O maior festival gastronômico do hemisfério sul, que não ocorre no Brasil, serviu para matar de inveja os chefs brasileiros que por lá palestraram, comeram, cozinharam. O Mistura Apega é o festival gastronômico que acontece todos os anos, há doze, no Peru, e significa isso mesmo que imaginamos: uma mistura que não obedece padrões definidos, apenas privilegia o modo de vida dos diferentes povos que constituem o país peruano. A intenção do governo peruano é que todo o país esteja ali culturalmente representado nas mais diversas formas: na dança, na música e na comida, principalmente.
O festival é montado no Terreno de Marte, em Lima, e abriga um mar de barracas e mesas de piquenique para os milhares de visitantes - trata-se de um evento também popular. O evento é peruano, mas, recebe muito bem chefs estrelados, estudantes e centenas de jornalistas do mundo inteiro. Na tenda dos chefs estrelados, onde não há oba oba, muitos têm espaço para falar de seus países e culturas.
E foi o caso do Brasil, que mais uma vez estava lá representado pela chef Roberta Sudbrack, que palestrou e cozinhou utilizando ingredientes marcantes na nossa culinária, aliás, ingredientes que atualmente figuram no cardápio do restaurante dela: rapadura e farinha da casca da banana verde. E, claro, para não desapontar os anfitriões, fez um prato surpresa com ingredientes peruanos.
Nossa chef preparou um prato com quinoa, o grão símbolo dos povos andinos, e algas esféricas: bolinhas de algas verdinhas pluricelulares, muito bonitinhas, quase diáfanas. São comestíveis, mas indica-se cuidado no consumo, pois tem forte poder diurético. É um ingrediente da culinária dos índios do Peru e do Chile e, olha que coisa, nossos índios, os pataxós, também comiam essas algas, que eram coletadas ao longo de nosso litoral.
O Mistura tem muitas estrelas, mas nenhuma se compara ao überchef Gastón Acurio - os peruanos são loucos por ele. Para os estrangeiros, ele e o Peru se tornaram a mesma coisa, é uma espécie de ministro cultural sem cargo. Gastón contou ao mundo como é o Peru, Gastón convenceu o mundo que a gastronomia peruana é deliciosa, saudável, além de exótica. Foi esperto e utilizou-se do fascínio que a Floresta Amazônica exerce no mundo inteiro e “fez” do Peru porta de entrada para esse mágico e inexplorado “planeta verde”. E, sinceramente, nos deixou comendo poeira, mesmo com o Brasil tendo quase 7 vezes mais Floresta Amazônica que os peruanos...
A jornalista Alexandra Forbes, brasileira, mas residente há anos em Montreal, nos conta indignada como a culinária peruana se tornou respeitada no mundo inteiro, bem como a proliferação de restaurantes peruanos. Nos conta ainda como Gastón Acurio soube capitular em seu favor a grande diversidade amazônica.
Lendo Alexandra e lembrando-me das críticas que fazemos ao nosso chef maior, Alex Atala, sinto que há uma diferença de postura entre os dois povos. O povo peruano tem imenso orgulho de sua origem indígena e o que é dele é melhor que o do outro e acabou. Por isso, o povo peruano está fechado com o chef Gastón, e não se ouvirá críticas a ele, e o que ele faz é o melhor e acabou de novo! Aí caminham todos num sentido único.
Outro aspecto diverso é a popularização da culinária no Peru e a elitização da gastronomia brasileira. Haja visto o preço dos livros de gastronomia, o preço dos ingressos dos fóruns e congressos gastronômicos. A integração das cozinheiras, de produtores, de agricultores é fundamental ao processo de expansão e de divulgação da real culinária brasileira.
Lá fora, os brasileiros consumidores são já figurinhas carimbadas nos melhores restaurantes do mundo, são tomados por exigentes e conhecedores da alta gastronomia. Os grandes chefs sabem que brasileiro nenhum entra desavisado nos seus restaurantes e, quase sempre, já sabe o que irá comer. Ótimo, o intercâmbio é muito bom. Mas, se por um lado aprendemos a comer “tão bem”, falta-nos ainda saber dar de comer: e ir além da feijoada e do churrasco.
Dica da semana
Vamos falar hoje de sopas com carne. Sei que essa época de intenso calor não está nem um pouco propícia para as sopas, mas para quem, como eu, ama sopa, independente do termômetro, vai a dica.
Adoro sopas com carnes, mas normalmente não nos preocupamos muito com ponto, nem com o tipo da carne que vai na sopa porque, envolvida e fervida com todo o caldo, tanto faz.
Mas, dia desses vi uma receita com foto de uma sopa oriental com a carne bem ao ponto e suculenta... Imediatamente, me deu água na boca!
Daí, fui experimentar e ficou maravilhosa mesmo. Basta ter um pouquinho de capricho. Faz-se a sopa, com caldo claro e poucos legumes. A carne não cozinha no caldo. Primeiro esfrega-se gengibre ralado na carne, que pode ser contrafilé em bifes altos. Depois aquece-se muito bem uma frigideira e retira-se toda a gordura da carne, Aí é só selar a carne na frigideira, 2 minutos de cada lado.
Retira-se do fogo, corta-se os bifes em pequenos pedaços, no sentido contrário ao das fibras, como fazemos com churrasco e coloca-se por cima, e por último. Coma imediatamente.
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