Reportagem de Nelise Luques e Daniel Rodrigues
Ainda abalados com o sequestro da filha Clara Alves Campos, 15, o fazendeiro Lauro Campos, 50, e sua mulher, a dona de casa Iolanda Campos, 46, moradores de Cássia (MG), disseram que perdoam e rezam pelos quatro sequestradores da adolescente. “Somos católicos e rezamos para eles também, para que Deus toque no coração deles e eles mudem de vida. Queremos o bem deles também”, disse Lauro, ontem, por telefone, em sua casa.
Até esta quinta-feira, a família estava na sua residência em Cássia, onde o sequestro aconteceu na última terça-feira, dia 18, mas planejava viajar. Os pais de Clara disseram que estão muito transtornados com a história e preferem receber a reportagem em outra ocasião, mas aceitaram falar por telefone sobre o susto vivido pela família nesta semana. Clara não foi entrevistada porque, segundo os pais, está consternada. “Minha filha está muito abalada ainda, está chorando muito. Precisamos dar um tempo, ainda está muito delicado”, disse a mãe, que acena para a necessidade de Clara fazer tratamento psicológico para superar o trauma. “O psicológico dela está péssimo. Ela fala que nem quer voltar para a escola porque tudo aconteceu no horário que estava saindo para estudar.”
O sequestro que chocou a cidade mineira de 18 mil habitantes ocorreu por volta das 7 horas de terça-feira. Iolanda, como faz todas as manhãs, estava com a filha no carro para levá-la para a escola - no Centro da cidade. No momento em que tirava seu carro, um Palio, da garagem de sua casa, foi cercada pelo veículo dos bandidos. Homens encapuzados e armados desceram, atiraram duas vezes para o alto e raptaram Clara. Um dos bandidos entregou um bilhete nas mãos de Iolanda. Ela disse que na hora nem conseguiu ler por estar muito assustada. A mensagem pedia R$ 1 milhão pelo resgate da adolescente e avisava que o bando faria contato com a família em 48 horas. “Foi tudo muito rápido. Eu pedia para eles pelo amor de Deus não levar minha filha. Isso gritei e todos os vizinhos escutaram. Eles foram embora e fiquei na rua gritando por socorro.”
Clara ficou em poder dos sequestradores por mais de 24 horas. Na noite de terça-feira, dia do crime, os pais dela passaram a noite em claro. O drama terminou na manhã de quarta-feira, quando a adolescente apareceu na delegacia de Patrocínio Paulista. Ela contou aos policiais que ficou em uma casa que não sabe em que cidade fica e sempre era vigiada por três assaltantes. A quadrilha deixou a jovem com as mãos amarradas com fita adesiva próxima a uma árvore. Clara conseguiu soltar as mãos e depois de andar cerca de 15 minutos chegou à rodovia Ronan Rocha, onde conseguiu carona até Patrocínio Paulista. “A gente não fica perguntando para ela do sequestro e ela fala pouco sobre o que aconteceu. Só disse que ficou em um quarto, recebeu comida e tinha ventilador. Ela conta que não mexeram com ela nem nada e não foram agressivos”, disse Iolanda. Aos policiais, a adolescente declarou que foi ameaçada para não contar sobre os sequestradores. “Ela fala que não viu nada deles, nem os olhos, porque ficavam encapuzados. Também não vi nada, nem o carro em que estavam, só sei que era prata e pequeno”, disse a mãe.
APOIO
Iolanda tem quatro filhas. A família tem recebido parentes e amigos em casa todos os dias desde que o crime aconteceu. “No momento que ela chegou ontem (quarta-feira) foi muita alegria, agradecemos muito a Deus. A casa estava cheia, só que depois que o pessoal foi embora e ficamos mais quietos a gente sentiu o choque, ficamos anestesiados, parece que flutuando”, disse a mãe.
A família agradeceu as orações - inclusive de desconhecidos - e o empenho dos policiais. “O pessoal da polícia foi muito bom e profissional. Em primeiro lugar colocamos Deus porque a corrente de oração ajudou mesmo na libertação dela. A gente nessa situação tem dificuldade de concentrar, de rezar e contamos mesmo com os amigos, a população”, disse o pai.
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