Perfil: Augusta Paludetto, a rainha do bordado e madrinha da rádio


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 Ainda hoje, Augusta Paludetto, registrada pelo pai como Philomena, faz bordados na máquina antiga, tendo sempre o velho rádio portátil ao lado
Ainda hoje, Augusta Paludetto, registrada pelo pai como Philomena, faz bordados na máquina antiga, tendo sempre o velho rádio portátil ao lado

A energia e a inquietação são com certeza marcas registradas de Augusta Paludetto. Mesmo aos 94 anos de idade, a madrinha da rádio Difusora AM, como foi carinhosamente reconhecida por todos os seus funcionários, parece não sossegar durante um só momento. Ainda faz caminhadas pelas ruas de Franca, prepara alguns de seus quitutes especiais quando tem convidados (dizem que a polenta é imperdível), adora receber netos, bisnetos e amigos para aquele cafezinho da tarde e odeia feriados e domingos, quando o movimento desaparece das ruas e tudo parece mais morno e tranquilo.

E até mesmo nas missas de domingo Augusta acaba involuntariamente mostrando sua energia e disposição, pois sempre anda pela igreja com a sacolinha recolhendo as oferendas, o que geralmente surpreende os fiéis.

Durante a entrevista, seu espírito inquieto mostrou-se por diversas vezes. Levantou-se para fazer recomendações a sua secretária. Depois, levantou-se também para pegar amostras de bordado, atividade que faz há cerca de 70 anos. Levantou-se para pegar fotografias que lembravam o passado e no final levantou-se para mostrar sua casa, as plantas e os passarinhos que cuida e adora, sempre com uma agilidade e firmeza surpreendentes para a idade que carrega.

Essa forma agitada de ser talvez se explique pela mistura advinda da união entre sua mãe, a costureira Maria Brocanelli Pousa, italiana teimosa, como ela mesma diz, e o funileiro Joaquim Pousa Araújo, que pela própria definição de Augusta era um “galego” tão turrão quanto a mulher.

Uma teimosia que começou na decisão do próprio nome de Augusta, registrada às escondidas por Joaquim com o nome Philomena, em homenagem a uma tia dele então falecida. Um registro que obviamente deixou Maria Pousa indignada, mas não vencida. No batismo, deu o troco, impondo o nome de Augusta, que talvez por questões de fé ou por ser mais fácil e sonoro, acabou ficando para o resto da vida.

Nascida em São Tomás de Aquino, aos três anos ela já estava vivendo em Franca com os pais e mais seis irmãos. Estudou até o quarto ano no colégio de freiras Jesus Maria José, mas precisou sair para trabalhar junto com os irmãos para ajudar nas despesas.

“Meu pai colocou a gente para limpar café no armazém. Ficávamos ao lado da esteira e tirávamos a sujeira que vinha junto com os grãos”, lembra-se Augusta, que diz ter ficado mais de cinco anos nesse trabalho.

Aos 19 anos, casou-se com Geraldo Paludetto, com quem montou uma venda lá pelos lados dos coqueiros, como era conhecida uma região que na época era totalmente fora da cidade e que hoje é praticamente central, em uma das rotatórias da avenida Champagnat, próxima ao restaurante Cozinha da Fazenda e do Posto São Paulo-Minas.

Quando em 1948, aproximadamente, Geraldo adquiriu uma máquina de beneficiar arroz e eles mudaram-se mais para o centro da cidade, ela pode então ficar mais focada nos trabalhos da casa e nos cuidados da família.

Mas como Augusta não conseguia ficar parada, ela logo encontrou uma maneira de continuar ajudando nas despesas da casa. Retomou o bordado que havia aprendido nos tempos de menina e, com a máquina que ganhou de Geraldo e que a acompanha até hoje, começou a bordar para as famílias francanas.

“Acho que a máquina já tem mais de 100 anos, porque quando o Geraldo comprou ela já era velha e usada”, se diverte.

Bordadeira dedicada, ficou bastante conhecida em Franca. Bordou enxovais para vários casamentos importantes que aconteceram na cidade. Bordou as fronhas e os lençóis que inauguraram o Hospital Regional. Bordou uniformes para escolas, bordou logomarcas de empresas e tudo o que se possa imaginar que tenha levado bordado em nossa cidade.

“Meus bordados fizeram muito sucesso em Franca e na verdade fazem até hoje, pois ainda sou muito procurada pelas pessoas.”

MADRINHA DO RÁDIO
Mas além do bordado, também a paixão pelo rádio fez de Augusta uma pessoa bastante conhecida na cidade. Acostumada a ouvi-lo desde criança, quando o rádio ainda era aquela peça imponente no centro da sala, similar ao que é hoje a televisão, Augusta afirma não gostar muito de TV e que, talvez pela profissão, se entregue com mais regularidade às ondas do rádio, fiéis companheiras das muitas e demoradas horas que já passou diante da máquina e de seus preciosos bordados.

Com seu radinho portátil e antigo, sintoniza principalmente a Difusora AM, que já ouvia antes de a emissora mudar sua sede para a rua Tomás Antonio Gonzaga, ao lado da casa dela.

“Eu sempre gostei da Difusora, mas quando ela mudou para o prédio ao lado de minha casa, aí eu fiquei mais fiel ainda”, lembra Augusta.

Uma fidelidade que foi crescendo lentamente, no mesmo ritmo em que foi se integrando com a equipe da rádio, cujos membros começaram a perceber em Augusta uma pessoa sempre pronta para ajudar, uma verdadeira fada madrinha a qualquer hora do dia ou da noite.

Aos poucos, ela se tornou uma espécie de protetora, secretária e ajudante dos funcionários da Difusora. E sua casa se transformou em extensão da emissora, separada apenas por pequenas janelas nas quais pessoas se debruçavam para chamá-la.

Com o tempo, foi escolhida por todos os funcionários como a madrinha da rádio Difusora, tanto pelos que ainda lá estão até hoje como por aqueles que foram para outros empregos.

Vitória Fernandes, funcionária da Difusora por mais de 20 anos, e até hoje amiga de Augusta, se lembra da época em que todos recorriam à “madrinha”. “Ela era a nossa salvação. Faltava café, açúcar ou qualquer outra coisa, a gente colocava a cabeça na janela e já gritava: dona Augusta!”, se diverte Vitória.

E logo surgia Augusta, sempre pronta a resolver os problemas dos radialistas, que obviamente não se resumiam apenas ao açúcar e café, mas também se estendiam para o revigorante chá de boldo que curava a ressaca daqueles que exageravam um pouco mais na cerveja da noite anterior, a pregar botões de calças e camisas que se perdiam pelas jornadas na rádio, a fazer uma comidinha extra para aqueles que precisassem por algum motivo dobrar a jornada e até mesmo a servir um almoço às quintas-feiras para todos os funcionários, algo que se repete até hoje, a despeito de algumas mudanças que mexeram com o ritual.

Hoje em dia, o almoço acontece na sexta-feira e, devido à dinâmica apressada do cotidiano atual, bem como à distância que hoje existe entre a casa de Augusta e a sede Difusora, agora no prédio do GCN, a frequência já não é mais tão intensa quanto era antes, mas continua suficiente para que a tradição não se perca.

Mas se Augusta tornou-se uma figura importante para a rádio Difusora, a recíproca também foi verdadeira e a emissora tornou-se fundamental na vida dessa bordadeira. Acostumada ao movimento e à gostosa agitação que a demanda dos funcionários da rádio proporcionavam a sua vida, Augusta sentiu muito a mudança da rádio.

“A transferência da Difusora foi muito triste. Chorei tanto que para mim, ao invés de uma mudança, aquela movimentação mais parecia um féretro.”

O BORDADO E A FAMA
Se já não bastasse o fato de Augusta ter bordado durante quase 60 anos para diversos tipos de clientes, o que a tornou muito conhecida por toda a cidade, suas alegres participações na programação da Difusora foram aos poucos aumentando ainda mais a força dessa imagem.

“Os mais novos talvez não me conheçam. Mas se for de Franca e tiver mais de 30 anos com certeza já ouviu falar de mim”, diz ela.

Atualmente, Augusta mantém a rotina de sempre. Acorda perto das 5 horas da manhã e já sintoniza seu rádio na Difusora, quando ouve o programa Balakubaco, comandado pelo radialista Daniel Rodrigues. Um pouco mais tarde, faz uma das poucas concessões a outras rádios da cidade e sintoniza a Imperador, onde aproveita para orar. Mas logo está de volta à emissora da qual é madrinha.

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