Corriam os anos 1980. Ao meio dia em ponto o pai aguardava a alguma distância do portão principal da escola, com a chave do Opala na mão. As crianças saíam alvoroçadas, correndo, cada uma com uma folha de papel nas mãos. Enfim as suas despontaram, o mais velho à frente, exibindo-lhe papel.
– Pai, a Tia de ciências vai levar todo mundo ao circo amanhã, à tarde. Você deixa a gente ir? Vamos pagar só meio ingresso.
A menina se antecipou:
– Pra ver os bichos, papai. Tem elefante, leão, macaco.
O pai franziu a testa.
– Hum, Vamos ver filhos, vamos ver. Até amanhã a gente decide, tá?
A tarde transcorreu tranquila. As crianças não mais tocaram no assunto.
O dia seguinte começou morno, com o Sol pendido para o lado Norte, como é natural do final do outono. O elefante enorme, pesadão, se movimentava em ritmo lento, erguendo as patas, uma após a outra, alternadamente, como se caminhasse, absorto, por uma estrada infinita. Os olhos cerrados, a respiração tranquila e até certo ar de descontração faziam ver que o gigante delirava. Os passos, que sempre devolviam as patas para o mesmo lugar, eram curtos, porque curta era a corrente que o prendia à estaca de aço cravada no chão, sob a precária cobertura de lona. O homem observava de longe, cismando, a completar o roteiro do infeliz paquiderme: Sol escaldante, a manada a se abanar com orelhas descomunais, farejando água, comida e lama fresca ao longe. Farejando e seguindo, sem pressa, sempre, sempre. Nenhuma dúvida quanto ao destino, embora o paraíso pudesse estar a dezenas, a centenas de quilômetros adiante. Paciência, resistência e extraordinário senso de localização são armas infalíveis contra as implacáveis secas s
azonais e as imensidões desérticas do Continente Africano.
De repente o homem é despertado do seu transe por um suave toque da filha em sua mão.
– Papai, por que eles amarraram o elefante?
– Deve doer a pata dele, pai. Argumentou o caçula que chegava correndo.
– Ora, era pra vocês ficarem no carro. Por que desceram? Eu disse que não demoraria.
– A gente queria ver os bichos também, pai. Esclareceu o primogênito, enquanto o grupo voltava para o carro, estacionado a meio quarteirão.
– Entrem, filhos, vamos embora. Já estamos ficando atrasados. As aulas começam em dez minutos.
No caminho, o silêncio denunciava a profunda impressão que a cena deixara nas crianças. Por seu lado, o pai deliberava sobre a autorização que teria de dar para o passeio prometido pela escola para o período da tarde. Mas o silêncio só durou até a chegada ao portão da escola e, antes que o pai anunciasse sua decisão, o mais velho interveio:
– Pai, acho que a gente não vai querer ir ao circo não. Você não se importa, não é?
– Não, filho, claro que não.
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