Lá do alto não vejo nenhum sinal de mudança, o que se vê é ainda um pequeno bloco de terra que emerge da imensidão azul, um topo de cabeça lutando para conseguir um pouquinho de ar. Mas eu já imaginava que 12 anos seria muito tempo para o cumprimento de promessas de fidelidades, em tempos modernos então, nem se fale.
E a ilha mudou muito e se dobrou ao gosto da maioria, transformando-se num imenso playground para adultos: ao alcance da mão, toda a mansidão do azul mar do Caribe, areia branca, hotéis luxuosos com suas esteiras a demarcarem territórios e cassinos. Filas de ônibus da De Palm Tours, filas de Jeeps que prometem uma incrível aventura radical num terreno plano, filas de carros alugados denunciados pelos adesivos, triciclos, motos, pedestres. Todo o silêncio e isolamento preenchidos pela vida. Levei um susto quando vi o marco extremo da ilha, uma âncora vermelha, bem ali pertinho de um conjunto habitacional, o San Nicolas. Há poucos anos, essa âncora era outra ilha em meio ao nada.
Na verdade não tem nada de incrível nisso, os mesmos 12 anos se passaram em toda a parte e os mesmos “estragos” se podem ver em qualquer parte: nossa Franca, se comparada há 12 anos, também é outra. Mas é mais triste quando a coisa se dá num paraíso tropical. Temo que aquela foto das duas cadeiras de praia isoladas em meio a areia branca e mais nada só seja tirada lá pelas 6 da manhã, enquanto a turba enfurecida das férias ainda dorme.
Os restaurantes são tantos que nem dá mais para escolher, somos nós os escolhidos, melhor, colhidos. Mas nenhum digno de nota. Engraçado como o progresso não alcançou a comida. Há sim boas comidas, bons frutos do mar. Mas falta a correção e simplicidade, sinto que passaram por cima do bem feito e foram direto para a moda. Por exemplo, o peixe grelhado pescado no dia, fresco como só, absurdamente temperado com cominho, do restaurante Cubas Cooking. Penso que um peixe fresco pescado no dia e grelhado não pede nada mais que sal, talvez um limãozinho. Por que aplacar esse sabor tão simples, perfeito? É melhor resistir à tentação desse “toque pessoal” e deixar a natureza sozinha.
O melhor que comemos por lá foi uma entrada num restaurante Italiano, o Gianni’s: burrata, presunto cru, tomates frescos, tudo acertado e, embora estivesse bem quente, insisti no vinho, que veio perfeitamente aclimatado à temperatura ambiente: algo em torno de 33º - me dei mal.
Depois, caímos noutro franco-italiano-grelhados, mas acho que fizemos lá nossa melhor refeição. No Le Petit Café, eles levam à mesa uma pedra absurdamente quente com um pedaço de carne quase cru, daí o cliente corta em pedaços e vai virando na pedra quente, aos poucos a carne vai chegando ao ponto. O calor dá até para o bem passado! Animei-me e vá lá: outra taça de vinho. Dessa vez, veio tão quente que recorri a um hábito portenho horroroso: meti uma pedra de gelo dentro, não tive opção, juro. O engraçado é que há adegas nos restaurantes, não entendi.
Há gente demais, é verdade, mas a beleza de Aruba continua intacta. Enquanto rascunho o que quero contar a vocês observo o rapaz do meu hotel chegar a mais um fim de dia de trabalho: ele empilha espreguiçadeiras que há bem pouco sustentavam corpos letárgicos. Despeço-me mais uma vez do sol do Caribe, quero voltar, acho que volto, mas o faço como se não voltasse.
Quero sentir esse sol na pele, nos cabelos e traduzi-lo em promessa real de vida. A visão que tenho daqui é linda como um desses protetores de tela dos nossos computadores, a animar os dias iguais de ar condicionado, mas é diferente: eu estou aqui.... Ou melhor, estava.
Dica da semana
Nem sushi, nem sashimi nem tempura. A comida mais popular do Japão é a kareraisu, que ao pé da letra deles significa arroz e curry, mas não é só. E, ao contrário da tendência japonesa de sofisticação e simplicidade, o kareraisu é bastante rústico e cheio de sabores de especiarias. Na verdade, o curry não é um tempero japonês, sabidamente indiano, ele foi levado para o Japão pelos ingleses na era Meiji, por volta de 1872, e curiosamente se tornou um dos preferidos por lá.
Mari Hirata nos conta que nos supermercados japoneses a sessão dos currys é maior que na Índia, há combinações e pastas em barras como chocolate.
Bem, vou dar aqui a receita desse prato de dona de casa japonesa.
Em uma panela, coloque um litro de água fria, cebola, batata e cenoura e carne, tudo cortado em cubos grandes. Não precisa pesar, mas se tiver receio, considere 200 gramas para cada um e coloque a carne de sua preferência. Cozinhe até ficar tudo macio, cerca de 20 minutos e coloque a pasta de curry de sua preferência.
Aí é só jogar esse cozido em cima do arroz. Pode-se sofisticar a receita acrescentando gengibre, maçã ralada e bochecha de boi. Nesse caso, o cozimento se dará por cerca de 3 horas e deve-se deixar descansar de um dia para o outro. Um perfeito confort food.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.