase dominada pelos rebeldes.
Como a mãe deles, Taufica Hanouche, Salam acabou se casando na Síria e não acompanhou a família que, mesmo “aos pedaços”, acabou vindo quase toda para o Brasil.
Primeiro foi o avô de Said, Habib Hanouche. Nos anos de 1960 ele veio com todos os filhos tentar a sorte no Brasil, com exceção de Taufica, que acabou ficando longe dos pais e dos irmãos por quase 20 anos. Se fixou em Cristais Paulista e depois se mudou para Franca.
Por volta de 1975, um tio que morava no Brasil esteve na Síria, falou muito bem do novo país, disse que todos estavam prosperando e que Taufica e o cunhado também deveriam migrar com a família. Trouxe dois irmãos de Said e logo atraiu o restante da família, incluindo Said e o pai, Wadih Chahoud.
Depois de uma rápida adaptação, em 1980, os pais de Said resolveram arriscar suas economias em um restaurante de comida árabe em Franca. Montaram então o Damasco, na rua Frei Germano, no Alto da Estação, um restaurante que fez sucesso na cidade e ficou com eles até 1990 quando, por puro cansaço, resolveram vendê-lo.
Como Said também trabalhava no restaurante, após sua venda ele resolveu arriscar-se com um cunhado na venda de automóveis. Mas o negócio não deu muito certo e ele acabou voltando para uma pequena venda de comida árabe que seu pai havia montado para poder ter o que fazer durante sua aposentadoria. Aos poucos, tomou conta do negócio. Auxiliado por sua mãe, transformou o ponto em um espaço da gastronomia árabe, e assim seguiu por vários anos, ancorado nos pratos preparados por ela.
Porém, quando a mãe faleceu, em 2006, Said decidiu fechar o estabelecimento e aventurar-se pelo Brasil. Montou bar em praia do Nordeste, onde perdeu tudo que tinha, e aventurou-se pela comunidade árabe de Foz do Iguaçu, onde recuperou um pouco daquilo que perdera. Depois, cansou-se de tantas viagens e voltou a Franca para retomar o bar de seu pai, o Damasco, na rua General Teles, onde continua servindo aos francanos a comida árabe que aprendeu a fazer com a mãe.
Comércio da Franca - Toda a sua família foi vindo aos poucos para o Brasil. Como foi a adaptação de todos por aqui?
Said Chahoud - Foi tranquila, pelo menos para meus pais, para mim e meus irmãos, pois nós já tínhamos parentes por aqui. Apesar de ter algumas economias, meus pais começaram a vida no Brasil trabalhando no estabelecimento comercial de meu avô, o Supermercado Francano. Mas logo começou a dar problema, porque o negócio era muito pequeno para tanta gente. Aí um tio sugeriu o restaurante, o que foi prontamente aceito por meu pai e minha mãe.
Comércio - Seu bar atual já não faz mais tanto sucesso quanto fez anteriormente, ou mesmo se comparado ao restaurante de seus pais. A sua mãe era fundamental para o sucesso do empreendimento?
Said - Com certeza. Ela cozinhava muito bem e seus pratos eram deliciosos. Muita gente vinha buscar comida aqui no bar nos tempos em que ela estava na cozinha. Ela, inclusive, ensinou muita gente a fazer comida árabe em Franca. Sem ela realmente o bar não é o mesmo, pois infelizmente eu não aprendi a fazer todos os pratos. Mas o que faço aprendi com ela. E é tudo muito bom, pode apostar.
Comércio - Apesar dos 33 anos de Brasil e de já se considerar um brasileiro, como o senhor se sente em relação ao que está acontecendo na Síria?
Said - Fico muito triste, é claro, afinal é a terra onde nasci, onde passei minha infância e parte de minha juventude. Mas, acima de tudo, fico triste pela destruição que está acontecendo por lá, pois nesses últimos 40 anos a Síria foi um país internamente tranquilo.
Comércio - Ao contrário da maioria dos ocidentais, de maneira geral, e dos brasileiros, de forma específica, o senhor defende o ditador Bashar al-Assad. Por quê?
Said - Eu gostaria de frisar que defendo a democracia. Acho que Bashar deveria sair, mas não dessa maneira. Em minha opinião, no mundo árabe atual a democracia não é um regime possível. Tirar um ditador com uma guerra só trará mais conflitos para toda a população. O problema religioso talvez seja algo incompreensível para um brasileiro, mas penso que ele impede qualquer tentativa de conciliação entre todos os povos que se dividem pelo Oriente Médio, inclusive entre os grupos que compõem um mesmo país. O que acontece na Síria hoje também tem um fundo religioso muito acentuado. A maioria da população síria professa o islamismo sunita, mas há também muçulmanos alauitas e drusos, pequenos grupos derivados do islamismo xiita. Além disso, existem cristãos e uma pequena comunidade judaica.
Comércio - Qual a diferença entre muçulmanos xiitas e sunitas?
Said - Eu sou cristão católico e não entendo muito dessas coisas. Mas, de uma forma bem grosseira, posso dizer que essa divisão está relacionada aos grupos formados após a morte do profeta Maomé. Os sunitas, que são maioria no mundo islâmico, defendem o grupo que descende da linha direta de Maomé. Os xiitas defendem o grupo que seguiu Ali, o genro do profeta.
Comércio - Como o senhor compreende o jogo de forças entre esses grupos na Síria?
Said - Os sunitas são maioria, mas os Assad, desde o pai, Hafez al-Assad, que governou o país por 30 anos, até seu filho Bashar, que assumiu depois de sua morte, em 2000, e está lá até hoje, são alauitas, um grupo mais “light” ligado aos xiitas. Como há mais de 40 anos o governo está nas mãos de uma família alauita, esse grupo detém muitos cargos públicos e várias posições no exército e na polícia. Os cristãos, que formam outra das várias minorias que vivem na Síria, apoiam tradicionalmente o regime de Assad, já que a esse regime nunca interessou a expansão do fundamentalismo islâmico. Meu pai mesmo, antes de vir para o Brasil, servia o exército sírio. Ele era sargento.
Comércio - O que está ocorrendo então é uma vingança de um grupo que ficou às margens do poder durante mais de 40 anos?
Said - Exatamente. Se os rebeldes tirarem Bashar al-Assad do poder ninguém sabe o que poderá acontecer com alauitas, cristãos, drusos, judeus e outras minorias. Haverá com certeza muita perseguição e atrocidades e não a democracia que o mundo ocidental e principalmente os EUA dizem que acontecerá. Não se esqueça de que as notícias que recebemos por aqui são totalmente controladas pelos EUA e por alguns países da Europa.
Comércio - Não seria uma espécie de troco dos sunitas? Se houver perseguição, talvez seja porque nesses últimos 40 anos, os sunitas a tenham sofrido também?
Said - Creio que não. Durante o governo dos Assad a Síria experimentou certa liberdade em todos os sentidos, porque seria impossível impor durante tanto tempo um governo totalmente contrário aos sunitas, que são mais de 70% da população. No campo religioso, todos puderam professar suas crenças livremente, mesmo que acompanhados de perto pelo governo para que as rixas não se transformassem em conflitos. No âmbito civil, as últimas décadas na Síria também foram bem mais tolerantes do que em outros países. O que está acontecendo é que esses rebeldes são religiosos radicais. A democracia é uma grande fachada.
Comércio - Como o senhor analisa a chamada “Primavera Árabe”, que derrubou algumas ditaduras e motivou protestos em vários países muçulmanos no Oriente Médio e no norte da África?
Said - Acho que esses países estão trocando seis por meia dúzia. Saem os ditadores, alguns muito ruins mesmo, mas vão entrar os radicais religiosos, que com o tempo vão mostrar o mesmo autoritarismo dos ditadores antigos, com perseguições e outras atrocidades.
Comércio - Quer dizer que, em sua opinião, os árabes estão condenados a viverem em constante conflito? Não há nenhuma possibilidade de paz?
Said - Há sim, com certeza. É só acabar com o conflito entre Israel e palestinos que 80% dessas guerras vão acabar. Mas você acha que os EUA têm algum interesse na criação do estado palestino? E Israel? Se essas guerras diminuírem, como ficaria a indústria de armamentos, que tem os norte-americanos e os israelitas como os maiores interessados? No fundo, o problema é que os EUA não gostam dos árabes. O interesse deles é esse mesmo, incentivar os ódios entre os diferentes grupos para mais facilmente controlar seus interesses sobre o petróleo e a indústria de armamentos.
Comércio - Jogar toda a culpa nos EUA não é uma desculpa cômoda? E os interesses das grandes famílias árabes que ganham muito com essa aproximação com os norte-americanos?
Said - Você tem razão, mas veja como os EUA jogam com isso, incentivando as guerras e a destruição entre os árabes. Saddan Hussein foi aliado dos EUA na guerra contra o Irã. Quando quis conquistar sua liberdade em relação aos norte-americanos e fortalecer o Iraque, o que aconteceu? Destruição total do país. E qual era a desculpa? A democracia, o que todo mundo sabe que era uma grande mentira. Saddam Hussein era o mal, enquanto o Bush era o bonzinho, salvador dos pobres iraquianos. Bem, eles chegaram, mataram o Saddam e agora estão indo embora. E onde está a democracia? O que eles fizeram foi destruir o país. Todo dia explode uma bomba em algum lugar do Iraque, que virou uma terra de ninguém. E é isso o que vai acontecer com a Síria se o Bashar cair. Vai virar uma bagunça igual ao Iraque, acirrando ainda mais os conflitos religiosos em todo o Oriente Médio. No fundo, para mim, os EUA é que são os grandes terroristas internacionais.
Comércio da Franca - O senhor acha que existe alguma saída diplomática para a Síria nesse momento?
Said - Agora acho que não. Mas ele chegou a fazer uma proposta de sair em quatro anos, o que foi negado pelos rebeldes. Nesse tempo, seria possível preparar o país e esses grupos para uma transição mais tranquila, sem grandes perigos para as minorias que hoje lá vivem. Mas os radicais não aceitaram. Eles querem a guerra. Os EUA também.
Comércio - O senhor teme por sua irmã?
Said - Claro. Ninguém sabe o que pode acontecer na Síria amanhã. As bombas já estão explodindo em Damasco.
Frases
Em minha opinião, no mundo árabe atual a democracia não é um regime possível. Tirar um ditador com uma guerra só trará mais conflitos para toda a população
se o Bashar cair. Vai virar uma bagunça igual ao Iraque, acirrando ainda mais os conflitos religiosos em todo o Oriente Médio. No fundo, para mim, os EUA é que são os grandes terroristas internacionais.
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