Lata de banha – 5ª parte


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E entre isso e aquilo, passou-se ano e meio após o casamento de Gaudêncio. A vida na fazenda de Gonçalves seguia lerda e segura, como os passos de boi no caminho traçado mil vezes, decorado, batido, monótono, ruminado. Nascera o filho de Gaudêncio. Deram-lhe o nome de Donizete, em homenagem ao padre Donizetti Tavares de Lima, que ficou famoso numa igreja da cidade paulista de Tambaú, diocese de Campinas, por graças, conversões e milagres atribuídos a ele, e que o mesmo atribuía a Maria Mãe Santíssima. Ficou conhecido como o Taumaturgo de Tambaú.

“O premêro dos bacurizinho”, dizia Doca, padrinho da criança, era natural. Lurdes, mulher de Doca, ensinou das Dores a cuidar do bebê nos três primeiros meses. Depois a esposinha de Gaudêncio ficou danada de boa neste trato.

– Dona Lurdes, como é que faz a primeira papinha?

E a mulher explicava.

– Dona Lurdes, que é que eu faço com esses meus pés inchados?

A mulher ensinava.

– Ai, dona Lurdes, me ensina a conservar os pedaços de carne!

– Ah, das Dores, pra tudo se dá jeito. Mode conservá as carne do porco e do boi, o mió é cuzinhá as gurdura de leitão até virá óleo. Adespois, entorna o óleo numa lata vazia de vinte litro, dessas que o Doca traz no paiol. Antes do óleo esfriá, você distrincha os pedaço da carne que quisé e joga no óleo. Quando esfriá, vira gordura, vira banha branquinha e ela conserva a carne por muito tempo. Quando ocê quisé fritar um naco quarqué, é só iscoiê um pedaço da lata, tirá e ponhá na panela quente. Já vem com a gordura. Dilícia de gostosura, sô! Mais deixa issu pru seu marido, qui é ele qui prepara as conserva de carne pra mim.

E das Dores segue aprendendo isso e muito mais.

Doca chega de supetão, encosta-se na coiceira da porta e diz com sua voz rouca e mansa:

– Lurde, sinhô Gonçarve mandô avisá que o moço das linha, carreter e pano vem aí, pra dispois de amanhã. E ocê, das Dores, vai querê tamém comprá miudeza pra casa?

A moça acena que sim com a cabeça.

– Vou mandá Gaudêncio prepará a charrete mode panhá o moço na porteira da estrada. Dessa veiz vai ficá uma semana aqui em casa. Ele qué visitá as fazenda e as colônia da região. É moço novo, premêra veiz qui vem pra cá. Vamu tratá o distinto cum jeito, qui é cunvidadu du patrão! Tem nome isquisito: Árvaro. Fora isso, diz qui é gente muito boa, de confiança.

Tudo combinado. Mas entre berliques e berloques, o melhor é esperar com um pé atrás. Não se sabe, nunca se sabe: o futuro é perigoso!

Gaudêncio, mais do que qualquer outro trabalhador rural da redondeza, vivia em função imediata da terra e da pequena família. Dividia seu amor simplório entre das Dores e o meninozinho Donizete. Deixava a cama aí pelas cinco da manhã. Coava o café, tomava-o com um pedaços de queijo em cura; dirigia-se ao curral, amarrava as vacas com suas crias e as ordenhava até clarear o dia. E enquanto houvesse luz do sol que alumiasse terreiro, cafezal, chiqueiro, a lagoa do jequitibá, o verde e as aves, as nuvens e a criação solta, o homem não parava de trabalhar, a não ser pelas nove e meia da manhã, quando almoçava ou na panha de café ou em casa junto de sua adorada esposinha e de seu amado filhinho. Roçava, limpava as trilhas do café, secava os grãos revolvendo-os com o rastelo de madeira, apanhava frutas e ovos, colhia esta e aquela verdura. Ajeitava a pequena produção diária na esteira da charrete; e num ir e vir constante e metódico, deixava o grosso no casarão do Doca e reservava um tiquinho suficiente para si e família.

A esposinha estalava de belezura! Favozinho de mel, piteuzinho adorado por Gaudêncio... Noites quentes aquelas!

Pouco conversavam. O moço levava jeito mais para escutador que falador, muito mais para reprodutor que sedutor romântico. Das Dores reclamava de nada não: tinha casa, comida, um homem que a adorava, um filho para cuidar... O diacho é que era bonita a danada! Fogosa, mas de brasa retida; quieta e encabulada.

– Gaudêncio, tá pra quase uma hora mode jardineira chegá diz Doca consultando seu relógio de bolso, retinindo ao sol das dez da manhã. É bão prepará a charrete e buscá o moço!

Cachorrada no pasto põe-se a ladrar, numa barulheira infernal enquanto o retireiro vai sobrepondo as tralhas no velho cavalo, atrelando-o à charrete. Pronta a rústica condução, percorre o caminho. Durante o percurso calmo, bucólico, Gaudêncio lembra das antigas lições de religião que aprendera no orfanato das freiras. Num raríssimo momento de análise e crítica, vê-se muito mais dependente e temente aos elementos da terra que aos inefáveis anjos e ajudas celestiais por meio de preces e promessas ao inatingível. A necessidade de uma tutela sobrenatural perde para a força bruta dos músculos, do reagir instantâneo às tempestades, do empenho físico para colocar na mesa o alimento do dia. Não se encanta mais ante o seu oratório tosco mal iluminado pela lamparina de querosene ou uma vela. Deixou para a mulher as lamúrias e, invertendo a psicologia do matuto dessas regiões, tornou-se agnóstico sem o saber. Sabia, sim, ser ele o agente de mudanças, de sobrevivência, porque nunca tivera em vida um sinal sequer da benevolência dos altíssimos. E assim levava a vida principalmente depois de casado. Era uma consciência que amadurecia muito lentamente, irreversível. De forma manhosa e firme, principiou a agir em modo próprio, de acordo com uma moral inconsciente que lhe permitia diferenciar o bem do mal, isto lá ao seu jeito. Doca, há poucos dias, vendo e sentindo essas diferenças, teria exclamado meio que descontente: “Eh, eh, nosso homi tá tomando opinião...”

Mais uma chibatada na anca do animal e eis a porteira que chega. Cheiro de terra molhada. Devia estar chovendo ali perto. A jardineira já havia passado e dela descido o moço Álvaro que, agora, estava de pé ao lado de duas malas marrons repletas de miudezas. Carecia mesmo de uma condução para carregá-las.
 

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