Novo corregedor Nacional de Justiça tem estilo mais "ligth" que o de sua antecessora; torcida é para que transparência não se perca
Diz um ditado popular que a justiça é cega. Para alguns, porém, essa cegueira não estaria ligada à imparcialidade das decisões, mas sim à falta completa de visão, impedindo que seus agentes percebam as várias injustiças ainda existentes.
E se julgarmos pela ótica da sabedoria popular, talvez possamos encontrar alguma razão nesse raciocínio. Afinal, a lentidão das decisões judiciais, os erros cometidos, a pompa exagerada e extemporânea e os pesos e medidas diferentes utilizados por juízes em muitas de suas decisões, às vezes mais influenciadas pelas condições socioeconômicas dos réus do que pela racionalidade das leis, acabaram impingindo ao Judiciário uma imagem bastante ruim junto à população.
Nos últimos dois anos, porém, a corregedora Eliana Calmon, a primeira mulher a integrar o Superior Tribunal de Justiça, parece ter sacudido um pouco a pasmaceira em que se encontrava esse poder da República. Em sua gestão à frente da Corregedoria Nacional de Justiça ela funcionou como uma espécie de ‘ombudswoman’ do Judiciário brasileiro. Atuou com rigor e causou revolta em boa parte do Judiciário ao utilizar a expressão ‘bandidos de toga’ para acusar a existência de vários juízes corruptos, algo que deveria até ser considerado natural em um país com um histórico de corrupção tão acentuado, mas que não caiu bem na interpretação de juízes e magistrados que talvez se julguem imunes a esse tipo de desvio, ou melhor, de crítica.
Sua frase, porém, acabou funcionando como uma bomba de efeito moral. Depois dela, uma onda de transparência e de reforma começou a ser defendida em várias cortes espalhadas pelo país, inclusive naquelas que funcionavam como pequenos feudos, resistentes a qualquer proposta de fiscalização interna ou externa. Os exagerados salários de magistrados começaram a ser divulgados, assim como os penduricalhos que os inchavam. As práticas que permitiam o recebimento de salários extras foram combatidas e vários juízes acabaram indo para o banco dos réus.
No entanto, sua gestão na Corregedoria chegou ao fim. Para o novo corregedor, Francisco Falcão, também ministro do STJ, o trabalho iniciado por Eliana Calmon será mantido integralmente. Segundos suas palavras, as ‘maçãs podres’ deverão ser afastadas do Judiciário para não comprometer a maioria dos magistrados.
Esse trabalho, porém, terá agora uma marca diferente, porque segundo Falcão cada um tem um estilo de trabalho. E de acordo com o novo corregedor, o seu é mais ‘light’ e mais conciliador.
Nessa mudança, portanto, fica uma grande interrogação para todos. Se o que mais funcionou na gestão anterior foi o estilo mais combatente da ex-corregedora e sua frase bombástica, será que um tom mais conciliador não dará às maçãs podres a tranquilidade necessária para que elas voltem a fechar seus feudos e a renegar toda a transparência que foi alcançada?
A torcida é para que não.
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