Narciso e Eco


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Será que 1 + 1 é sempre igual a 2? Na Matemática sim, mas em outras disciplinas, pode não ser. Explico. O psiquiatra Paulo Pereira, ao falar sobre o símbolo da estruturação psíquica do ser humano, utiliza-se de modelo matemático.

Para ele 1+1=0 acontece no momento do nascimento. Psiquicamente não há nada de ser ainda. 1+1=1 acontece na simbiose entre a mãe e a criança. 1+1=2, quando a criança passa pela fase de individualização, que ocorre na família. Passa a reconhecer a existência de outras pessoas. 1+1=3 se dá quando há tridimensionalidade, ou seja, vivência em sociedade. Faremos uma reflexão pautada nessa premissa, na mitologia e nos dizeres de Fernando Pessoa, ‘O mito é o nada que é tudo’.

Eco era uma bela ninfa, amava os bosques e os montes. Tinha, porém, um grande defeito: falava muito, e em qualquer conversa sempre dizia a última palavra.

Um dia, Juno saiu à procura do marido por desconfiar que ele estivesse se divertindo com as ninfas. Eco conseguiu distrair a deusa até que as ninfas fugissem. Por isso foi condenada a usar a língua apenas para responder e dizer a última palavra utilizada por alguém.

Narciso nasceu com rara beleza. Sua mãe, preocupada se ele viveria até a velhice, consultou o advinho Tirésias que lhe respondeu com uma afirmação: ‘sim, se não chegar a se conhecer’. Em razão disso, ela nunca deixou que ele se olhasse no espelho. Narciso não conhecia, portanto, seu belo rosto. Por causa da sua beleza as ninfas queriam o seu amor, mas ele as desprezava. Um dia, Narciso e Eco se encontraram. Como Eco somente respondia com a última palavra utilizada por Narciso, ele também a desprezou. Eco foi para um monte e o amor não correspondido a consumiu. Restou-lhe apenas a voz e os ossos. Os ossos se transformaram em rochedo e a voz se dissipou pelos ares. Até hoje é possível encontrá-la nos montes. Outra ninfa, vendo o que ocorreu com Eco, pediu à deusa Nêmesis que punisse Narciso, condenando-o a que amasse com a intensidade, mas sem possuir a pessoa amada. A punição foi concedida.

Havia uma fonte límpida. Narciso dela se aproximou para beber água e, quando se abaixou, viu sua face refletida no espelho d’água. Apaixonou-se pelo que viu. Ficou contemplando a visão até que, exausto, deitou na relva e fechou os olhos. No lugar de sua morte as ninfas encontraram apenas uma flor.

Olhando para a nossa sociedade encontramos várias Ecos e vários Narcisos. São pessoas que sabem falar, mas não sabem agir. Apenas repetem o que ouvem, não têm senso crítico. Outras olham apenas para si mesmas, são egocêntricas, afirmam que só elas sabem fazer corretamente.

Quando ficamos presos em nós mesmos, ainda que inseridos na sociedade, somos iguais a zero (1 + 1= 0) tal como na fase do nascimento, não há nada de ser. Se o encontro de Eco e Narciso fosse diferente, provavelmente o final deles também seria. Ele deixaria de olhar somente para si, estaria acompanhado de uma bela ninfa dotada de linguagem que poderia lhe dar a visão do Outro. Eco teria um belo companheiro que lhe ajudaria a falar o necessário e no momento certo. Poderiam ter filhos que seriam belos e dotados do poder da comunicação, porém, nada disso aconteceu.

A mitologia pode ser utilizada como fonte de educação para nós, pobres mortais. Seu conteúdo ensina várias lições de vida.

Acredito que a nossa sociedade se tornaria melhor, menos narcísica e com menos ecos.

Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário 

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