O caldo nosso de cada noite; conheça esta tradição do francano


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A estudante de gastronomia Ana Laura Pucci Daoud toma caldo no restaurante de seu pai, que inaugurou o sistema delivery há cinco meses
A estudante de gastronomia Ana Laura Pucci Daoud toma caldo no restaurante de seu pai, que inaugurou o sistema delivery há cinco meses

Caldo é sinônimo de frio, certo? Não em Franca. Sem que ninguém saiba exatamente o motivo, o hábito de tomar caldos vem se fortalecendo-se a cada ano e não se restringe aos dias frios. Segundo a escritora e jornalista Sonia Machiavelli, que mantém uma coluna semanal de culinária no jornal Comércio da Franca, o crescimento da venda de caldos talvez se deva ao clima mais ameno que se faz presente na cidade na maioria das noites e pelos muitos universitários que aqui aportaram nas últimas décadas, todos eles geralmente ávidos por comida rápida e barata, características comuns às sopas e caldos.

Para Fuad Calixto Daould, ex-sócio do Canjão e há sete anos à frente da Caldos & Cia, a questão talvez seja mais cultural, tanto pela proximidade com Minas como pela ligação histórica com os caminhos de Goiás.

“As pessoas dizem que Ribeirão Preto não tem caldo por conta do clima quente. Franca tem um clima mais ameno, é verdade, mas Goiânia é bem quente e o caldo por lá é bastante popular”, afirmou Fuad.

Seja qual for o motivo, o fato é que esses alimentos têm sido consumidos cada vez mais em Franca. A cidade tem pelo menos sete casas especializados nesse milenar alimento, sem contar outros bares, restaurantes e espaços de conveniência que também trabalham com caldos.

E o mais interessante é que a venda de sopas e caldos vem crescendo também nas épocas mais quentes do ano. No Canjão, por exemplo, um dos mais tradicionais da cidade, o movimento começou a aumentar em abril.

Maria de Fátima Alves, há 16 anos no comando do restaurante que há mais de duas décadas serve caldos aos francanos, disse que esse tipo de alimentação vem caindo cada vez mais no gosto das pessoas e nos últimos anos vem se tornando mais constante durante o ano inteiro.

“É claro que no frio eu vendo mais caldo, enquanto que nos períodos mais quentes o que sai mais são as panquecas. Mas ainda assim, os caldos são cada vez mais procurados, a despeito do clima”, garante.

Antigamente, segundo a empresária, o movimento concentrava-se nas madrugadas. O caldo competia com o lanche, principalmente nos dias de show. Mas, hoje, afirma Fátima, “as pessoas já optam pelo caldo como se fosse um jantar”.

No bar Triângulo, o consumo de caldos também está em alta. “Meu pai abriu o bar há 34 anos. Era um bar normal, com várias opções. Mas ele foi o primeiro a comercializar o caldo de mocotó”, garante Marco Ferreira Silva, que há 17 anos tomou o lugar do pai, Armando Silva, mais conhecido como Finado, e acabou ampliando o número de caldos e se especializando nesse alimento.

Marco também diz que o caldo está saindo de maneira mais uniforme durante todo o ano. Apesar de não vender mais os cerca de 400 caldos que comercializava em um único dia no final de semana, em função de ter sido obrigado a retirar as mesas da calçada, ainda hoje o caldo é muito importante para o faturamento da empresa de Marco.

CONVENIÊNCIA
Nas Lojas de Conveniência dos postos Galo Branco e City Posto, que aproximadamente há cinco anos começaram a se especializar nesse tipo de alimento, a saída dos caldos também está acontecendo de forma mais regular, o que se repete no Cantinho do Caldo, há oito anos servindo sopas nas imediações do parque Fernando Costa, no tradicional restaurante Família Gaia, que há 20 anos oferece caldos e sopas aos francanos que se aventuram pelas noites da avenida Presidente Vargas e na Pizzaria, Caldos e Vinhos Forno de Barro, que já está três anos no mercado como pizzaria e há um ano como casa de sopas.

No Caldos & Cia, essa realidade não é diferente. Segundo Fuad, hoje em dia o caldo é uma opção bem presente na vida do francano. Para se ter uma idéia dessa realidade, em um único dia de um final de semana de março, ainda em pleno verão, foi possível verificar em sua contabilidade a venda de mais de 300 caldos nas mesas e quase 100 no delivery recém inaugurado, números que se aproximam das noites mais frias de julho, se comparados os mesmos dias do final de semana, ou seja, a sexta e o sábado.

“Apesar de eu ter uma variedade muito grande de opções em meu estabelecimento, eu conseguiria viver tranquilamente da venda de caldo durante o ano inteiro”, afirma.

De acordo com Fuad, o caldo equivale a 60% de seu faturamento, seguido da panqueca, com aproximadamente 30%, e as outras opções que representam os restantes 10%.

Na Pizzaria, Caldos e Vinhos Forno de Barro, de acordo com seu proprietário, Alexandre França Guasti, apesar de a pizza ainda ser o carro-chefe casa, os mais de dez tipos de caldos que a casa oferece aos clientes já representam mais de 30% do faturamento.

“Um dos caldos que têm saído muito é a sopa italiana, que é exclusiva de nosso estabelecimento. É uma sopa de legumes como molho pomodoro com duas colheres de vinho seco que são servidas na frente do cliente”, diz Alexandre.

No City Posto, a venda de caldos que começa às 16h e segue pela tarde, noite e madrugada, até mais ou menos às 6h da manhã, deixou a diretora do posto, Giselly Oliveira, bastante animada, tornando-se um item importante no faturamento da casa.

“Nossos caldos são self-service. Em dias mais frios, chegamos a vender cerca de 80 kg de sopa. Em dias mais quentes esse volume cai para 60 kg, mas continua saindo”, afirmou Giselly.

No Galo Branco, os caldos rivalizam com os lanches e com a galinhada durante as 24h do dia. Os caldos dominam as noites e madrugadas mais frias. Quando está mais quente, os lanches predominam, mas mesmo assim os caldos continuam saindo, afirma o gerente financeiro da loja de conveniência, Marcel Jardini.

“Os caldos estão saindo bem mais, mas em noites mais frias chegamos a vender 80% a mais, principalmente aqueles que saem no pão italiano, que são exclusivos de nossa loja.”

No Cantinho do Caldo, que fica na avenida Integração, os caldos são o carro chefe da casa, a despeito das panquecas e das porções, seja no inverno ou no verão. Mesmo sem números precisos para a comparação, o proprietário José Valentim garante que em um único final de semana chega a vender mais de 300 caldos nas mesas de seu estabelecimento, o que equivale a mais de 50% de seu faturamento.

“Mas é claro que se fizer um frio mais intenso esse número acaba aumentando um pouco.”

Para todos esses proprietários e gerentes, talvez a preocupação com uma alimentação mais saudável e plena de nutrientes seja o principal motivo dessa lenta e constante elevação na venda de caldos pela cidade.

“O que a gente percebe é que o caldo, além de mais nutritivo, é também mais leve que o lanche. Quando tomado com uma cerveja, não deixa a gente tão pesado”, diz Fuad.

O proprietário do bar Triângulo ainda acrescenta que tem vendido muito mocotó para pessoas que passaram por sessões de quimioterapia.

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