Maria Aparecida Guimarães, 57, completa neste mês, no dia 29, duas décadas de carreira na polícia. Dona Cida, como é mais conhecida, é fotógrafa pericial da Polícia Científica de Franca e forma dupla com os peritos do IC (Instituto de Criminalística) para coletar provas em acidentes com vítimas graves ou fatais, homicídios, suicídios e outros crimes. A equipe de cinco fotógrafos da cidade trabalha em sistema de plantão.
Nos 20 anos de profissão, Cida fotografou muitos acidentes, teve muitos momentos de emoção, mas nunca vai se esquecer da madrugada de 4 de março de 2005, uma sexta-feira, quando viveu uma história de dor e superação. Pela escala normal, ela estaria de plantão naquele dia, mas a amiga e também fotógrafa pericial Sílvia Maria Novato havia pedido a ela para trocar a escala porque tinha que fazer uma viagem. Mesmo fora da escala de plantonistas, Cida foi acordada por um telefonema no início da madrugada daquela sexta-feira para acompanhar um grave acidente com vítima fatal no cruzamento da avenida Hélio Palermo com a rua Afonso Pena.
Acompanhada do marido e do enteado, ela esteve no palco de mais uma tragédia que matou um jovem de apenas 23 anos. Em alta velocidade, ele bateu o carro num poste e morreu. A ironia é que a vítima, Reinaldo Sílvio Guimarães Júnior, o Juninho, era o filho caçula de Cida. “Não cheguei perto dele no carro, mas quando olhei a pick up já pressenti uma coisa ruim porque a gente tem uma certa experiência quanto aos danos de veículos e, pelo estado do carro, sabia que tinha sido muito grave”, disse Cida.
Se fosse plantonista, ela teria acionado outro fotógrafo para assumir seu trabalho. Cida se lembra de ter ficado transtornada ao ver o estado do carro do filho e saber que ele havia quebrado o pescoço. “Só sei que gritei muito, não sabia se corria, se ia até ele. Eu não enxergava bem, por causa do susto que levei. Foi um trauma muito grande porque eu já havia feito fotos de vários acidentes envolvendo jovens e sempre tinha pena dos pais, mas a partir daquele dia, passei a rezar mais por eles porque vivi na pele aquela dor.”
Mesmo abalada, Cida conseguiu acompanhar o velório e sepultamento para se despedir de Juninho. “Não tomei calmante nenhum. Na minha percepção, existe outra vida depois da morte e o apoio de pessoas que são espíritas e estavam lá naquela hora me trouxe muita força.”
A fotógrafa tirou os oito dias de licença a que tinha direito pela morte do filho e ficou mais um mês afastada - licença premium após a morte do caçula. “Os pais nunca querem enterrar os filhos. Mas minha vida continua, tenho que continuar meu trabalho, consegui trabalhar essa dor porque Deus me ajudou muito, o pessoal do meu trabalho, que é uma equipe muito boa, me deu muito apoio.”
A fotógrafa Sílvia, que estava de plantão após a troca com Cida, disse que o acidente foi também um dos mais chocantes de sua carreira. Ela assumiu o cargo junto com Cida e as duas são amigas. “É interessante como a mão de Deus está em todo lugar, porque naquele dia, sem saber o que aconteceria, a gente havia trocado os plantões. Foi péssimo fazer o trabalho, passar por aquela situação, um trauma. A gente como mãe sabe o que ela passou.”
O ACIDENTE
No acidente, Juninho dirigia a pick up corsa ao lado do amigo Oliver Moretto, que também é fotógrafo e hoje trabalha no Comércio. Era por volta da 1h30 quando os dois saíram de um posto de combustíveis da avenida Hélio Palermo. Juninho bateu em um poste existente no estabelecimento e, quando entrou na avenida tentou reduzir a velocidade, mas não conseguiu e bateu em um poste de energia elétrica. Para não cair com o veículo no Córrego dos Bagres, puxou a direção para o lado direito, rodou com o carro e tornou a bater num terceiro poste. Ele quebrou o pescoço e morreu após dar entrada no hospital.
Oliver foi arremessado para fora do veículo e caiu atrás da pick up. Foi ele quem ligou para os pais de Juninho avisando do acidente.
O carro teve perda total. “É interessante que, quando dava conselho para o Juninho, cheguei a pedi para ele não correr. Falava para ele: ‘Já pensou se eu estou de plantão, chego num acidente e é você’. Ele dizia: ‘Tira as fotos e depois enterra’, mas a gente não imaginava tudo que aconteceu.”
Juninho também era fotógrafo e trabalhava num estúdio de fotografia com o irmão mais velho, Marcelo, 38. Os dois faziam planos de abrir a segunda unidade da empresa. Não deu tempo. Também não houve tempo de Juninho cursar jornalismo. Ele havia começado o curso de direito, mas só estudou o primeiro ano porque não gostou e desistiu.
Após o acidente, a Câmara Municipal aprovou lei de autoria do ex-vereador Marcelo Caleiro, atual delegado seccional de Franca, que batizou uma das vias da Vila Totóli de rua Reinaldo Sílvio Guimarães Júnior. “Ficamos muito orgulhosos com a homenagem para meu filho”, disse a mãe.
IMPOSSÍVEL ESQUECER
Outro acidente marcante na carreira de Cida também envolveu jovens. Cida era fotógrafa pericial plantonista na noite da tragédia que provocou a morte de 20 pessoas após a queda de um ônibus numa ribanceira na rodovia Cândido Portinari.
O acidente aconteceu por volta da meia-noite do dia 9 de maio de 2002 no trecho batizado de “curva da morte”, próximo a Rifaina. O ônibus da empresa Sacratur transportava estudantes de Franca para Sacramento (MG) e teve um problema nos freios, saiu da pista, se chocou com a defensa de concreto e despencou na ribanceira. O motorista e 19 estudantes morreram. Cida e um colega atenderam à ocorrência. “Me marcou mais porque estava chovendo e tinha muitas vítimas. E acompanhei tudo no local e depois a chegada dos corpos ao Cemitério Santo Agostinho para serem periciados. Foi chocante.”
ARMA
Cida nasceu em São Paulo, mas se mudou para Franca com a família quando ainda era bebê. Por sete anos morou em Pedregulho com o marido, o investigador de polícia Reinaldo Sílvio Guimarães, 67. Foi na cidade vizinha que trabalhou como escriturária numa escola, mas decidiu deixar o cargo para ter mais tempo de cuidar do filho.
Em 1992, a vida profissional de Cida mudou completamente. Por sugestão de um amigo dela e do marido, o Adeílton, ela se inscreveu para o concurso de fotógrafa pericial e foi aprovada. Conquistou, ao lado de Sílvia e André, uma das três vagas abertas em Franca. Antes de assumir o cargo, fez um curso na Academia de Polícia em São Paulo durante três meses.
“Tivemos inclusive aulas de armamento e tiro. Eles nos explicaram que o bandido, ao se deparar com uma viatura, não vai perguntar se é perito, fotógrafo, investigador ou delegado. Não usei armas nenhuma vez. Normalmente, o perito leva arma e alguns fotógrafos também, mas preferi não portar uma.”
Cida faz plantões de 24 horas e folga 72. No trabalho fotografa cenas e vítimas de homicídios, acidentes com vítimas, suicídios, crimes em áreas ambientais e outros casos. “Gostei muito da profissão de fotógrafa. Entendo que meu trabalho é para ajudar de alguma forma a esclarecer um crime ou um acidente que teve vítima fatal. É claro que depende do perito, mas a foto capta detalhes que às vezes a gente não enxerga na hora.”
A fotógrafa não planeja aposentadoria. “Não sei quando vou me aposentar. Gosto de trabalhar porque a equipe é muito boa.”
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