Não era o casamenteiro santo Antonio, mas pretexto maior e mais perto que este para Gaudêncio conhecer aquela que possivelmente seria sua mulher, nos planos de Gonçalves e Doca, só mesmo no outubro do outro ano.
Deu-se a festa.
Era de tirar o fôlego.
Primeiro a missa sob a paineira, ministrada pelo padre que rezava na capela da fazenda dos Lombardi. Depois da missa, sai uma pequena procissão de frente do altar improvisado. Dois matutos retintos carregam a imagem do santo preto que se equilibra em tosco andor.
- Lá vem meu parente!, - exclama Doca respeitoso, tirando o chapéu e o assentando sobre o peito.
Caipiras e esposas de véu formam fila dupla ladeando o santo. Passam primeiro em frente ao casarão do Doca, sobem até a porteira da sede, descem por trás da paineira, tudo iluminada pelas velas que os fiéis trazem à mão. O guem-guem-guem das preces repetidas sobe aos ares. E de outro lado, encostados nos moirões dos currais, grupos de músicos aquecem as goelas com cachaça, na espera da função.
Dá-se o erguimento do estandarte, imagem do padroeiro. Dois ou três foguetes explodem nos ares, num clarão repentino. Músicos e cantores percorrem o mesmo trajeto na curtíssima procissão e se estabelecem ao lado das enormes raízes expostas da paineira. Ajeitam-se e animam a festa.
Tambores, caixas, pandeiros, sanfonas...
Um triângulo intruso nessa melopeia parda paulista acompanha chocalhos e violas. Dança, cantoria, ginga... E a mesma frase é repetida indefinidamente. É a batida da percussão que mantém o ânimo na noite enluarada. Quem visse de longe, por cima de uma colina, o encontro musical e de movimentos desses caipiras, diria tratar-se de um conciliábulo de bruxos. Mas a festa era santa. Ou ao menos se pretendia que fosse.
Música, dança, coxas, peitos, lábios, santos, poeira, estandarte bailando no ar... Fuzuê!
Doca, já animado pela cachaça, promove o encontro de Gaudêncio com das Dores, a convidada de Gonçalves. E lhe mostra a casinha do retireiro, renovada, um requinte de simplicidade. A moça se mostra surpresa e adivinha o que vai na alma do pretalhão. Então, é só botar olhos em Gaudêncio e sentir se o moço leva jeito, porque o resto estava de bom tamanho para a moça: casa, comida e a paz do campo. Carece mais?
Parece que não carecia... Parece também que Gaudêncio levava jeito, pois no janeiro seguinte houve o casório; com juiz de paz, mas sem festa alguma.
Gaudêncio nunca se sentira tão feliz em sua vida!
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Quem se interessaria em visitar esses locais retirados? Quem, por acaso, mostraria gosto ao topar com o chiqueiro mal-cheiroso de porcos, com o curral atapetado de excremento de vaca e infestado de moscas e pernilongos? Quem teria prazer em contato com a poeira levantada pelo vento, entupindo as narinas como fuligem avermelhada, ardendo as vistas? Sem contar a irregularidade das estradas, a água salobra, o calor que desanima ou o frio que imobiliza?
Há de se contar nos dedos: o proprietário, é claro, pois o campo é sua sobrevivência; das Dores (ui, que esta se encontra na sétima lua de gravidez!), alguns parentes próximos que só previam a beleza bucólica do verde e horizontes e o silêncio atordoante das estadias retiradas... Mas se há alguém interessado mesmo em visitar essas fazendas é o caixeiro-viajante, o vendedor de miudezas para o cotidiano doméstico, com sua fala mansa, pausada, especialmente treinada para lidar com matutos e suas esposas. Estas veem no vendedor ambulante rural uma oportunidade rara de saber o que anda acontecendo nas cidades, o dedinho de prosa sobre tecidos, carretéis de linha, óleo de peroba e outros medicinais... Quando a patroa ficava sabendo dia de chegada de um desses, aprontava-se toda como se fosse a uma festa. E esperava, casa arrumada, filhos no terreiro, marido na roça e tome prosa de respeito e de venda. Aliás, este era um ponto de honra: o respeito! Os maridos davam a última palavra para a licença de um desses entrar na fazenda, visitar a sua casa, conversar com sua patroa. E essa licença só era concedida a quem fosse recomendado pelo dono de lojas da cidade ou por um amigo vizinho. Sabe-se lá quem desce da jardineira, toma a charrete, atravessa o campo e vem prosear dentro da casa com a mulher da gente!
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