Censura fora de lugar


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Deputado fica indignado com conteúdo de filme e resgata o fantasma da censura a obras culturais

A democracia é realmente um regime de governo complexo. Exige de todos os cidadãos uma boa dose de paciência e uma enorme disposição ao diálogo, já que em sua essência paira inviolável a condição de liberdade. Liberdade de expressão, liberdade ir e vir, liberdade de escolha e outras mais. O problema, no entanto, é que liberdade não é um bem absoluto e sua explicação não cabe em um verbete do Google. Ao contrário, ela está mais para ‘algo que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda’, como arriscou em versos a poeta Cecília Meireles.

Nesse sentido, torna-se realmente difícil lidar com esse conceito em nossa prática cotidiana. Apesar de mais consolidada e espalhada pelo mundo, a liberdade ainda sofre ataques frequentes. Algumas pessoas, inclusive, às vezes a atacam alegando defendê-la, mas a sua própria, é claro, o que mostra claramente que além de não explicá-la, esses indivíduos ainda não conseguiram entendê-la.

Esse parece ser o caso do deputado federal, Protógenes Queiroz (PCdoB-SP), que depois de levar seu filho de 11 anos para ver o filme Ted, de Seth Macfarlane, postou em seu Twiter toda a sua indignação com o conteúdo do filme, que mostra a amizade de um homem com seu urso de pelúcia, que ao ganhar vida mostra-se beberrão, usuário de maconha e um exímio desbocado.

Segundo o deputado, o filme faria apologia às drogas e por isso não deveria ser assistido nem por adultos, quanto mais por adolescentes de 16 anos, como recomendava a classificação etária do filme.

Apesar de ter voltado atrás em seu impulso de pedir a censura do filme, e de afirmar que apenas solicitará aos ministérios da Cultura e da Justiça a reclassificação do filme para maiores de 18 anos, o deputado parece ter se esquecido de que os tempos de censura a filmes ou a quaisquer obras culturais deveriam ser apagados de nossa memória e não resgatados, e justamente por um membro de nosso legislativo.

Além disso, o deputado deveria se lembrar de que se ele tomou a liberdade de levar seu filho de 11 anos para assistir a um filme recomendado para maiores de 16, deveria também arcar com as consequências. Deveria, também, se revoltar com seu próprio falso moralismo e não com o filme, ou com o debochado urso, que com certeza não tem nenhuma responsabilidade sobre o tráfico e o consumo de drogas ou de bebidas alcoólicas no mundo de hoje, algo que faz parte do gênero humano muito antes da existência do cinema e até mesmo do Brasil.

É lamentável que em pleno século XXI um deputado federal perca o seu tempo e fale em resgatar o fantasma da censura, algo que comprovadamente nunca fez bem a país nenhum.
 

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