‘Toda a minha vida, eu tive vontade de estudar’, diz idosa


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A professora Sandra Barbosa dá aula de alfabetização para idosos no Centro de Convivência do Templo Espírita
A professora Sandra Barbosa dá aula de alfabetização para idosos no Centro de Convivência do Templo Espírita

Pegar um ônibus, ler uma placa de rua, escrever o próprio nome. Essas ações, corriqueiras para a maioria, ainda são obstáculos difíceis para alguns, especialmente idosos que foram criados na zona rural. Esse grupo é um dos alvos do programa de alfabetização do EJA (Educação de Jovens e Adultos) de Franca, que dá oportunidade a quem não pôde estudar quando criança de aprender a ler ou completar o ensino fundamental e médio.

Dos grupos etários que compõem as salas de aula do EJA em Franca, nenhum é mais expressivo que o dos idosos, que correspondem à metade dos alunos, de acordo com Célia Tavares, chefe do programa na cidade. Os cidadãos maiores de 60 anos são os únicos a ter cursos de alfabetização exclusivos para eles. As aulas são ministradas em centros de convivência do idoso: no Clube Lions Franca Sobral, no Jardim Redentor, e no Templo Espírita Vicente de Paulo, localizado no Jardim Aeroporto III.

As aulas de alfabetização no Templo Espírita começaram em fevereiro deste ano, quando foi inaugurado o Centro de Convivência no local. Seis meses depois, o curso já conta com 28 alunos, todos eles com histórias quase idênticas. Provenientes da zona rural, eles não tiveram condições ou permissão dos pais para estudar. Quando adultos, tiveram que cuidar dos filhos ou trabalhar.

“Toda a minha vida, eu tive vontade de estudar. Quando eu era nova, o meu pai não deixava. Aí apareceu essa oportunidade e não desperdicei. Agora, estou muito feliz”, diz Maria dos Anjos Pereira, 65.

Marinalva Silva, 62, também não pôde estudar na infância, porque morava na roça e a escola ficava longe. “Meu sonho é poder ler a Bíblia. Se eu conseguir, já está bom demais”, conta ela, que foi a primeira a se inscrever no curso. “Meus pais achavam que estudar era uma bobagem, o que complicou muito a minha vida. Agora, com essa chance, qualquer papel que ponho a mão estou lendo.”

Rosa Champan, 72, lamenta o fato de, aos 30 anos, ter sido forçada pelo marido a sair da escola para adultos para cuidar dos filhos, mas agora está aproveitando tanto o curso que não gosta nem de faltar.

Com a aposentadoria e um maior tempo livre, os alunos idosos perceberam que nunca é tarde para aprender. “Venho aqui para aprender a escrever o meu nome”, disse Elias Dias, 70.

“São as minhas filhas que têm que ler as cartas e boletos para mim. Não quero mais ficar dependendo dos outros”, afirmou Maria Tereza de Souza, 64.

Já Mercília Valentina, 63, comemora o fato de já poder entender o que dizem os letreiros dos ônibus. “Demora um pouco para ler, mas eu já consigo.”

Jovercina da Silva deu um motivo inusitado para o desejo de aprender a ler: quando viaja, tem vontade de entender o que está escrito nas placas da estrada. Já Mary de Almeida não quer só aprender, mas também ter contato com outras pessoas. “Estava muito deprimida, me sentia só. Além disso, estava muito esquecida, mas vi na TV que ler é bom para memória. Por isso, vim para a aula.”

A aula avança lentamente. As professoras Sandra Barbosa e Genoveva de Jesus Onório Naza, a Vevinha, são pacientes e tentam incentivar seus alunos o máximo possível. “Sempre começamos a aula com uma oração e uma mensagem de otimismo”, conta Vevinha. A frase do dia em que a reportagem visitou o curso era a seguinte: “Seja um raio de luz a iluminar a vida das criaturas que cercam você”.

Exceção
Apesar de os idosos do Centro apresentarem desejo de prosseguir os estudos, não é isso que acontece na maioria dos casos (leia mais em texto desta página). O ex-gráfico e agora comerciante Marcos Medina Balieiro, de 58 anos, é uma exceção. Ele foi alfabetizado pelo EJA em 2009 e não parou de estudar desde então. Hoje, está no 1º ano do ensino médio - as séries nessa modalidade de ensino são completadas em seis meses - e ainda pretende fazer faculdade de pedagogia para ser professor de português. O conhecimento da língua, Balieiro já tem: ele é conhecido como “O Poeta” na sua escola, por causa das poesias que escreve. “Hoje está muito mais fácil de estudar do que antes. Nessa idade em que estou, aprendi a ampliar os meus horizontes em vez de procurar a minha aposentadoria e ficar quietinho em casa.”

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