Quando mudou para a casinha construída a custo, em meio terreno herdado, lá no fim da vila, ou do mundo, o vizinho mais próximo deu-lhe dois presentes de boas-vindas: um filhote de vira-lata, outro de gato. No dia seguinte, secundado pela mulher e pela filha, foi batizar os bichinhos. Porque o choro do cãozinho não deixara os adultos dormirem, não teve dúvidas. Associou-o ao passarinho que canta à noite. Chamou-lhe Curiango. Mal pronunciara o nome e a filha, segurando o gatinho, perguntava, na gramática assimilada no meio.
- Eles briga?
O pai parou de queimar pestana.
- Isso, isso. O nome do bichano vai ser Briga, pronto. É muito bonito, não é, Maria?
Dez anos depois, o quarteirão já estava cheio de casas, já passava muita moto, muito carro, muito caminhão na rua onde moravam, empurrando todo o pó da via para dentro das casas vermelhas de poeira. Não havia placas de trânsito para serem desobedecidas, nem lombadas eletrônicas, mesmo assim, os veículos corriam demais. E aconteceu que, num domingo, um carro atropelou e matou o Curiango e mais duas ou três galinhas que ciscavam na vizinhança.
Zé foi tirar satisfação com o motorista, que morava no quarteirão seguinte, foi destratado, ouviu palavrões, voltou ainda mais triste. Aconselhado por amigos, dirigiu-se ao Distrito Policial mais próximo, explicou o ocorrido, falou que desejava fazer queixa contra o motorista malvado.
O homem atrás do balcão só faltou explodir. Disse-lhe que, só na noite anterior, ocorrera mais de vinte roubos e furtos na sua jurisdição, que tivera de atender oito ocorrências de violência contra a mulher.
- E você quer que eu vá perder tempo com cachorro? Ora, suma daqui antes que eu mande detê-lo por insulto e por desacato.
O caminho de volta pra casa foi uma via sacra.
Chegou em casa em tal estado que quase ignorou o princípio em que fora educado, de que homem não chora. Chegou, porém, com decisão assentada: nunca mais teria bicho em casa. Assim, orientou a filha, deu dinheiro, ela comprou pincel e cartolina, satisfez o pai.
Concebida tinha agora catorze anos. Frequentara o ensino fundamental e, graças às automáticas promoções, cursava agora o ensino médio, para orgulho do pai que se jactava disso, e crescia em meio aos demais serventes de pedreiro, quando exaltava os progressos da filha.
Obediente, ela escreveu em letras grandes na cartolina:
Vendo galo Briga
Preço bão
O pai fora criado em fazenda, onde não havia escola rural. Não sabia que precisava cortar o l para ele virar t, sequer imaginou que a filha cometesse distrações ou erros. Aprovou a ortografia, a sintaxe, achou o desenho das letras muito bonito, pegou prego, martelo, pregou o papel na parede, de fora, ao lado da porta.
No dia seguinte, Zé chegou da construção, a roupa suja de massa, de cimento, de cal, o estômago na nuca. Não teve tempo de tomar banho, de comer alguma coisa.
- Dois soldados passaram aqui duas vezes, deixaram recado urgente. É pra você ir hoje mesmo lá no distrito. Eles queriam ir lá no seu serviço, mais eu não sabia ensinar.
Zé retoma a bicicleta e retorna às ruas sem asfalto.
- Decerto resolveram aceitar a queixa, vão dar uma prensa nesses caras que vivem correndo feito doido, matando bicho.
No distrito, foi logo reconhecido por um dos homens atrás do balcão.
- Ah, você queria fazer uma denúncia, não queria? Pois agora nós temos uma surpresa pra você. Você foi denunciado por maus tratos a animais. Agora sim, vamos fazer um Boletim de Ocorrência. Pode ir falando. Onde fica a rinha de galo?
- Fica o quê?
- Deixa de ser cara-de-pau. Fala logo. Onde fica a rinha?
- Rinha? Sei lá de rinha nenhuma.
Neste momento chega alguém fardado, o homem ordena:
- Soldado Charuto, bota ele lá na salinha. Enquanto eu atendo esse povo aqui, ele vai recuperar a memória.
Zé chegou em casa depois das duas horas da manhã. Estava sujo, com fome, desanimado dos homens. A mulher estava aflita, queria saber o que acontecera.
- A Concebida esqueceu de cortar a letra. Em vez de gato, ficou galo... a polícia achou que eu mexia com briga de galo. Não queriam acreditar que Briga era o nome do gato que morreu. Ficavam falando que eu vendia galo de briga, que eu tinha um lugar pra fazer brigas, pra fazer aposta. Esse mundo está ficando doido...Estavam com o papel que a Concebida escreveu...
- Que que você vai fazer?
- Vou tomar banho, dormir... Daqui um pouquinho eu tenho que estar na construção, ficar subindo e descendo de andaime.
- Mas e depois?
- Vou deixar tudo pra lá. Nunca mais quero saber de gato, de cachorro, de papagaio, de bicho nenhum...
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