Nossas novelas descendem dos folhetins que começaram a circular pela França no início do século XIX, ao mesmo tempo em que a imprensa se desenvolvia e se impunha como um veículo importante para o cotidiano das pessoas. Apesar dos folhetins serem apenas escritos em jornais e periódicos da época e de nossas novelas trazerem modernas tecnologias de imagem e som, as características básicas quanto ao formato e ao conteúdo não perderam de todo a sua essência. Quanto à primeira, a narrativa continua sendo apresentada de forma parcial e sequenciada. Em relação à segunda, ela continua ágil, com muitos eventos paralelos e vários ganchos intencionalmente criados para se prender a atenção do público e fazer com que ele volte no dia seguinte para se inteirar da sequência da narrativa.
Durante muito tempo, esses folhetins foram de fundamental importância para garantir o sucesso comercial de muitos jornais, inclusive no Brasil, onde a partir do final do século XIX tornou-se um tremendo sucesso de público.
Mas o que garantiria tanto sucesso a essas tramas narrativas ficcionais, seja em relação ao contexto francês e brasileiro do século XIX ou a esse mais presente do Brasil atual? A despeito da possibilidade de se levantar uma tese sobre esse assunto, é possível se ater a dois pontos básicos da própria estrutura dessas obras culturais. Por um lado, a sequencialidade diária da trama acaba se confundindo com a própria realidade de nossa vida cotidiana. Por outro, o velho embate entre o bem e o mal, uma questão que faz parte da essência humana e nos desafia há milênios, continua atual como nunca.
E é justamente aí que se encontra o segredo das tramas atuais e que lhes garante o sucesso de público. Como atualmente o bem e o mal não são mais definidos de forma clara, a sequencialidade da trama vai aos poucos possibilitando comparações que invariavelmente fazemos com as pessoas com as quais convivemos em nosso cotidiano. Mais parecidas com pessoas reais, as personagens acabam atraindo mais simpatia e ódio dos telespectadores, às vezes os dois ao mesmo tempo, já que os maus também começaram a mostrar seu lado humano.
De forma geral, as novelas de hoje nos permitem uma reflexão mais profunda sobre a vida que levamos, sobre nossos relacionamentos e até mesmo sobre o nosso país. Diferentemente das antigas, que só nos proporcionavam um efeito de desabafo e vingança simbólica contra os maus, as atuais nos desafiam a definir melhor as fronteiras entre o bem e o mal, entre a arte e a realidade, entre o que é ético e antiético.
Daí a torcida que se forma no final. Como a arte está cada vez mais imitando a vida, ninguém sabe direito o que vai acontecer.
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