Ele hoje está aproveitando o sucesso. Mas, como quase todos os que ali chegaram, precisou correr bastante atrás dele. Despontando como o vilão do momento, o ator Rodrigo Andrade está experimentando o “gostinho” de interpretar marcantes papéis em nossa teledramaturgia. Já fez dois, o homossexual Eduardo, de Insensato Coração, e atualmente está no ar como o cafajeste Berto, de Gabriela.
Nascido na vizinha Altinópolis, Rodrigo veio para Franca ainda criança. Por aqui fez seus estudos e passou praticamente toda a sua infância e adolescência. Filho de um artista de circo e neto de um músico, ele começou cedo no mundo das artes. Aos sete anos já tinha seu violão, uma união que não se desfez até hoje e que logo trará a público o seu segundo CD.
Aos 13 anos, começou a vender sapatos e tênis pela cidade e depois pela região. Decidido a conseguir sua independência financeira, aos 16 anos já cantava na noite francana.
Paralelamente, começou a trabalhar como modelo, fazendo alguns desfiles e eventos em Franca. Em um deles, conheceu um produtor de uma grande agência de São Paulo, que o convidou para fazer parte de seu casting. Fez, então, alguns testes e começou a atuar em comerciais para televisão, o que lhe deu certa segurança financeira e intensificou suas viagens para a capital paulista. Seu sonho, porém, estava na música. Jamais pensara em ser ator, mas sim cantor.
Ao final do ensino médio, porém, ficou um pouco perdido. Chegou a matricular-se no curso de Publicidade e Propaganda da Unifran, mas não ficou muito tempo. Levado pela DJ Aline Rocha, chegou a fazer algumas aulas de teatro na Unifran, o que também acabou não vingando. Nessa mesma época, aproximou-se da conhecida banda Lex Luthor, de Divinópolis, mas não chegou a participar dela.
Aos 18 anos, porém, resolveu arriscar. Como os comerciais começavam a dar-lhe certa segurança financeira, deixou a loja com seus pais e mudou-se definitivamente para São Paulo, onde começou a fazer alguns cursos de teatro para melhorar seu desempenho na televisão.
Durante três anos se dividiu entre comerciais para TV, participações em peças de teatro, shows e eventos. Aos 21 anos, porém, sua vida ganhou um novo rumo. Aconselhado pela mãe, e na “fossa” por conta do fim de um namoro, resolveu experimentar o Rio de Janeiro e ficar mais perto da Globo, o sonho de quase todos os atores.
Foi primeiro para conhecer. Assistiu a uma peça na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), uma importante escola de formação de atores daquela cidade, e fascinou-se com o que viu. Decidido, em menos de uma semana Rodrigo já estava no Rio com sua mochila, seu violão e muita vontade de fazer deslanchar sua carreira, tanto na música como na televisão.
Comércio da Franca - Você foi para o Rio de Janeiro com 21 anos, mas o sucesso mesmo só veio a partir dos 26. Como foram esses cinco anos de espera?
Rodrigo Andrade - Foram de batalha, pode ter certeza. Quando eu cheguei ao Rio, eu queria estudar interpretação e precisava trabalhar também. Então comecei a correr atrás. Fui garçom, cantei na noite, fiz eventos e também fiz testes para comerciais de televisão, coisas que eu já fazia em São Paulo. Mas não podia ficar só nisso. Eu precisava melhorar minha performance como ator, senão o Rio de Janeiro não faria sentido. Como não tinha dinheiro, fiquei dois dias inteiros “pentelhando” o dono da CAL (Casa das Artes de Laranjeiras) para conseguir uma bolsa de estudos...
Comércio - Na cara dura?
Rodrigo - Na cara dura. Eu sempre fui muito focado. Eu tinha me encantado com aquela escola e queria estudar lá de qualquer jeito. E o pior é que eu falava errado, daquele jeito caipira que falamos em Franca, “nóis vai”, “nóis feis” e tudo aquilo que você conhece bem. E o cara me dizia: “você nem sabe falar, como vai querer ser ator”? (risos)... Mas eu continuei insistindo e consegui a bolsa.
Comércio - Como você se saiu no curso?
Rodrigo - Eu entrei de cabeça. Tentei ao máximo ser o melhor aluno e não dar nenhum trabalho para não perder a bolsa. Depois de seis meses já apareceu o primeiro teste para Malhação. É que os caras da Globo ficam andando pelas escolas de teatro. Fui, fiz, mas não passei. Mas, fiz meu cadastro, o que acabou resultando em um monte de testes.
Comércio - Que testes foram esses?
Rodrigo - Fiz participações em programas do Didi (Renato Aragão), comecei a fazer pequenas pontas em novelas e por aí afora. Mas não conseguia nenhum papel importante. O pessoal falava que eu era bom, que eu tinha talento. E aí eu me perguntava: se eu tinha talento, por que não conseguia nada além de pontas e pequenas participações?
Comércio - E isso incomodava?
Rodrigo - Bastante. Teve uma vez que eu fiz um teste para a novela Paraíso Tropical. Eu iria ser o filho do Marcelo Antony e da Glória Pires. Estava tudo certo, mas aos “48 minutos do segundo tempo” eu dancei. Entrou o Gustavo Leão. Aquilo foi um balde de água fria. Fiquei muito decepcionado. Via o Gustavo fazer aquele baita sucesso, ganhar uma grana legal e eu pensava: essa era para mim.
Comércio - E não te deram nenhuma explicação?
Rodrigo - Quando você está começando eles não dão muita bola. Conforme você vai entrando no esquema, você vai percebendo melhor como as coisas funcionam e vai se aproximando das pessoas, como em qualquer empresa, eu acredito. Mas hoje percebo que foi até bom. Naquela época, talvez eu ainda não estivesse maduro o suficiente para segurar aquela “onda”, o próprio personagem, o sucesso, sei lá.
Comércio - E o que você fez, então?
Rodrigo - Comecei a me dedicar mais aos outros trabalhos. Tornei-me produtor de eventos e a coisa começou a dar certo, sempre atuando na área musical. Fui produtor da banda Água de Fogo e fiz um trabalho bacana com eles. Em 2007, fui contratado como produtor do canal GNT, onde fiquei um ano, também na área de música. Depois virei definitivamente produtor e comecei a trabalhar com grandes shows, o que me dava certa tranquilidade financeira.
Comércio - E quando você voltou à televisão como ator?
Rodrigo - Eles continuaram me chamando para testes durante esse tempo. Fiz, inclusive, algumas participações em Paraíso Tropical. Só que a partir daí eu passei a recusar alguns trabalhos que não me pareciam interessantes. Mas quando chegaram os testes para a novela Caras e Bocas, apareceu outra grande oportunidade e eu me empolguei novamente. Eu iria fazer um personagem de certo destaque. Estava tudo certo, mas novamente fui substituído aos “48 minutos do segundo tempo” pelo Marco Pigossi. Aí eu fiquei muito decepcionado.
Comércio - Pensou em desistir?
Rodrigo - Com certeza. Tanto é que quando eles me chamaram para fazer uma participação nessa mesma novela eu disse que não iria fazer nenhum teste. Mas aí eles me disseram que não precisaria de teste e que eu já tinha sido escolhido para fazer o cozinheiro.
Comércio - Que seria o Téo, seu primeiro papel de destaque?
Rodrigo - Exatamente. No começo ele nem tinha nome, mas como foi aos poucos ganhando espaço, acabou ganhando um. Depois ganhou um par romântico e no último capítulo até um casamento.
Comércio - A partir daí abriram-se definitivamente as portas da Globo para você?
Rodrigo - Mais ou menos. Eu tinha ido bem, mas era apenas o começo. Mas assim que terminou Caras e Bocas o Gilberto Braga me ligou...
Comércio - Como é para um ator em começo de carreira receber um telefonema de um dos maiores teledramaturgos do país?
Rodrigo - Na hora você nem acredita que é o cara. A ficha demora a cair. Mas era ele mesmo. Ele me convidou para fazer um teste para o personagem Eduardo, de Insensato Coração. O personagem foi um sucesso. Ganhei vários prêmios de ator revelação com ele e as portas começaram a se abrir para mim.
Comércio - Esse foi o principal papel que você interpretou?
Rodrigo - Eu diria que o Téo me lançou, o Eduardo me consolidou como ator e o Berto, agora, está ratificando minha capacidade de interpretar.
Comércio - Como foi sair do papel de homossexual enrustido para outro machista e cafajeste?
Rodrigo - O Eduardo teve um papel importante em termos de impacto social. Ele precisou “sair do armário”, se assumir e ainda foi protagonista do primeiro casamento gay da teledramaturgia brasileira. Por isso minha responsabilidade era grande e eu não podia errar. Não podia trazer para o Berto nada do Eduardo. Por isso utilizei-me de uma técnica chamada de “espelho invertido”.
Comércio - Você teve alguma ajuda para fazer isso?
Rodrigo - Tive, claro. O Sérgio Penna, preparador de atores da Globo, me ajudou muito. O André Monteiro também, outro preparador de ator com quem trabalho desde Insensato Coração. Com ele eu faço um trabalho até mais profundo. A gente constrói o personagem desde seu nascimento, por assim dizer.
Comércio - Qual personagem você prefere: o Eduardo ou Berto?
Rodrigo - O Berto, é claro. Ele é mais divertido, é mais para fora. Nas gravações a gente se diverte muito. Se dependesse de mim, eu faria só os malvados a partir de agora, é muito mais gostoso.
Comércio - E a música, depois de todo esse sucesso, ficou relegada ao segundo plano?
Rodrigo Andrade - De modo algum. Quando acabei Insensato Coração, fiquei quatro meses sem trabalhar. Nesse período, acabei produzindo meu primeiro CD. Agora estou fazendo a mesma coisa. Estou na fase de produção de meu segundo CD. Quando acabarem as gravações de Gabriela, vou me dedicar mais ao CD.
Comércio - Para finalizar, um pouco de fofoca. Primeiro, facilita ser modelo e bonito para entrar na Globo? Segundo, existe mesmo o “teste do sofá”?
Rodrigo - Ser bonito fisicamente talvez ajude, mas com certeza não segura ninguém. Se não tiver talento, não tem jeito, o público acaba colocando você de lado. Eu vejo mulheres lindas fazendo testes. Vejo também uns caras grandes, bonitões, mas que não conseguem entrar. Além disso, a profissão de ator é muito generosa, pois há espaço para pessoas de todos os tipos e de todas as idades. Quanto ao “teste do sofá”, eu desconheço. Se existir, com certeza está limitado a casos esporádicos ligados a pequenos papéis.
Comércio - Os filhos de atores consagrados têm mais facilidade para entrar no Globo?
Rodrigo - Eu acredito que não. E posso dizer que os filhos de atores que estão lá dentro sofrem muito mais pressão do que eu, por exemplo. E é como eu te disse, se não tiver jeito para a coisa, não consegue segurar, seja filho de quem for.
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