Matemática social não é fácil. O país conseguiu diminuir a desigualdade socioeconômica, mas ainda é muito desigual
A nossa desigualdade social nunca foi novidade para ninguém. Passamos séculos divididos entre senhores e escravos, com uma minúscula classe média meio perdida entre esses extremos. A igualdade pressuposta em nossa República também não vingou em seu vago intento de justiça. Durante o último século, porém, começamos a ensaiar o progresso. As indústrias começaram a brotar e com os imigrantes operários. As cidades puseram-se em marcha, aumentando a necessidade de serviços e criando um pouco mais de espaço para aquela esquecida classe média. E paralelamente a educação formal foi ampliando seus espaços.
Mas ainda assim a desigualdade seguiu sua resistência e firmou posição em nossa mentalidade de nação/empreendimento. Sempre mais afeita ao enriquecimento do que à cidadania, segurou-se entre esses extremos que somente aos poucos, e bem devagar, foram se tornando civilizadamente mais flexíveis.
Nessa última década, porém, parece que a desigualdade sofreu um golpe duro em sua inabalável posição. De acordo com o estudo realizado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a distância entre os mais ricos e os mais pobres diminuiu drasticamente entre 2001 e 2011, apesar de ainda estarmos entre os 12 países mais desiguais do mundo. Coisas da matemática social, nem sempre tão exata quanto aos resultados de suas somas e divisões. Nesse período, a renda per capita dos mais pobres cresceu mais de 90%, enquanto que a dos mais ricos cresceu na casa dos 15%.
Um avanço como esse, obviamente, deve ser muito comemorado. Afinal, um país mais igualitário em termos sociais é fundamental para melhorar a convivência entre todos os grupos e até mesmo para incrementar os negócios. A escala é até certo ponto natural. Como as pessoas aumentam seu nível de renda, passam também a gastar mais. Investem em sua formação, investem em bens duráveis, investem em lazer e em vários outros tipos de serviços, o que faz girar mais rapidamente a economia.
Mas, é preciso tomar cuidado com o que está por trás de todo esse crescimento. De forma geral, percebe-se que não foram as pessoas que conquistaram esse degrau de igualdade. No fundo, o receberam como presente, na esteira de todo o sistema BF (bolsa família e seus congêneres). O país também não fez sua lição de casa, não enfrentou de peito aberto as difíceis reformas que se fazem necessárias para a sustentação dessas conquistas no longo prazo. Para bancar esse sistema assistencialista aproveita-se de sua boa posição diante de um primeiro mundo fragilizado pela crise econômica mundial.
O problema é que a crise mundial não vai durar para sempre e as bolsas famílias precisam de um prazo para findar. E se nada tiver sido feito de concreto, aí a desigualdade poderá voltar com tudo, reinando novamente absoluta.
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