Lata de banha 7ª (penúltima) parte


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Manhãzinha do dia seguinte. Álvaro levanta-se com a casa. Barbeia-se, perfuma-se com colônia barata, toma o café caprichado por Lurdes. Doca já se encontrava nos currais e depósitos, verificando com Gaudêncio os estragos da tempestade da tarde anterior.

O vendedor toma suas duas malas marrons e, por deferência, expõe as miudezas à esposa de Doca que, maravilhada, escolhe esta e aquela peça, com efeito todas muito úteis para uma senhora de casa de fazenda. Ainda não eram nove horas quando Álvaro é dirigido por Lurdes à casa de Gaudêncio para visitar das Dores e mostrar sua mercadoria.

Segundo erro de Gaudêncio: não estar ali presente nessa hora.

Lurdes retorna.

Ficam a sós o vendedor e a esposinha do retireiro.

Gaudêncio encanta-se com a beleza da mulher. Deixa transparecer seu sentimento por meio de lisonjas e outros que tais. Das Dores sentiu-se querida... E gostou. Mais: demonstrou ter gostado.

Foi uma primeira visita, pois o caixeiro visitante deixou propositalmente as melhores mercadorias para as próximas que viriam.

Álvaro passou os dois dias seguintes visitando algumas fazendas seguintes, seguindo agora na charrete dirigida por um negrinho, filho do dono da venda, que fazia serviços pequenos para Doca em troca de centavos. Mas Álvaro insistiu em voltar à casa de Gaudêncio para visitar uma vez mais das Dores. Disse a Doca que uma semana era muito pouco para tantas visitas à região. Só que Doca não entendeu que “região” tinha o sentido perigoso de “casa de Gaudêncio”. Álvaro montava na charrete, o negrinho chibatava o animal, transpunham a porteira, o vendedor dava uns trocados graúdos ao negrinho, apeava, contornava a vegetação alta que escondia um corpo andando, batia mansamente à porta de das Dores que punha o menino no berço e se entregava ao vendedor. Isto se repetiu durante a panha do café, a limpeza do curral, a retirada do leite à tarde, o roçar do feijoal, a reparação das cercas caídas, a extensão do arame farpado... E à noite, das Dores indisposta, o que deixava chateado o retireiro traído sem o saber.

Aqui se faz, aqui se paga, diz o ditado. Daí acontecer o inevitável: por volta de umas três da tarde, embaixo de um sol de estalar bambuzal, Gaudêncio dá-se conta de que a água de sua cabaça acabara. Sabia não haver bica por perto. E o trabalho de cortar capim gordura para o alimento do gado haveria de continuar tarde à frente. O mais perto era sua casa. Enxugou o suor da testa, da nuca, abriu a camisa, deixou o peito receber a suavíssima brisa morna e tomou a trilha de volta. Com pouco, subia o caminho para a vista das pastagens que circundam o casarão do Doca. O horizonte se abre. Sua presença assusta algumas seriemas que, aos gritos e aos bandos, correm com suas pernas compridas. Gaudêncio aproxima-se de sua casa. Ajeita a foice na tira de couro que trazia na cintura. Entorna a cabaça para deixar escorrerem as últimas gotas de água. Estranha o silêncio. Estranha mais ver a porta de sua casa fechada. Nem um chorinho do nenê. Janela do quarto semicerrada. Pensa logo que das Dores deve estar com dona Lurdes.
Avança alguns metros e passa pela janela. Ouve suspiros. É de das Dores. Cauteloso, sem pisar em gravetos ou cascalhos, aproxima-se mais e ouve, entre gemidos de prazer proibido, a fala mansa do moço bonito.

Encosta-se na parede e lentamente deixa o corpo escorrer até o chão.

Aquilo não podia estar acontecendo.

Um pássaro preto pincha num galho de ipê e convoca outros para fazerem luto na cerca do curral e sobre a porteira frouxa.

O sol está com febre. Nem uma nuvem no céu.

Gaudêncio mordeu a parte carnuda das mãos para não gritar, chorou sentido a traição, segurou-se para não invadir sua casa e fazer besteira das grossas. Aos poucos se levantou e, de mansinho, como chegou saiu. Passou a mão pelo cabo da foice. Matutou, Melhor não. Agora estava sabendo, e eles não. Era uma vantagem, dura, doída...

Bateu palmas na casa do Doca:

- Ô, de casa, ô comadre!

Lurdes o recebe:

- Qui é qui ocê tem, homem de Deus. Parece inté que viu lobisome! Qui cara de espantado é essa?

- Não é nada não! O sol está maduro, minha água acabou e queria bater um dedinho de prosa com o patrão!

- Doca num tá, não! Mas entra, mode tomá água fresquinha da bilha e encher a cabaça. Que é de das Dores?

- Ah, está lá em casa, parece que recebendo a visita do seu Álvaro.

- Moço bão, esse. Mais eu atinei qui ele estava noutras bandas. Eu vi quando ele saiu montado na charrete. Deve tá urtimando as venda, purque ele vai embora amanhã...

“Estão se despedindo”, pensou Gaudêncio olhando para o lado.

- E mais, Gaudêncio: Doca matô o leitão hoje de manhã. Si quisé, podi destrinchá as parte agora tarde. Já afiei as faca.

Gaudêncio molhou a cara, bebeu água o quanto pôde, encheu a cabaça e voltou pra roça. Matutou, matutou enquanto cortava capim gordura e enchia a carroça de um verde tristonho. Pensou muito na criança. Ódio e tristeza lhe invadiam a alma, a galope, aumentando um bocadinho mais a cada vez. Mas continuou no corte do capim, até o sol se encostar na montanha distante. Voltou para casa. Porta e janelas escancaradas. Das Dores cantava uma moda e o nenê brincava no chão.

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