Voltando o filme...


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Cecília Meireles tem um texto do qual eu gosto muito: Escolha seu sonho. Ela começa dizendo que “devíamos poder preparar os nossos sonhos como os artistas as suas composições”. E a partir daí, a autora nos convida a navegar nas possibilidades de poder escolher com quem gostaríamos de sonhar naquela noite ou quais lugares gostaríamos de visitar. Ela nos faz imaginar países inventados e nos atiça o desejo para encontrarmos com grandes heróis da humanidade como o Rei Davi, Alexandre o Grande, Buda e tantos outros. Entramos em uma verdadeira viagem, guiada pela nossa imaginação.

Lembrei-me hoje desse texto e fui relê-lo. Comecei então a imaginar se também fosse possível apertar um botão e, como numa história de fadas e mistérios, eu pudesse voltar o filme da minha vida. Confesso que não fiz isso com nenhum sentimento de nostalgia, mas por puro prazer de poder (quem sabe?) brincar com o tempo.

O que eu desejei foi simplesmente conseguir voltar com a minha compreensão de hoje para fazer mais perguntas e abrir meus ouvidos para uma escuta verdadeira. Imaginei-me sentada com meu avô materno, pedindo que ele me contasse histórias de sua infância e me falasse sobre sua mãe e seu pai, meus antepassados. Como eram eles? Suas manias e seus sonhos? E se eu pudesse ter conhecido meu avô paterno e ele me contasse sobre sua história de imigrante? Como ele chegou no Brasil e como foi viver e se estabelecer no interior do estado de Minas Gerais? E minha avó que tinha tantas crendices e me contava histórias que ela garantia que eram verdadeiras. Se eu pudesse voltar a conversar com meu pai e saber melhor e, com mais detalhes, como foi sua atuação como soldado na segunda guerra. E saber mais de pessoas, parentes que hoje sei que eram de grande sabedoria e que eu, uma criança, nunca me interessei em ouvir melhor. Quanta coisa também eu já me esqueci... Quanta coisa se perdeu no tempo e na memória...

O interessante é descobrir que parte de cada uma dessas pessoas está em mim, no meu DNA, e que todos eles juntos fazem parte da minha personalidade e do meu ser. A pergunta quem sou eu continuará ressoando infinitamente. Como aquele quebra-cabeças, cheio de pequeninas peças, sou feita e construída com desejos de imigrantes, com determinação de luta, com várias espécies de medos, com certezas de conquistas e com a decepção de fracassos.

Por tudo isso é que o caminho que tenho que percorrer só pode ser essa busca incessante para saber quem sou eu, quais são minhas fraquezas e onde está minha força. Minha escuta agora deve vir de outra dimensão. Só posso abrir-me para um lugar mais profundo, para a fonte que em mim habita e que é o DNA de todos nós: a nossa origem divina. Nessa busca, descubro que sou única e ao mesmo tempo igual a todos. Sou única nessa composição de células que me formou e que é justamente isso que me faz ser igual a toda humanidade porque todos nós somos únicos. A grandeza está aí: como podemos ser todos únicos e ao mesmo tempo diferentes? Só encontro explicação se compreendo que essa unidade existe porque viemos de uma mesma origem, de uma única Luz. Nosso caminho aqui é retornar para essa Luz.

Voltar o filme? Minha realidade sabe que isso não é mais possível. Mas ainda me resta a possibilidade de escolher meu sonho, como nos propõe Cecília Meireles. Posso escolher não dormir, mas sonhar acordada para continuar alerta e caminhar em direção a mim mesma, ao encontro do meu ser verdadeiro.

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