Damos gorgeta a quem nos serve na churrascaria para que nos traga só picanha. Compramos ingressos de cambistas. Utilizamos estacionamentos de deficientes físicos e de idosos sem nenhuma vergonha
Usamos bebês para esmolar na rua. Entramos na frente de quem está há horas em alguma fila ‘encostando’ em algum amigo que está bem à frente. Mesmo errados xingamos o motorista cumpridor das leis que está a nosso lado. Pedimos a autoridades para que nos ‘vinguem’ contra alguém que nos colocou contra a parede. Caímos em ‘contos do vigário’ porque achamos que só nós somos espertos. Não devolvemos dinheiro a mais que caixas desatentos nos dão de troco. Pactuamos com políticos desonestos só porque são nossos amigos. Fraudamos concursos públicos. Pedimos ‘taxa de administração’ e negamos que isso seja taxa de corrupção. Condenamos professores ao invés de aplicar corretivos nos alunos nossos filhos. ‘Empurramos’ a obrigação de educar crianças a creches e escolas. Utilizamos como mote de vida o ‘antes eles do que eu’. Usamos a bandeira nacional para limpar a bunda. Cobramos agentes policiais quando soltam bandidos mesmo sabendo que agem de acordo com a lei. Aceitamos, calados, que ‘crimes de menor poder ofensivo’ não resultem em prisão para seus autores. As músicas que ouvimos e os filmes que assistimos vêm de CDs e DVDs piratas. Incentivamos a quem os vende, a continuarem: “não é tão grave quanto roubar, matar... Somos partidários do anonimato, mas não da coragem. E, quase a explicar, elegemos políticos despreparados, descompromissados com causas cidadãs. Comemoramos suas eleições sorrindo, fazendo piada, mas só até que a correia aperte...
Somos ‘Gersons do País da Impunidade’ – e que me perdoe Gerson de Oliveira Nunes, o canhotinha de ouro do futebol brasileiro que fez propaganda de cigarro e, exatamente por isso, teve seu nome aliado ‘para sempre’ ao gosto do brasileiro em ‘levar vantagem em tudo’. Ele se arrependeu amargamente. Nós, não. Parece que não aprendemos.
Vamos viver amanhã um dos únicos dias em que ainda valemos alguma coisa. Através do exercício do voto, raro direito de verdade que ainda podemos praticar, escolheremos os que ocuparão a Prefeitura e a Câmara a partir do ano que vem. Podem ser palavras jogados ao vento mas insisto: essa é uma das poucas horas – e passam rapidíssimas – em que podemos fazer diferença.
Em Brasília, o STF – Supremo Tribunal Federal finalmente aponta culpados e se define por punições contra ‘mensaleiros’ que se locupletaram por anos, rindo na cara de homens e mulheres de bem deste País.
Que os ares brasilianos soprem também pelas bandas de cá, quando apontarmos nossas preferências às urnas. E que ninguém se esqueça: podemos até escorregar aqui e ali, mas, certamente somos muito melhores do que demonstramos.
ROBERTO LIVIANU
Estive ontem com o promotor de justiça Roberto Livianu, vice-presidente do Movimento do Ministério Público Democrático do Estado de São Paulo e coordenador geral da campanha “Não aceito corrupção” (www.naoaceitocorrupção.com.br). Ele tem andado por várias cidades falando sobre o tema. À noite, fez palestra na OAB. Entrevistado pelo “A Hora da Verdade”, de Everton Lima e Fábio Cruz, foi taxativo: “a corrupção está em todos os lugares, é uma crise de valores éticos. Há corrupção pública, política, administrativa e privada. Temos que controlá-la porque é impossível vencê-la. O caminho é a educação, o restabelecimento da ética, respeito ao outro e ao patrimônio público”. Com ele, o advogado e articulista deste Comércio, Acir de Matos Gomes, um dos organizadores da palestra na OAB.
‘É PRECISO MUDAR O CÓDIGO PENAL’
Recebi carta do leitor Ronei Carrijo, filho do casal Melchior e Carolina Neves Carrijo, ela, assassinada em sua própria casa por assaltante. Referiu-se Ronei ao texto Gosto amargo na boca, desta coluna, publicada em 18 de agosto, sobre sua mãe (leia em http://www.gcn.net.br/jornal/index.php?codigo=181622): “suas palavras foram de solidariedade para comigo, meu pai, minhas irmãs Lúcia Helena e Lucialda, netos e bisnetos, enfim toda a família. Passada sua morte foi que, como dizem, a “ficha” caiu. Levantei diferente, triste e desmotivado. Fui à missa como de costume e, (surpreendi-me) quando o sacerdote disse: ‘e, em particular, pelos 30 dias de falecimento de Carolina Neves Carrijo.’ Foi neste momento que realmente percebi que tinha perdido minha mãe. Fica a dor, a saudade, as lembranças. (...) Prendeu-se o assassino, mas espero que consigam prender todos que estiveram envolvidos na tragédia. Destaco também sua matéria Filhos da impunidade, publicada em 15 de setembro, quando você lembrou que ‘a meninada está muito doida e apoiada pela lei”. Afirmo que enquanto o Congresso Nacional não mudar as leis do Código Penal, tudo continuará difícil. Aproveito esta oportunidade para agradecer o trabalho e o empenho dos policias da DIG, em especial aos senhores Renato, Marcos e dr. Márcio Murari. Como disse meu pai em entrevista a este Comércio, ‘policia prendeu, a justiça solta.” Agradeço novamente, em meu nome e de minha família por suas palavras. Que Deus o ilumine sempre para você expressar anseios da sociedade.” Grato, Ronei.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.