PRIMEIRA LEITURA — SABEDORIA 2
“Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”! Essa frase, proferida pelos ricos libidinosos dos tempos de Isaías, é repetida pelos “materialistas” de todas as épocas que, não se preocupando de forma alguma com Deus, com a religião ou com a vida futura, só pensam em comer, beber e divertir-se. Esses eram numerosos e agressivos na grande e rica Alexandria no Egito, onde, no meio de um grupo de israelitas, encontrava-se também o autor do Livro da Sabedoria. Neste livro, esses “descrentes” são denominados “ímpios”.
Por quem era formado esse grupo? Antes de tudo, por pagãos ricos e também por aqueles que tinham estudado e se sentiam donos de cultura superior. Desprezavam os israelitas. O que mais incomodava esses traidores era a vida honesta, exemplar e austera que, não obstante as dificuldades, os piedosos israelitas conduziam. A leitura de hoje relata o que “os ímpios”, então, decidem fazer: “Armemos ciladas contra o justo... provemo-lo por ultrajes e torturas... condenemo-lo a uma morte infame”.
Essas palavras como já dissemos são dirigidas contra os israelitas mas percebemos, facilmente, que correspondem ao que aconteceu com Jesus. Ele foi perseguido por seus próprios irmãos de fé, não porque fosse mau, mas porque era justo, porque conduzia vida exemplar, porque denunciava injustiças e anunciava mensagem desafiadora que incomodava os detentores do poder. O que aconteceu com os israelitas fiéis e com o próprio Jesus, sempre se repete com os fiéis autênticos.
SEGUNDA LEITURA — SÃO TIAGO 3
O trecho começa com a confrontação entre os instintos desregrados do homem (ciúme e contenda), dos quais procede toda a maldade, e a “sabedoria que vem do alto”. Continua apresentando características da “sabedoria de Deus”, que se manifesta onde há compreensão, bondade, misericórdia, paz, generosidade, onde não há inveja nem hipocrisia. Só os que se deixam guiar por esta “sabedoria” se tornam construtores da paz.
Quais são as causas das discórdias? São denunciadas a ganância de acumular bens materiais e, como consequência, inveja em relação àqueles que conseguiram possuir mais do que os outros. Guerras, lutas, contendas, existem porque os homens são egoístas, porque procuram dominar outros ao invés de colaborar; buscam os primeiros lugares, não os últimos, como Jesus aconselhou.
Os cristãos que seguem “a sabedoria que vem do alto” não deveriam deixar-se envolver em tais contendas. Empenhassem-se, de fato, em fazer somente o que agrada aos irmãos, eliminariam pela raiz a causa de qualquer desavença. Não se deve pedir a Deus coisas para gastar com vaidades, mas sabedoria, capacidade de entender que a única coisa que vale, é o serviço dos irmãos.
EVANGELHO — MC 9
Ao contrário da multidão que considerava Cristo somente um grande personagem, os Apóstolos, num determinado momento, reconheceram nele o Filho de Deus. Jesus estava a caminho de Jerusalém não para conquistar um reino neste mundo, mas para dar a sua própria vida. O tipo de Messias anunciado por Jesus está muito longe do imaginado pelos discípulos, está em oposição a todas as suas lógicas. Os rabinos ensinavam que o Filho de Deus não morreria jamais, que triunfaria sobre todos os inimigos... como aceitar então uma derrota ou até, sua morte?
Na segunda parte do trecho encontramos as consequências da falta de coragem na busca da verdade: os Apóstolos não entenderam as palavras do Mestre e continuaram se preocupando com seus problemas mesquinhos e ridículos:”quem entre nós será o primeiro?”Há problemas que o evangelho não trata diretamente, mas sobre o assunto “primeiros lugares” Jesus se manifestou com transparência absoluta: “Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos”. Talvez para evitar dúvidas, os evangelhos repetem seis vezes essas palavras do Mestre. Comenta-se, a exemplo: nossa cultura exige que, quem detém o poder, imponha a sua vontade e receba honras e privilégios próprios do cargo. Jesus, porém, rejeitou explicitamente: “Entre vós não deve ser assim”. Na comunidade cristã quem ocupa o primeiro lugar deve abandonar qualquer sonho de grandeza.
Na terceira parte, Jesus toma um menino, abraça-o e diz: “Quem acolhe um destes pequenos em meu nome, a mim acolhe”. As crianças são consideradas como modelo. É preciso tornar-se como elas para entrar no Reino de Deus. No texto, crianças simbolizam o ser fraco e indefeso que deve ser cercado de delicadezas e de desvelo. O discípulo de Cristo pode ser definido como aquele que, a exemplo do Mestre, “abraça as crianças”.
Mas pensemos: o que é uma criança? É aquele ser que depende completamente dos outros, que não produz nada, que só gasta, que precisa de tudo, que apronta mil travessuras; se não for controlada pelos pais, põe fogo na casa; é aquele que não raciocina como adulto. Temos a capacidade de amar, de “abraçar” os que precisam ser assistidos como “crianças”; os pobres, os que não têm juízo perfeito, que falam bobagens ou fazem desaforos, os mal-educados que atrapalham a vida das pessoas de bem? O que fazemos por esses? Abraçá-las não significa satisfazer seus caprichos, deixá-las fazer tudo o que queiram, mas sim, educá-las com amor, ajudá-las a crescer, tentar fazer com que parem de se comportar como crianças, para que se tornam “adultos”.
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